sábado, 19 de fevereiro de 2022

Sobrevivamos!

Todos nós em algum momento viramos... estatística. Algumas mais frias, algumas mais importantes, muitas e muitas sem nenhum sentido. Mas é um destino, inescapável. 


Pois bem... nesta semana que passou me transformei numa. Que escapei por muito tempo e cuidado. Testei positivo para Covid, nestes testes de farmácia. E quanto medo apareceu ali naquele segundo. Medo, raiva, angústia e alívio, muito alívio. Foi o farmacêutico colocar o líquido no sensor, destes que lembram os testes de gravidez e prum: os dois risquinhos se preencheram. Meus sintomas foram leves: uma irritação na garganta, que mais me lembrava aquelas irritações causadas por excesso de ronco ou refluxo. Um pouco de catarro e uma dorzinha de cabeça insistente, renitente, lá no fundinho, contínua, uma linha. E o outro sintoma, a melancolia e o desânimo. Estas duas últimas, difíceis de lidar também.


Na semana anterior tinha tomado decisões importantes: voltei a frequentar o centro da cidade, onde fica meu escritório. Local que faz parte da minha vida: o prédio do escritório, o café da esquina, a lotérica. A banca de jornal. O pão de queijo, o mate, os "bom dia" em profusão, o "como é que estão as coisas?". Papeei com o dono do café e na lotérica. Puxa vida... a vida parou em 2019 e a gente pouco se dá conta disso. Eu compro tíquetes do café e a última compra foi em 2019. Cinquenta cafés. Ainda tem mais de trinta... 


Também comecei a atender mais pacientes presencialmente, na minha paralela vida de psicanalista. A análise pode ser feita online... mas ali, no consultório, entre olhares e corpo, a análise tem outra vida. Melancolias, desânimos, luto. 


Luto, de lutar... e de sobreviver. 


Eu tive - tenho, talvez, sim - muito medo de morrer nesta pandemia. Sedentário ao extremo, alguns excessos de comida e bebida, muito trabalho, durmo mal, me acho presa fácil a algo desconhecido e mortal. Gente próxima morreu. Amigos morreram. Saudade e raiva. A pandemia ainda é um monstro, de garras afiadas e na espreita, sorrateira, desconhecida. Mas muito se fez. Meus sintomas leves indicam que as vacinas foram eficazes, diminuíram o ímpeto do vírus. Também muito se estudou e aprendeu sobre o vírus. Talvez nunca mais a gente deva sair de casa sem um frasco álcool gel no bolso e devamos ter máscaras em casa, sempre. Eu tenho raiva, ódio, indignação. O Brasil nos matou. Este governo de merda nos matou. Porque a gente não teve vacinas antes, porque faltou solidariedade e empatia, organização. Porque temos um cretino propagando mentiras, vitupérios, machismos de falo murcho e que nunca foi capaz de nenhum - NENHUM - gesto de generosidade no enfrentamento à pandemia. Tudo se resume a uma demarcação de território entre imbecis, numa imensa estupidez de caráter: gripezinha, mimimi, vacina dá aids, máscara é frescura, cloroquina, ozônio no reto e um arsenal de indelicadezas, de sofismas, de perdigotos. Medo, raiva e ódio. O ódio mata e nos consome - melancolia.


E saber que tem gente que ainda crê e idolatra este cretino. Tem gente que não toma vacina, que brada e baba pelo direito de ser cretino. É a vacinação que mitiga os efeitos de circulação do vírus, dos efeitos, dos sintomas, das mortes, do luto. Vacinação é um pacto coletivo. E só sairemos deste inferno num esforço coletivo. Esta doença que nos acomete, além do vírus da covid, a estupidez, nos enferma, nos desanima, nos mortifica. Sobreviver é lutar.


E no susto de ter pego a covid, no medo de contaminar meus pais, levei uma semana tensa e ruim. Logo depois de dias intensamente felizes e importantes, de comemorações de vida - a visita de minha irmã que mora na França, o abraço de minha sobrinha, o amor, o meu filho mais velho passando no vestibular, meus filhos e filha felizes, uma relação de amor com minha companheira, os amigos e amigas, o voltar ao centro - um golpe de susto, um chacoalhar, uma tristeza. A pandemia está aí - para além, muito além do vírus.


Vacinem-se. Se cuidem. Usem máscara e álcool gel. Mas, sobretudo, comemorem a vida, comemorar os afetos, alimentar-se de afetos, carinhos, alegrias, sorrisos, delicadezas, água e amor. E, coletivamente, saíamos desse inferno - sairemos. Todo dia é dia de lembrar que outro mundo é necessário e possível e que o cretinismo não é um destino infalível. 


Sigamos, camaradas. 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

“No fundo do gol!”

Nunca sabemos, nem os mais sábios, nem os mais clarividentes, como desenterrar um sapo, depois que este foi enterrado num gramado de futebol. Esta é uma verdade inexorável, talvez.


