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sábado, 19 de fevereiro de 2022

Sobrevivamos!

Todos nós em algum momento viramos... estatística. Algumas mais frias, algumas mais importantes, muitas e muitas sem nenhum sentido. Mas é um destino, inescapável. 


Pois bem... nesta semana que passou me transformei numa. Que escapei por muito tempo e cuidado. Testei positivo para Covid, nestes testes de farmácia. E quanto medo apareceu ali naquele segundo. Medo, raiva, angústia e alívio, muito alívio. Foi o farmacêutico colocar o líquido no sensor, destes que lembram os testes de gravidez e prum: os dois risquinhos se preencheram. Meus sintomas foram leves: uma irritação na garganta, que mais me lembrava aquelas irritações causadas por excesso de ronco ou refluxo. Um pouco de catarro e uma dorzinha de cabeça insistente, renitente, lá no fundinho, contínua, uma linha. E o outro sintoma, a melancolia e o desânimo. Estas duas últimas, difíceis de lidar também.


Na semana anterior tinha tomado decisões importantes: voltei a frequentar o centro da cidade, onde fica meu escritório. Local que faz parte da minha vida: o prédio do escritório, o café da esquina, a lotérica. A banca de jornal. O pão de queijo, o mate, os "bom dia" em profusão, o "como é que estão as coisas?". Papeei com o dono do café e na lotérica. Puxa vida... a vida parou em 2019 e a gente pouco se dá conta disso. Eu compro tíquetes do café e a última compra foi em 2019. Cinquenta cafés. Ainda tem mais de trinta... 


Também comecei a atender mais pacientes presencialmente, na minha paralela vida de psicanalista. A análise pode ser feita online... mas ali, no consultório, entre olhares e corpo, a análise tem outra vida. Melancolias, desânimos, luto. 


Luto, de lutar... e de sobreviver. 


Eu tive - tenho, talvez, sim - muito medo de morrer nesta pandemia. Sedentário ao extremo, alguns excessos de comida e bebida, muito trabalho, durmo mal, me acho presa fácil a algo desconhecido e mortal. Gente próxima morreu. Amigos morreram. Saudade e raiva. A pandemia ainda é um monstro, de garras afiadas e na espreita, sorrateira, desconhecida. Mas muito se fez. Meus sintomas leves indicam que as vacinas foram eficazes, diminuíram o ímpeto do vírus. Também muito se estudou e aprendeu sobre o vírus. Talvez nunca mais a gente deva sair de casa sem um frasco álcool gel no bolso e devamos ter máscaras em casa, sempre. Eu tenho raiva, ódio, indignação. O Brasil nos matou. Este governo de merda nos matou. Porque a gente não teve vacinas antes, porque faltou solidariedade e empatia, organização. Porque temos um cretino propagando mentiras, vitupérios, machismos de falo murcho e que nunca foi capaz de nenhum - NENHUM - gesto de generosidade no enfrentamento à pandemia. Tudo se resume a uma demarcação de território entre imbecis, numa imensa estupidez de caráter: gripezinha, mimimi, vacina dá aids, máscara é frescura, cloroquina, ozônio no reto e um arsenal de indelicadezas, de sofismas, de perdigotos. Medo, raiva e ódio. O ódio mata e nos consome - melancolia.


E saber que tem gente que ainda crê e idolatra este cretino. Tem gente que não toma vacina, que brada e baba pelo direito de ser cretino. É a vacinação que mitiga os efeitos de circulação do vírus, dos efeitos, dos sintomas, das mortes, do luto. Vacinação é um pacto coletivo. E só sairemos deste inferno num esforço coletivo. Esta doença que nos acomete, além do vírus da covid, a estupidez, nos enferma, nos desanima, nos mortifica. Sobreviver é lutar.