Porque nunca se sabe onde, exatamente, se colocou o batráquio, com bilhete na boca amarrada. Muitos acham que na geografia do campo, o lugar é perto das balizas, entre a linha da meta e o infinito. Mas este lugar, de tão óbvio, já foi ocupado por outras mandingas, normalmente as protetoras. Então.... onde está o sapo?


Quando a pelota foi defenestrada da área por algum defensor palmeirense, depois da disputa com nosso atacante, Pablo, ela estava enfeitiçada pelo sapo. Note que ela viaja no tempo e no espaço desengonçada, atrapalhada, girando parecendo pião sem freio na linha tênue do meio fio da esperança. Foi ali que tudo se deu...


Crespo, nosso argentino, treinador, na coletiva pós jogo, disse algo sobre a maravilha do futebol, sobre as possibilidades e a mágica do jogo. Disse da grandeza do time, reconhecendo algo que andava negligenciado nestes últimos anos, que um time de futebol é, sobretudo, sua história. Mas a senha para entender o desfecho da bola no gol foi noutra passagem: “haviam meninos que nunca tinham visto o time campeão”.


Futebol é infância, sabemos. E a rememoração daquele lugar mágico, onde os destinos podem ser sonhados. Na trajetória da bola até Luan ela não se ofereceu, não se aninhou naquela matada no peito, entre lasciva e luxuriosa. Ela veio meio como bola de meia em brincadeira de quintal, bola de copo de refrigerante em intervalo de escola, meio troncha. Luan, menino, volante do time desde menino, volante, consegue dar um jeito de trazer a bola para o chão e desfere o chute, um chute que tinha as imensas pretensões de um gol, mas que sai maroto, escorregadio, zunindo, mascado. Não era um chute na veia ou na cara da bola. Era um chute de esperanças.


E a bola, chutada pelo menino volante, um gigante ali no meio durante todo o campeonato, motor, tanque, esteio, coração, pulmão - nestes tempos de pandemia, o pulmão é mais que pulmão - vai encontrar o morrinho do sapo, bate no jogador adversário, justamente no mais valentão, o funesto da turma de lá, que noutra ocasião havia chamado o nosso time de inimigo, mais que adversário, inimigo. E nesse bater desenterra sapo, batráquio, mau olhado, maldizer. Engana o arqueiro de seleção e repousa, a bola, no fundo da rede: dá para ouvir o barulho da danada no fundo da meta. Gol. Gol? Caneco, o resto é baile e história.


E a camiseta do time volta a ser pijama. Para melhor sonhar, inclusive.


Este texto vai como bola careca - daquelas que a gente brinca e que perde gomo, fica murcha, vira lembrança - para os três, Marco Antônio, Leonel e Cecília. Que puderam perder a voz gritando campeão, dormir com a camiseta do time, brincar e sonhar. 





segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quarentenas de casa


Caçulê tem sido o nosso termômetro. Sim, a guia e o farol da casa em quarentena. É ela que mais impactada pela mudança de rotina e pelas restrições: de sair na rua, de brincar na escola, de abraçar a prima. E é ela que demanda nossas atenções, para brincar, para comer, para ajudar nas coisas do dia a dia.


A paixão dela pelos irmãos, mais velhos, que passam semana sim semana não em casa, revela um tipo de relação fraternal nova para todos nós. Que vai da admiração, que vai do querer brincar, que disputa espaço, que brinca e joga entre cartas de Uno e diferenças de idade e percepções. Mas que quer o abraço, a companhia, a piada - sim, ela e eles se cutucam, "piadam-se" entre si, se irritam e, evidentemente, nos irritam. Ela ainda grita e chora, ocupa seus espaços e demonstra sua lamúria deste jeito, estridente.


Ela talvez tenha sido a primeira a entender o extraordinário - não no sentido de algo fantástico, maravilhoso, estupendo, mas no sentido de raro, de mudança, de quebra de rotina e de paradigma. É ela que demonstra impossível ter atividades escolares à distância dentro de uma rotina normal. Ela não quer e não fica na frente da tela. Identificou ali uma condição que depende de sua vontade, do seu desejo - assiste os vídeos que a escola manda quando lhe dá na veneta. Interage com os amigos e amigas de escola do jeito que dá e não finge que tá tudo bem quando não escuta pelo áudio completo e entrecortado as vozes de professora e dos colegas. Tem a sinceridade cortante das crianças. E inventa histórias.


Ela brinca o tempo todo? Não. Já fui filho, vô, o João e o Mateus, o Marshall da Patrulha Canina. A mãe... a mãe já foi filha, vó, irmã, princesa Léia. Ela? Ela já foi mãe, filha, a tia Lu ou a tia Carol,a mulher maravilha e a Corujita. Sua amiga imaginária - sim, ela tem uma amiga imaginária muito presente, a Saíga, apronta bastante e zoneia a casa e nunca arruma a bagunça.


Embora cozinhemos muitas coisas entre panelinhas e fogão de plástico, embora faça da mesa de canto um imenso supermercado e mie como gata, Caçulê as vezes está de mau humor. Sim, brava, irritadiça, não mexa comigo. E as vezes só quer ver tv, só isso. Só isso.


Puxa, entender esse "só"... as vezes - sempre - é tão difícil para nós, né?


E ontem, abraçada com a mãe numa dessas rotinas, olhou para ela e disse, com os olhos marejados: "Eu quero abraçar alguém."


"Quem filha?", perguntamos.


"Qualquer um, na rua, mãe. Que não a gente aqui de casa.".


Tem uma tristeza aqui. Misturada com uma beleza infinita. A menina, na quarentena, descobriu o mundo antes que nós.




quarta-feira, 6 de maio de 2020

Receita de Lasanha de Abobrinha com Abraço




Não teria a mais pálida dúvida, caso me questionassem o que mais me faz falta nesta quarentena. Enquanto pego as abobrinhas na geladeira. Quatro, bonitas, formosas, naquele verde e branco da casca. Penso nos abraços. Em dar e receber. Lembro de minha mãe. Ela, ali, na casa dela. Sozinha, com meu pai. Ela que sempre gostou, estimulou, quer e dá abraços. E faz uma lasanha de abobrinha que maravilhas.

Não sei porque tive medo de cozinhar, por muito tempo. A gente pode chamar de preguiça, a gente pode dar nome de inexperiência ou falta de conhecimento. Mas, no fundo, é medo. Medo de se queimar, medo de não acabar bem a receita, de chamuscar, de ficar cru, de ficar com gosto ruim. Medo, talvez, das comparações. Perguntei para ela, a receita. Me espantei que a abobrinha não era refogada nesta receita. "Não precisa refogar?". Desde que comecei a cozinhar com alguma regularidade, sem muito medo, e muito muito muitíssimo por causa dos meninos, adoro a arte do refogar: não há no mundo aroma comparável ao alho, à cebola, ao azeite, ao tomate "burburando" numa panela. E tem aquele segredo da minha mãe, de comprar a abobrinha já fatiada... Bem que tentei, mas não tinham as fatiadas. Cortei, de grosso modo, o único que conheço. "Deixe com as cascas", ela me avisou. Sim, com as cascas.

Minha mãe tem a mania do abraço. Acho que herdei dela. Acho? Herdei, né. A terapia faz a gente reconhecer certos traços e laços. Essa coisa de cortar legumes, cebola, alho, sempre me assusta. Tem uma expertise fantástica, em que as fatias são finas, por igual, quase desenhadas. Os meus cortes são caóticos, são gumes tortos, talos, taludes, desmanches. Mas já adotei a expressão "corte grosseiro" quando explico as receitas. A única regra, desconfio, para a lasanha, é cortar no sentido horizontal, para que as fatias sejam longas, como filetes. Minha mãe não disse, mas eu passei um pouco de azeite na travessa que ia ao forno, antes de fazer a primeira camada de abobrinhas fatiadas.

Os meninos gostam de me pedir "abraços quebra costela". Assim como meu afilhado, saudade de abraçar meu afilhado. Minha mãe gosta daqueles abraços mais demorados. Eu também, eu também. E de dormir nos braços, do meu pai, como fazia quando menino. A primeira camada ficou bonita. Embora irregular. As fatias, disformes. Passei um fiozinho de azeite sobre elas e um pouco de sal. A Renata, minha companheira, mãe da menina, tinha feito um molho estupendo a bolonhesa para um macarrão no domingo. E tinha feito em grande quantidade, para que pudéssemos usar noutros dias nesta quarentena. Abri a geladeira, o pote de sorvete com o molho estava lá. Experimentei. Que bonito. Abracei, mas daqueles abraços mais sacanas. Aliás, os abraços tem estas qualidades, né? Conforto, saudade, amizade, bem querer, mas também, outras vezes, sacana, provocação, porto, despedida, parto.

Desfilei uma primeira camada do molho sobre as abobrinhas. Com um colher, espalhei. Este espalhar... Depois, uma camada de muzzarela, outra de presunto, outra camada de abobrinhas por cima. Mais um fiozinho de azeite, mais um cadinho de sal. Mais muzzarela - o que sobrou, mais presunto - o que sobrou. E aí não vestiu por completo as fatias. Sobras, aqui e ali, de abobrinhas nuas. Mais molho, o restante do bolonhesa. Distribuído para cobrir tudo. Queijo ralado. E papel alumínio, do lado que brilha para a comida. Afinal, ela é a estrela.

Forno, já meio aquecido, travessa nele. Mais de 180, menos de 200. Um abraço aquece. Abraços aquecem. Depois de meia hora, o cheiro pela cozinha, esses aromas de vida, e aquele borbulhar da travessa. Tira o papel alumínio, deixa mais um pouco. Espera aquele queijo ralado que vai por cima dar uma espécie de gratinada no lance. Um lance. A comida é um lance com a gente mesmo, penso. Lance, romance, transa, papo, acolhe. Escolho um disco, ponho para tocar no celular.

E um abraço. Ficou divina, confesso.




sábado, 18 de abril de 2020

Outros outonos virão


O pior de tudo, de tudo mesmo, é que esta vivência de morte e de obscurantismo que temos na canalhocracia de Bolsonaro nos desalimenta, nos desalinha, nos desespera.