E no susto de ter pego a covid, no medo de contaminar meus pais, levei uma semana tensa e ruim. Logo depois de dias intensamente felizes e importantes, de comemorações de vida - a visita de minha irmã que mora na França, o abraço de minha sobrinha, o amor, o meu filho mais velho passando no vestibular, meus filhos e filha felizes, uma relação de amor com minha companheira, os amigos e amigas, o voltar ao centro - um golpe de susto, um chacoalhar, uma tristeza. A pandemia está aí - para além, muito além do vírus.


Vacinem-se. Se cuidem. Usem máscara e álcool gel. Mas, sobretudo, comemorem a vida, comemorar os afetos, alimentar-se de afetos, carinhos, alegrias, sorrisos, delicadezas, água e amor. E, coletivamente, saíamos desse inferno - sairemos. Todo dia é dia de lembrar que outro mundo é necessário e possível e que o cretinismo não é um destino infalível. 


Sigamos, camaradas. 

sábado, 18 de abril de 2020

Outros outonos virão


O pior de tudo, de tudo mesmo, é que esta vivência de morte e de obscurantismo que temos na canalhocracia de Bolsonaro nos desalimenta, nos desalinha, nos desespera.

Imagino o quão imbecis, esfericamente imbecis, são estes que saem em "carreata" para fazer coro ao idiota que ocupa o cargo de presidente da república. Ou, ainda, aquele cretinismo basculante de quem até picolé faz de cloriquina, como uma dádiva ou cousa assim.

Mas cretinos e os imbecis estão vencendo. Porque é muito perturbador enfrentar o obscurantismo. Onde queremos um pingo de razão ou lucidez temos um coquetel de raiva, rancores, ressentimentos e de um exercício de narcisismo entre o patético e o doentio. É broca, muito.

Porque todos estamos preocupados, todos. Com o vírus, com a doença, com os hospitais cheios, com a morte. E com a crise, com o desemprego, com a pauperização, com o aumento da violência. Só um canalha de alta patente para colocar estes sentimentos e sensações como antagônicas. Só um canalha. Este antagonismo, construído, forjado, malcriado é prova da total incapacidade do atual presidente - e, infeliz e morbidamente, de seu séquito e de boa parte de seus eleitores - de ter sentimentos como empatia, solidariedade, reconhecimento do outro. Só o que vale é a própria opinião e que se fodam-se os outros, os "inimigos", os "opositores".

Estamos num breu. Total. Porque nesta lógica de morte, qualquer movimento vira instrumento para mais mentiras, mais manipulações grosseiras, mais violência verbal, corporal e de perdigotos. E vem um sentimento de solidão, de travo, de azia. Mas temos que nos movimentar. Antes que seja tarde - e me parece tarde, muito tarde. A fratura que se construiu na sociedade brasileira pode ser que não tenha mais tala que cole.

De novo, divergências de opinião, leituras diferentes e proposição de saídas diferentes e múltiplas, são naturais, são essenciais. O que não é tolerável é esta perversão no trato, no discurso, na prática - esta perversão é canalha.

Eu escreveria, por fim, que tá osso. Mas seria de um pessimismo atroz. Também precisamos de algum afeto e de algum movimento de esperança ou de amor - palavrinhas que ficam meio tontas neste quadro todo de horror. Deixo então o meu mais forte abraço a quem chegou até aqui. Um abraço demorado, com gosto de sol em fim de tarde num outono qualquer.

Vai passar, camaradas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Onde erramos?




Ok... mais um texto de política. Na banca de jornal. Os tempos estão difíceis... mui.

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Foi um soco no estômago. Num desses papos de uátizapi ou feiçobuco recebi a primeira “opinião”, logo após a morte de Eduardo Campos, que ligava o governo federal e o partido do governo ao causo. Em linha simples, a intervenção fazia crer que não foi acidente, foi crime. Confesso que azedei. Porque, sinceramente, por mais que divergências políticas aqui e ali existam – e devam existir – um pensamento destes não sai do nada, não cria asas repentinamente. Transpira um ódio, um desejo mórbido de que a “luta” política seja mesmo uma refrega sem lei e ordem, uma terra inóspita, onde o adversário é uma espécime de anticristo, conjurado.  Demorou para cair a ficha... sim, uso a expressão demodê para me recordar de um outro tempo, muito mais ameno, mas onde as discussões e divergências tendiam a ser muito mais profundas, mas sem essa leviandade. O comentário, logo após o acidente, era isso mesmo: leviano.