Imagino o quão imbecis, esfericamente imbecis, são estes que saem em "carreata" para fazer coro ao idiota que ocupa o cargo de presidente da república. Ou, ainda, aquele cretinismo basculante de quem até picolé faz de cloriquina, como uma dádiva ou cousa assim.

Mas cretinos e os imbecis estão vencendo. Porque é muito perturbador enfrentar o obscurantismo. Onde queremos um pingo de razão ou lucidez temos um coquetel de raiva, rancores, ressentimentos e de um exercício de narcisismo entre o patético e o doentio. É broca, muito.

Porque todos estamos preocupados, todos. Com o vírus, com a doença, com os hospitais cheios, com a morte. E com a crise, com o desemprego, com a pauperização, com o aumento da violência. Só um canalha de alta patente para colocar estes sentimentos e sensações como antagônicas. Só um canalha. Este antagonismo, construído, forjado, malcriado é prova da total incapacidade do atual presidente - e, infeliz e morbidamente, de seu séquito e de boa parte de seus eleitores - de ter sentimentos como empatia, solidariedade, reconhecimento do outro. Só o que vale é a própria opinião e que se fodam-se os outros, os "inimigos", os "opositores".

Estamos num breu. Total. Porque nesta lógica de morte, qualquer movimento vira instrumento para mais mentiras, mais manipulações grosseiras, mais violência verbal, corporal e de perdigotos. E vem um sentimento de solidão, de travo, de azia. Mas temos que nos movimentar. Antes que seja tarde - e me parece tarde, muito tarde. A fratura que se construiu na sociedade brasileira pode ser que não tenha mais tala que cole.

De novo, divergências de opinião, leituras diferentes e proposição de saídas diferentes e múltiplas, são naturais, são essenciais. O que não é tolerável é esta perversão no trato, no discurso, na prática - esta perversão é canalha.

Eu escreveria, por fim, que tá osso. Mas seria de um pessimismo atroz. Também precisamos de algum afeto e de algum movimento de esperança ou de amor - palavrinhas que ficam meio tontas neste quadro todo de horror. Deixo então o meu mais forte abraço a quem chegou até aqui. Um abraço demorado, com gosto de sol em fim de tarde num outono qualquer.

Vai passar, camaradas.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Acalento


O que causa enorme desalento - e, poucas vezes uma palavra pôde definir tanto - é acordar para frear desejos: o do abraço, o do café na esquina, o do beijo, o da caminhada, o do flerte, o oi cuspido. Mas é muito mais pensar naquilo que poderíamos e não seremos. A derrota é a da empatia, da solidariedade, da razão e da fé, no ser humano - essencialmente.

As ruas estão se enchendo. Os “isolamentos” estão se afrouxando. Mas notem, o que se afrouxa é para dar resposta a alguma questão individual, egoísta ou de sobrevivência, manipulada por um discurso doente que separa a sociedade, que lhe tira o viço e lhe coloca a focinheira do medo.

Todos estamos com medo. Um dos conceitos mais importantes na psicanálise é o do desamparo. Das caraminholas que inventamos e criamos para dar tratos ao desamparo, uma sensação de desconforto, de temor, de solidão e das questões todas que brotam quando em desalinho. Talvez não tenhamos tantos subsídios, entretanto, para enfrentar o desalento.

Ninguém que está indo para a rua, rompendo a política de isolamento social, está fugindo de suas solidões, assim, no plural mesmo. Se vai para a rua sozinho, solitário, em solidão e com medo, uma falsa coragem. É interessante este paradoxo: hoje, para combater a solidão, é preciso estar só. O isolamento é, no frigir do ovo, uma política que tenta adiar a solidão, evitar o contágio de um vírus que promete não só a letalidade, mas, sobretudo, a velocidade dos dias atuais, da modernidade, do capital, do tudo para ontem.

Daí, o desalento. Sim, tem desamparo. Mas quando se elabora o desamparo, quando se acessa os instrumentos para encarar este desafio que nasce quando a gente nasce, temos a sensação fria e cortante da rua repleta de gente, sozinha, solitária, egoísta - no sentido mais do perverso do que do narcísico.

É o desalento.

Enquanto deveríamos estar gestando, pensando, sonhando formas possíveis de novos tecidos sociais, de vida, de trabalho, de solidariedade, de enfrentar as fomes diversas, estamos sendo jogados e tragados pela patologização do normal, tentando manter uma normalidade tóxica, que exige de nós a solidão da sobrevivência.

Todo mundo tem que seguir adiante. Pode ser, mas não deixa de ser desalentador este acelerar inexorável do tempo, que transforma o tempo em objeto para consumo imediato. Logo o tempo, esse estado que podia ser dos desejos, das delicadezas, daquilo que nos faz gente.






segunda-feira, 18 de abril de 2016

Também para Gudin e Caetano: Um velho ateu a ver milagres




Há vários momentos deste dezessete de abril de 2016 que não saem das minhas memórias, sempre elas: Sofro, mas me nutro também, nostalgias.