Me assustei, porque noutro dia a tralha continuou. Sob o manto de que nenhuma das hipóteses pode ser afastada, voltou a maledicência de que podia ter ocorrido uma ação criminosa, pensada, planejada e que, obviamente, o único interessado nesta perversão seriam os petistas. Onde foi que erramos, para levar o debate político para este lodaçal sem fim, esse esgoto, esta lama de argumentação? Por que tanta raiva embutida numa disputa política? Mas antes que pudesse me solidarizar com os petistas, pronto: o lodo é pântano, mesmo. Porque muitos simplesmente começam a cantilena de defesa por simplesmente atacar o Aécio, sabe se lá por qual razão. E o importante tema das pistas de pouso passa a ser tratado como argumento de descarga, de latrina, como se uma cousa – o acidente aéreo – se vinculasse a outra.

O que mais me deixa perplexo, e este gosto acre de tudo, é que ninguém em nenhum dos dois lados acenda um cachimbo da paz, faça um gesto real de solidariedade, coloque as cousas nos eixos, freie a turba e os argumentos absolutamente ensandecidos. E que todos os graúdos simplesmente finjam ignorar que nós, os peixes pequeninos do lodo, estamos a barbarizar a lógica, o senso, a convivência possível, a inteligência, em nome da “disputa” política.

Não há ética, dirão alguns. Sei lá... não há é a leitura desta perigosa combustão que estamos a fomentar. Um caldo de intolerância, de preconceito, de irritabilidade, de pólvora inútil. E ontem, quando a emoção e o luto começavam a dar tratos a bola, trazendo um pouco esta bruxa, a razão, pronto: Vaiam a presidente, a chamam de culpada pela morte, clamam justiça. E o silêncio oportunista de quem observa o fato com olhos de pesquisa. E o contra-ataque, logo na sequência, naquelas rasteiras inimagináveis até para o mais troglodita dos beques de fazenda, começa a fazer uma crítica de “sommelier” de velório, passando uma descompostura na candidata Marina porque ela “sorriu”... 

E segue o argumento. Enquanto uma sorria, o ex presidente... chorava. E fazem a mistura abominável do transe com o desejo, e cobram a suposta alegria de uma em contraste com a tristeza de bem do outro. Num fora de propósito, num desconexo, num golpe baixo. O sorriso, evidentemente tinha um contexto - deixemos de lado esse purismo do sofrer, onde quem vela tem a obrigação moral do choro.  E a tristeza do ex  presidente foi real, sim, legítima: Perdeu alguém com quem convivia, com quem trocava ideias, com quem frequentava casas.

Ora, ora, ora... basta deste jogo hipócrita de querer transformar gentes em santidades ou demônios. Nem ela, Marina. Nem ele, Lula. Nem Dilma. Nem ninguém.

Aliás, a foto em que o presidente Lula tem nos braços o filho mais novo de Campos, ao lado de Renata Campos, a viúva, tem ao fundo José Serra. Sim, Serra, o adversário predileto dos petistas. E a foto transpira a consternação real dos dois políticos. Mostra que existem situações em que a disputa política fica num segundo plano. Evidencia que existem ali seres humanos, que erram, que choram, que acertam, que planejam, que fazem conspirações, que dão sorrisos, que andam, que bebem e, notem só, que espanto, respiram. A foto revela, sim, que pode existir uma ética, respeito e menos chutes no pescoço.

No fundo, eu é que estou anacrônico mesmo. Devo acreditar numa leveza que não cabe mais nestes tempos instantâneos, nessas redes sociais. Afinal, não há interlocutores, que podem ter suas opiniões, sua história, suas ideias, seus afetos. O que há é a necessidade da minha opinião ser gritada mais alto e alto, amplificada em likes múltiplos. Convenço pelo grito, este maldito, quando fora da canção.