Eu sou ateu, saibam. Não acredito em deus. Ao menos, não neste deus onipresente, onisciente, pai de todos. Mas, contraditoriamente, acredito muito nos homens e nas mulheres, suas crenças, em seus ritos, suas alegorias, seus mistérios. Nesta casa de ideias surge então uma crença firme e convicta em deusas, deuses, memórias, afetos, santos, santas, divindades, forças. Acredito sinceramente numa força contínua, que nos molda, nos define, nos faz do barro. Rezo por estas entidades, sempre que posso.

Ontem, na escadaria do Teatro Municipal, junto da Renata, minha companheira, esperando por meus filhos e pela mãe deles, a Daniella, para irmos juntos para a multidão que estava no vale do Anhangabaú para demonstrar nossa profunda irresignação com o processo de impedimento da presidente Dilma, na nossa avaliação um golpe de estado, sem baionetas, mas com a marca indelével da hipocrisia, do cinismo e da ruptura ilegítima, me lembrei de um outro dia, naquela mesma escadaria.

1992. Eu já trabalhava como estagiário, usava meu terno e gravata comprado na mesma loja em que meu pai comprava os dele. Era uma loja lá na Vila Maria, que nem sei se existe mais. Gostamos, eu e Seu Nilton, dos ternos azuis. Eu, dos pretos. Ele, dos cinzas. Não me lembro se eram azuis, pretos ou cinzas naquele dia. Era comício no Anhangabaú, pelo impeachment de Collor. O telefone tocou, a tarde, lá onde eu trabalhava: “Fernando, seu pai na linha.”

Era o começo de uma “reconciliação” política. Meu pai era um danado de um Montorista. Para ele, era Montoro o homem público mais precioso de todos. Em 1990, já na faculdade, eu não votara em Montoro para o Senado. Votei em Suplicy. Meu pai tinha uma certa birra com este voto, nossa primeira divergência. Logo com o Montoro...

“Filho, você vai ao Anhangabaú?”

“Vou, pai. Daqui a pouco eu estou indo. Devo encontrar o pessoal lá no teatro municipal.”

“Na escadaria? A gente podia se encontrar lá, não?”

Caramba. Caramba. Era um convite e tanto aquele. De meu pai, que me levara para comício das diretas num canto importante da memória, camiseta amarela. Era um convite e tanto, aquele.

“Tudo bem, pai.”

Tudo ótimo. Demos um abraço na escadaria. E os dois desceram juntos para o Vale, não me lembro mais se esperei meus amigos e amigas ou se desci para lá só com ele. Descemos. E lá pelas tantas, o vale inteiro cantando “Olê Olê Olê Olá, Lula, Lulá”. Olhei para ele, sabendo que ele não embarcava naquela, apesar de ter votado no Lula no segundo turno de 1989. E, para meu espanto, estava lá o meu pai a cantarolar aquilo que nos dava esperança – e unidade – para aquele momento histórico.

Meu pai não pode ir ontem ao Anhangabaú. Desde 2006 está acometido por sequelas graves de um AVC. Aquela saudade, naquela escadaria, tocou fundo. Porque ele está internado num hospital para tratar de problemas da rotina de quem tem incapacidades graves de locomoção e de movimento. E minha mãe está lá, cuidando dele. E essa saudade, essa saudade marca fundo a alma da gente. Minha mãe, Maria Helena, certamente estaria naquela escadaria a abraçar os netos e a confortar o filho meio exasperado em emoções – ela, sempre a mais emotiva, sempre soube lidar com esses exasperos... A vida é complexa, múltipla, contínua...

E ontem não estava usando terno, nem gravata. Usava um shorts e camiseta. E lá estavam os meus dois meninos vindo me abraçar. Os dois de shorts, camisetas e sorrisos. Eu sempre me emociono, mesmo, quando vejo a Dani, a Renata e o Tu e nossos meninos todos juntos: caceta, é possível, sim, um mundo sem cara feia, sem muxoxo, sem posses dos outros. E mais uma vez estávamos lá, a família, indo para a praça. Não, não vai ter golpe.

Há uma foto que tiramos ontem, que vou guardar. Estamos lá todos nós: Eu, a Rerrê, a Dani, o Marco, o Leonel e minha tia Marisa, irmã do meu pai. Num Anhangabaú que sabia que viria a derrota numérica - tínhamos uma quase certeza do fato escondido por de trás de uma esperançazinha de fachada, mas bela, potente, reluzente – mas com aquele ar vivo de disposições por novos amanhãs...

“Pai... já foi, né?” Era a mensagem no meu celular, porque a gente foi embora do Vale antes do fim da votação.

“Já.”

“Que ruim, né?”

Os dedos sem saber o que responder...

“Mas a vida da gente é assim. A gente tem que lutar por aquilo que acha justo e certo. E a gente tem muita coisa bonita para defender. Muita. Incluindo você e teus irmãos. Te amo. Muito”.

A resposta foi um daqueles rostinhos de uátizapi, sorrindo.

E a gente entende porque a alma da gente é daquelas forças incríveis, única capaz de sorrir e chorar, ao mesmíssimo tempo. Tempo? Não sei, tem algo divino que transcende isso aí...

 2016. abril, 18.


  




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Um copo dágua, por favor...



E continuam as pequenas crônicas da falta de água...

Mas ainda me causa espécie, que tragédia mais que anunciada, fiquemos esperando uma providência divina, uma chuva, um milagre.

Enquanto que as autoridades - e em SP é preciso nominar o governo do Estado, porque parece que a culpa é só de São Pedro - continuam fingindo pão de ló. Era necessário racionamento, transparência nas informações sobre contratos de fornecimento e sobre as providências. Mas não... o silêncio e o cinismo das autoridades e de parte da banda que defende o ocupador de cadeira oficial.

Espero, sinceramente, que o leitor destas crônicas publicadas nesta quitanda possa rir, mas possa dialogar com o tema. Porque o que a gente tem assistido é uma intensa campanha para apontar dedos para as pessoas, imputando responsabilidade individual para um drama que é da coletividade e, acima de tudo, tem um responsável político - e, não, o divino ou o espírito santo.

E nestas horas não é espanto algum que venham moralistas de plantão, prontos para cagar regrinhas de conduta.


 Aos textos! E obrigado pela visita. Sente-se, seja benvindo, benvinda, bem vindo e bem vinda.


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Descobriu o porque daquele sorriso no rosto, mesmo num dia como aquele.

"O biltre tem um poço em casa, sabia?"

"Que biltre, querida? De quem você está falando?"

"Ora... daquele janota. Aquele que mora ali naquela casa..."

"Amarela?"

"Esse. O pascácio tem um poço em casa. Por isso aquele sorriso de propaganda de dentifrício! Tem um poço, deve tomar banho todo dia e a gente aqui, nesta de lencinho umedecido e repetir cueca."

"Querida.... desculpe... eu já sabia. Fui eu quem fiz o poço.... ele é meu amante. E o sorriso dele é por outra razão....".

"Você está brincando, né. Nunca me leva a sério. Vocês se merecem!"

"Eu sei...".

Nunca se soube a verdade. Mas o apelido dele, no time de futebol das segundas feiras, era "Capitu".


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O cara era dono do motel. Gostava, muito, de fazer festa pros outros, dizendo que era proprietário de um parque de diversões para adulto e tralha e tal.

E era... Um parque aquático, temático, cadeira, piscina, hidromassagem, ofurô.

Só que a crise da água foi se aboletando... Ele vivia um pré desespero. O negócio ia falir, ir para cucuia e ele já tinha levado a primeira tunda da Sabesp na conta... era um grande consumidor.

Colocou uns cartazetes nos quartos, nos banheiros. Distribuiu um folder na entrada. "Economizem água."

O fato é que depois dos cartazetes e tals, o movimento caía, dia a dia...

Até que um belo dia, o gerente - a santa alma que cuidava do estabelecimento para que desse o menos dores de cabeça possíveis ao dono - chega visivelmente tristonho...

"Acabou. A água acabou. A caixa dágua.... secou."

Foi quando ele se lembrou do parque de diversões e teve a grande ideia do mundo:

"Encha as piscinas com bolinhas. E no ofurô põe uns brinquedos, algemas, pintos, xoxotas de borracha, fantasias de polícia e ladrão, máscara do Brad Pitt e da Angelina Jolie."

Virou um "case" de marquetinque. Primeira página, palestra, aula magna e o escambau.

Mas hoje a vigilância sanitária lacrou tudo: denunciaram que as bolinhas estavam muito sujas....


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O clima estava esquisito...

"Amor.... não queria te dizer isso assim.... mas não tô aguentando.... eu estou tendo um caso."

Demorou um pouco, mas ela sorriu timidamente...

"Amor, então.... por enquanto, então, faz como eu... toma banho no motel, na casa dela ou dele... Deixa a caixa dágua pra lavar a roupa, a louça e pras crianças...".

"Melhor assim, né?"

"Ô amor.... não fica assim. Quando esta crise de água passar a gente faz terapia."


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Na cama, naquela malemolência....

"Amor...."

"Oi..."

"Você é meu chuchuzinho..."

"Ah... amor... você é meu pitelzinho...."

"Você é mais, é meu coração de amor..."

"Você que é... meu tesouro.... encantado..."

"Amor... sabe mesmo...."

"O que...?"

"Você... você.... você é meu caminhão pipa!!!!"

Transaram loucamente. E foram dormir, sem tomar banho.


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 15, fevereiro.

sábado, 31 de janeiro de 2015

"A Dona Aranha subiu pela parede e ficou por lá."



Putz....

E faz tempo que esta quitanda aqui está sem víveres novos...

Crise de abastecimento? Talvez...

O tal do feicebuco tem esse efeito colateral. Por vezes escrevemos por lá e deixamos de lado cousas mais importantes.

Tentarei não deixar a casa vazia por tanto tempo. Promessa d´ano novo.