É... num tem mais canção.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sem mais silêncios...

A escalada do absurdo no Rio de Janeiro, e em SP - Hideki e Rafael continuam presos -, precisa de uma intervenção direta do governo federal e das instituições do judiciário, dos órgãos de classe e de representação.

Há um entendimento disseminado entre muita gente de que os protestos de junho e os protestos contra a copa perderam a mão. Se perderam e na violência encontraram o inevitável desacordo que esvazia multidões, pelo medo e pelo distanciamento.

Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, bem diferente. Ao dar de ombros para a violência de estado, em primeiro das forças policiais e agora das estruturas do poder judiciário, boa parte dessa gente que ficou ressentida, magoada, perplexa ou apenas discordou do rumo que uma parte das manifestações e dos ativistas tomou, estamos criando um cenário muito ruim, de autoritarismo como única resposta possível a qualquer tipo de dissenso.

Cobro do governo federal uma postura mais firme e incisiva porque a questão é, antes de tudo, política. Foi não condenar a violência do estado um dos motivos para que este descalabro acontecesse. Porque a mentalidade policialesca é binária - ora, se precisam da gente para segurar a turba não podem condenar nossos métodos. Não é assim, não pode ser assim.

Cobro do governo federal porque foi este governo, na verdade começou com o antecessor, do mesmo partido e com as mesmas orientações políticas gerais, que mandou o exército "garantir" a paz em Belo Monte e Jirau. Foi este governo que optou por demonstrações de força ao invés do diálogo. Sim, é verdade, o diálogo cansa, faz as obras patinarem, rompe cronogramas. Mas a história colocava os petistas num outro front, que não o da criminalização de lutas e reivindicações. Os presos em Belo Monte são o primeiro sinal de que algo desandaria. Desandou, desandou bem.

Cobro do governo federal porque o Ministro de Estado da Justiça tem um histórico importante de militante político pelos direitos humanos e na defesa de procedimentos com base nos princípios da ampla defesa e do devido processo legal, que não podem ser encarados por nenhum jurista, advogado, estudante, estagiário, juiz ou promotor como mera filigrana, como entrave ao desenvolvimento, como obstáculo. O silêncio de José Eduardo, até porque eu militei com ele em SP, é assustadoramente conveniente e covarde e me decepciona, muito, mais uma vez.

Cobro do governo federal porque não enxergo nem em Alckmin em SP, nem em Cabral e seu sucessor no Rio nenhuma capacidade de interlocução e ação diferentes. Esses governos fomentam o estado policialesco e são cúmplices desta perversão. Ademais, a fraqueza, a tibieza e a postura nariz empinada do PSDB de SP deixou que estruturas paralelas de poder se redrudescerem: a polícia e o crime organizado, simbolizado paradigmaticamente no PCC, essencialmente, são dois estados paralelos.

As instituições como a OAB - que já se manifestou, mas muito timidamente - o Conselho do Ministério Público, o CNJ também devem se posicionar. Sim, algum tipo de movimentação do governo federal fortaleceria este tipo de iniciativa. É necessário.

Não se pode silenciar porque o pleito eleitoral está logo ali, batendo na porta. Esta mesquinharia eleitoral com efeito deletério pode até lograr êxito na urna, no votinho. Mas nos inviabiliza como sociedade. Como no poema de Brecht, pode ser tarde o dia em que tivermos que gritar:

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

É isso. Não é a copa. Nunca foi.

domingo, 25 de maio de 2014

Vai ter copa, mas já não teve.




Minha paixão por copa do mundo data de antes de Raí. Bem antes. Minha primeira memória afetiva de copa é na Vila Matilde, rádio de pilha da cozinha da vó, tios Sergio e Celso e um gol do Dinamite. Hoje sei que o gol foi contra a Áustria e classificou o time de Coutinho na bacia das almas para a segunda fase do torneio argentino. Na época devia entender bulhufas.