Fiz uns pequenos microcontos com o tema da escassez de água... Publico aqui.


Fiquem a vontade. Até para tomar um refresco.




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"Amor....lembra?".

"Do que, paixão?".

"De antes....".
...

"Antes do que, tesão?".

"A gente...contestava... Fumava um baseado....imprimia panfleto clandestino na gráfica do centro acadêmico....trepava no cinema.... O que aconteceu com a gente, mô?".

Ouve-se um chorinho de criança, distante. Mas um espasmo.

Silêncio.

"É.... A gente encaretou, moça.".

Uns segundos...

"Amorão.....vamos fazer uma cousa bem louca agora? Transgressão! Cuspir verdades por aí?."

Ele, excitado... A cena para no começo do volume vivo, dentre as vestes.

"O que, bruxa?".

Os dois pelados, lavando o quintal. De esguicho cheio.

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"Beeenhê...."

"Oi, amor... que foi?".

"A gente nunca mais vai poder tomar banho junto?"


"Ah... amor.... nunca é uma palavra forte. A gente pode viajar por aí e encontrar terras aquáticas ou algo semelhante..."

"Mas.... gosto tanto de ensaboar tuas costas... e de....sabe....".

"Upa!!!! Vou te contar um segredo, então...."

"Conta, conta...."

"Os vizinhos de cima tem acordado de madrugada e tomado banho escondido... a gente podia conversar com eles e propor alguma cousinha ... que você acha?"

"Tipo... todo mundo junto? Mas não vai gastar mais água?"

"É.... mas a gente reforça os laços de solidariedade....".

"Verdade, solidariedade é tudo nesses tempos de crise."

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O adolescente se tranca no banheiro.

O desespero se instala na casa... Pais modernos não querem criar fantasmas onde não existem. Sabem que o menino está lá, tocando uma para alguém. Mas não deixam de lado as preocupações mundanas... A carestia da água é a doença da vez. E desta vez séria, mui séria...

Esperam algum tempo. E nada. Até que se liga o chuveiro.


A mãe em desespero. O pai em prantos. A vizinhança andava abelhuda e era comum que um "ex bom dia" se transformasse em um rancoroso dedo duro. A conta. De água.

Mais um tempo e nada...

"Filho.... tá tudo bem?"

"Porra, mãe.... não enche....".

"Não seja malcriado com sua mãe, moleque!".

"Pai... caralhos.... quero tomar banho em paz....".

"Tá... tá.... mas filho, não esquece.... tem rodízio de água, tá faltando por aí, tá uma crise braba....".

"Tá!".

O menino sai do banheiro, toalha amarrada na cintura. E solta, quase que um lamento, enraivecido:

"Caramba, gente.... eu sei que tem que economizar água. Mas vocês sabiam que o papel higiênico para ficar branco gasta uns sei lá quantos mil litros de água!!! É... é sim... que para fabricar papel, uma tonelada que seja, se usa cem mil litros de água!"

E emenda:

"Essa punheta de ficar reclamando de punheta é ísso... uma grande distração do principal. Uma PUNHETA."

Todos ficaram um tanto ruborizados. Mas, por via das dúvidas, deixaram uma dessas revistas no bidê aposentado.


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"Tutuca.... ".

"Oi, tutuquim...".

"Esse cheirinho de bumbum lavado as pressas...é seu?".


"Ô....jujubim! Passei água de cheiro, alfazema.... Poxa.... Mas esse cheirinho aí é esse de cachorro molhado?".

"Putz, mumuquinha.... É....esse cheiro de camiseta que seca no varal antes da gente usar de novo tem disso....".

Longo silêncio.

"Tuquinho.... Te amo.".

"Tutuquina....mais que banho. Vem cá....vem........".



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"Querido...."

"Oi... o que é?"

"Querido.... você acha mesmo que a culpa desse negócio aí da falta de água é cousa de São Pedro?"


"Ai... querida... por favor... o país tá seco, tem um monte de estado com restrição de acesso, com seca. É evidente que isso é contingencial, acontece. Sim, São Pedro. E a gente tem que acreditar que vai chover. Ou que deus sabe o que faz, né?"

"Querido.... mas eu li que outro dia propuseram restringir fornecimento de água, no ano passado, e que se isso tivesse acontecido, sabe, hoje a gente podia ter mais agua na represa... uma reserva, sabe..."

"Querida... isso é política, politicagem. Você não gostou de tomar banho ano passado? Tinha água.".

"É....".

"Isso, fique tranquila."

"Querido.... o vizinho veio de novo oferecer pra gente poder tomar banho lá na casa dele... ele fez um treco de sei lá.... que aproveita a água da chuva...".

"Querida... olha... eu acho que nosso vizinho é um pederasta. Não quero me misturar com esse tipo de gente, mesmo banheiro. As coisas são muito difíceis, você não entende."

"Querido... qual a raiz quadrada de nove?"

"Ãh.... que pergunta... é três. Por que?".

"Nada.... é que você é tão inteligente...".

"Querida... você é ingênua. Deixe isso pra lá.... Você vai sair? Vai onde?"

"Ah.... querido.... vou ali comprar cigarro. E aproveito e levo esta toalha velha para doar lá na igreja.........".



15. janeiro.
 
 
 
 


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Onde erramos?




Ok... mais um texto de política. Na banca de jornal. Os tempos estão difíceis... mui.

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Foi um soco no estômago. Num desses papos de uátizapi ou feiçobuco recebi a primeira “opinião”, logo após a morte de Eduardo Campos, que ligava o governo federal e o partido do governo ao causo. Em linha simples, a intervenção fazia crer que não foi acidente, foi crime. Confesso que azedei. Porque, sinceramente, por mais que divergências políticas aqui e ali existam – e devam existir – um pensamento destes não sai do nada, não cria asas repentinamente. Transpira um ódio, um desejo mórbido de que a “luta” política seja mesmo uma refrega sem lei e ordem, uma terra inóspita, onde o adversário é uma espécime de anticristo, conjurado.  Demorou para cair a ficha... sim, uso a expressão demodê para me recordar de um outro tempo, muito mais ameno, mas onde as discussões e divergências tendiam a ser muito mais profundas, mas sem essa leviandade. O comentário, logo após o acidente, era isso mesmo: leviano.

Me assustei, porque noutro dia a tralha continuou. Sob o manto de que nenhuma das hipóteses pode ser afastada, voltou a maledicência de que podia ter ocorrido uma ação criminosa, pensada, planejada e que, obviamente, o único interessado nesta perversão seriam os petistas. Onde foi que erramos, para levar o debate político para este lodaçal sem fim, esse esgoto, esta lama de argumentação? Por que tanta raiva embutida numa disputa política? Mas antes que pudesse me solidarizar com os petistas, pronto: o lodo é pântano, mesmo. Porque muitos simplesmente começam a cantilena de defesa por simplesmente atacar o Aécio, sabe se lá por qual razão. E o importante tema das pistas de pouso passa a ser tratado como argumento de descarga, de latrina, como se uma cousa – o acidente aéreo – se vinculasse a outra.

O que mais me deixa perplexo, e este gosto acre de tudo, é que ninguém em nenhum dos dois lados acenda um cachimbo da paz, faça um gesto real de solidariedade, coloque as cousas nos eixos, freie a turba e os argumentos absolutamente ensandecidos. E que todos os graúdos simplesmente finjam ignorar que nós, os peixes pequeninos do lodo, estamos a barbarizar a lógica, o senso, a convivência possível, a inteligência, em nome da “disputa” política.

Não há ética, dirão alguns. Sei lá... não há é a leitura desta perigosa combustão que estamos a fomentar. Um caldo de intolerância, de preconceito, de irritabilidade, de pólvora inútil. E ontem, quando a emoção e o luto começavam a dar tratos a bola, trazendo um pouco esta bruxa, a razão, pronto: Vaiam a presidente, a chamam de culpada pela morte, clamam justiça. E o silêncio oportunista de quem observa o fato com olhos de pesquisa. E o contra-ataque, logo na sequência, naquelas rasteiras inimagináveis até para o mais troglodita dos beques de fazenda, começa a fazer uma crítica de “sommelier” de velório, passando uma descompostura na candidata Marina porque ela “sorriu”... 

E segue o argumento. Enquanto uma sorria, o ex presidente... chorava. E fazem a mistura abominável do transe com o desejo, e cobram a suposta alegria de uma em contraste com a tristeza de bem do outro. Num fora de propósito, num desconexo, num golpe baixo. O sorriso, evidentemente tinha um contexto - deixemos de lado esse purismo do sofrer, onde quem vela tem a obrigação moral do choro.  E a tristeza do ex  presidente foi real, sim, legítima: Perdeu alguém com quem convivia, com quem trocava ideias, com quem frequentava casas.

Ora, ora, ora... basta deste jogo hipócrita de querer transformar gentes em santidades ou demônios. Nem ela, Marina. Nem ele, Lula. Nem Dilma. Nem ninguém.

Aliás, a foto em que o presidente Lula tem nos braços o filho mais novo de Campos, ao lado de Renata Campos, a viúva, tem ao fundo José Serra. Sim, Serra, o adversário predileto dos petistas. E a foto transpira a consternação real dos dois políticos. Mostra que existem situações em que a disputa política fica num segundo plano. Evidencia que existem ali seres humanos, que erram, que choram, que acertam, que planejam, que fazem conspirações, que dão sorrisos, que andam, que bebem e, notem só, que espanto, respiram. A foto revela, sim, que pode existir uma ética, respeito e menos chutes no pescoço.

No fundo, eu é que estou anacrônico mesmo. Devo acreditar numa leveza que não cabe mais nestes tempos instantâneos, nessas redes sociais. Afinal, não há interlocutores, que podem ter suas opiniões, sua história, suas ideias, seus afetos. O que há é a necessidade da minha opinião ser gritada mais alto e alto, amplificada em likes múltiplos. Convenço pelo grito, este maldito, quando fora da canção.

É... num tem mais canção.