Lembro também do povo na casa da vó Teresa torcendo contra a Argentina na final, porque por lá uma tal ditadura comia solta e a Holanda era um time legal. Por mim, não. Gostava do nome "Kempes" e de "Ardiles", que me lembrava ardido. Torci pela Argentina. Soubesse do mundo, talvez não.

Mas o encanto, mesmo, arrebatador, foi em 1982. Na verdade, o mundial da Espanha é o único que existiu. Tudo depois foi mero simulacro, invenção. Valdir, Leandro, Oscar, Luisinho e Junior, Falcão, Sócrates, Cerezo e Zico, Éder e Chulapa. E Paulo Sérgio, Edivaldo, Juninho, Edinho e Pedrinho, Batista, Renato Pé Murcho, Paulo Isidoro, Dirceuzinho, Dinamite. E Carlos, terceiro goleiro. E Telê. E Careca cortado, machucado. Daquela copa guardo memórias infindas, cheiros, gostos, choro. Muito choro. Zoff até hoje é carrasco. Aquela bola do Oscar tinha que entrar, tinha, tinha... Paolo Rossi... nem me fale.

Mas é a copa do goleiro Arzur de Honduras. Do jogo do Kuwait que o sheique tirou o time de campo. Da partida que nunc acabou, França e Alemanha. De Tresor. Dos Camarões de Roger Milla e Nkono. De Dasaev. Enfim, tudo como se fosse ontem mesmo. Até aquele maldito apito final no Sarriá.

Gosto de Copa. Mais, muito mais, do que gosto dos times do Brasil. Destes, confesso, meu último foi o de 90. E em 2002 tive alguma simpatia. E em 2006 um único flash, quando Rogério foi para o gol no jogo contra o Japão. Mas de copa... ah... de copa eu gosto. Gosto de pensar os jogos, de narrá-los antes e depois. De fazer jornadas esportivas em rádios imaginários onde eu sou comentarista e narrador. Gosto do riscado todo. De saber dos times, dos países, dos craques. Das torcidas, roupas, coloridos, holandesas, suecas, dinamarquesas, camaronesas.

E por isso vivo contradições com a copa aqui no Brasil. Desde o começo achei que esse lamentável gesto político do governo Lula, de se atracar na alcova dos negócios com a cartolagem de Teixeira e Nuzman, e todo o couvert que vinha junto, um enorme, retumbante, estrondoso equívoco. E mais: um gesto abjeto para agradar financiadores de campanha e gente que suga o mundo. Porque aquele sonho de moleque, a copa aqui no quintal, foi transformado numa imensa festa de gosto duvidoso, de gente de smoking e summer, caras fétidas e cifras astronômicas. No fundo, bem no fundo, o lulismo foi isso: um triturador de sonhos e de boas ideias em nome das conciliações "do possível". Para continuar a festa do andar de cima, um pacto de classes onde pé e bunda permaneçam no mesmo local de sempre.

A organização da copa foi um triste espetáculo de farras e orgias com grana e miserê. Em nome da tal copa gente foi removida, obras de arte foram erguidas, orçamentos se multiplicaram. Na ambição inicial era a Copa o momento de afirmação dos anos dourados do Brasil de Lula, a confirmação do brasileiros que não desistem nunca, a glória da nação forjada a conquistar seu lugar no panteão do G8, G9, G10. Mas para tanto era necessário, imprescindível até, que se enfrentasse determinadas questões chave de nosso desenho social. As empreiteiras teriam que seguir um cronograma rígido, para que obras e estádios fossem entregues em bom tempo e bom estado. Para isso era imperioso exercer o poder de fiscalização e de gestão, penalizando empresas, cobrando projetos, exigindo compromissos. E aí a singela esperança de que isso ocorreria independentemente de confronto gerou este estado catatônico, que mescla atrasos, incompreensões, dados fora de foco e da realidade do país. Gente removida por nada, por obras que nem prontas estarão. Erros de planejamento. Benesses para os de sempre e, pior, sem nenhuma exigência. As empreiteiras sorriem. Mas os empresários, patrocinadores, a tal da FIFA sorriem bonito, fartos, comendo com opulência pratos de caviar e fígado - de ganso e os nossos.

Era a hora de ter exigido que a seleção brasileira jogasse aqui. O futebol define o país, é um dos elementos mais bonitos que forjam nosso país. A identificação com a seleção seria vital para que este processo de construção de estima, de elevá-la, fosse concretizado. Não é errado dizer que aqui, um país novo, com uma história oficial que infelizmente ignora o período anterior à dominação e exploração colonial, o futebol é um elemento chave da cultura. Nossos heróis são Leônidas, Mané, Didi. Mas para essa gente que pensa em cifras e babados isso pouco importa. E lá vai a "canarinho" jogar no "Emirates Stadium", nos Estados Unidos, na Suécia, na sei lá onde, um circo exaltação para gringo ver. Aqui, só pela televisão. E ainda por cima só numa televisão, porque não se pensou, ao menos durante a organização do mundial, nos jogos e amistosos do Brasil serem transmitidos por emissoras públicas, sem monopólios. Afinal, para quê comprar essa briga?

A copa foi um erro miserável. Um golpe de punhal nas costas. Uma traição. O mal estar que a copa vai causar, e já causou, destroça esperanças e expectativas daquele Brasil que o lulismo fazia crer ter chegado a hora. Não sei se os slogans de "não vai ter copa" estão errados ou certos, porque não dialogam com a alternativas outras que não o da não realização, mas sei que o mal estar, o incômodo, o gosto acre, estão aí. Nem bolões, nem decorações bonitas e coloridas, nem pagodes estamos a fazer com entusiasmo. É tudo um borocoxô de banzo, saudade de algo que não tivemos.

Vai ter copa, sim. E provavelmente vai ser legal. Não pelo Brasil seleção nem pela organização. Mas porque os jogos de copa são assim, pequenas histórias, epopeias, jornadas. Quem viu Uruguai e Gana na última copa sabe disso, com aquelas belezas que emocionam. E nunca, nunquinha, a questão central é torcer ou não pelo time Brasil ou da CBF. Isso é bobagem. A seleção emociona a quem quiser se emocionar. Se jogar bem, então, onde bem e bonito são sinônimos, aumentam as chances de adesão.

A questão, infelizmente, é outra. E me parece que Ronaldo, o fenômeno, dá todas as cartas e pistas. Numa daquelas demonstrações colossais de maucaratismo com oportunismo, ele, organizador da copa no país, sai a atirar no governo federal pelos erros e atrasos em obras, olhando com tesão para um dos candidatos da oposição. O governo federal que escolheu Ronaldo como interlocutor do governo na organização da copa fica a se defender, torcendo para que o lance do craque não dê carta na manga alheia. E a empreiteira, feliz, sorri, na transmissão exclusiva da rede de televisão da novela das oito - que passa a dez da noite... - com a cerveja multinacionalesca paga no cartão de crédito do bancão que mais cresceu no mundo. A FIFA divulga balanço: nunca dantes na história das copas faturou tanto.

Vai ter copa. Mas já não teve.... não teve.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Não cabem relativizações de nenhuma espécie - Nona Blogagem Coletiva DesarquivandoBR



Este texto faz parte da Nona Blogagem Coletiva DesarquivandoBR. 

Lembrar do golpe é tarefa que não devemos esquecer. Pelas repercussões que o período de exceção tem nos dias de hoje, numa sociedade que se acostumou com a violência de estado, conivente com a tortura, com o tratamento cruel, com a barbárie, com a ocultação de cadáveres. Um estado policial que se alimenta da impunidade que a sociedade brasileira deu aos torturadores, violadores, assassinos da ditadura militar.

Uma sociedade que finge que não houve cúmplices, financiadores, aliciadores. Porque uma parte destes faz parte da "nata" da sociedade brasileira.

Foi um texto escrito muito pelo fígado, enojado com editoriais dos nossos jornais piratiningas que tentam relativizar esta cumplicidade cínica com o golpe, com o sadismo, com a violência de estado. E saiu logo depois de ler um texto de opinião de um dos herdeiros dos Mesquitas no Estadão. Deu náusea.

Sim, vamos gritar: Nunca Mais. Vamos garantir a abertura de todos os arquivos ainda escondidos. Vamos lutar para rever a Lei da Anistia, para punir tortura, ocultação de cadáver, elaboração de laudos médicos falsos e denunciar os que financiaram a repressão.

Não esquecer.

O texto foi publicado originalmente no feiçobuco.

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Ainda sobre o intragável texto do herdeiro dos Mesquita hoje no Estadão...

Mas será mesmo que este conto da carochinha de que vivíamos a iminência de uma tomada de poder pelos comunistas, violenta, vinga nas sinapses de alguém minimamente razoável na arte de ler e interpretar?

A ditadura brasileira, a suja, não foi uma reação à "forças soviéticas cubanas" prontas para tomarem de assalto qualquer palácio. Quem repete este discurso, mente. Simples assim.
Jango estava realizando um esforço para ganhar adeptos para um programa de governo, chamado reformas de base. Dentro da regra do jogo. Fosse maioria, faria as tais reformas. Seria seu candidato mais forte na sucessão presidencial que se avizinhava. Não tinham tanques, nem fuzis, nem quarteladas a defender esses ideais. Existiam ideias. Polêmicas? Talvez. Mas não existia um plano para tomar a força o poder. Tanto não tinha que não houve reação armada ao golpe.

Uma parte do grande empresariado e dos donos de terra não suportariam perder poder e parte no latifúndio. E criaram esta fantasia para justificar o golpe e o apoio a ruptura da ordem constitucional. Simples assim.

Como também é simples entender como sofismas quem defende o golpe retrucar com Cubas e Venezuelas. Como se boa parte da própria esquerda não fosse crítica aos stalinismos da vida, reconhecendo erros, imperfeições e violências e morrendo por causa desta crítica. Sim, senhores, senhoras, é a esquerda que faz a crítica mais contundente aos erros históricos cometidos - basta querer e saber ler ou participar de algum debate interno nos partidos políticos que se reivindicam de esquerda. A diferença é quem analisa Cuba sem analisar o embargo, analisa a Venezuela sem olhar que o que a oposição chavista quer, hoje, é golpe, é romper com a ordem constitucional, é apear do poder quem foi eleito numa eleição dentro das regras do jogo. É engraçado que no debate político uma parte desses arautos da liberdade tem um rosário de argumentos que nunca resvalam no fato concreto de que os Estados Unidos violam diuturnamente direitos humanos, tem presos políticos, tem um sistema eleitoral absolutamente inconfiável, a Flórida de Bush que não nos desdiz. Eles querem discutir Cuba mas se recusam a discutir Guantanamo, ou a manutenção de presos e presas de movimentos sociais como o Occupy ou dos Panteras Negras. Sem contar que existe nos meios de comunicação uma visão pra lá de hegemônica que dá guarida, alimenta e reproduz esses arautos. Neste contexto, desculpem, defendemos o raso até por precaução. Não seria lindo bradarmos que deveríamos romper relações diplomáticas com todos os violadores de direitos humanos, da China, dos Estados Unidos, de Cuba?

Sim, havendo regime totalitário e de exceção haverá resistência armada. Podemos discordar do método até certo limite, mas não se pode ignorar a legitimidade da resistência. Li que a esquerda matou soldados... Todos reconhecidos, que tiveram direito a enterro, ao luto de seus familiares e a reparação do estado pelos mecanismos legais.

A tortura não está relacionada a combate algum - é sadismo, crime e covardia. A ocultação de cadáver não tem a ver com combate algum. É sadismo, crime e covardia.

O pior destes relativismos é o que eles escondem de desejos para o porvir. Porque me parecem sempre manifestos da casa grande, avisos cifrados, e nem tão cifrados assim, que existem limites que a patuleia não deve ultrapassar.

Por isso eu tenho asco desta relativização.

2014. abril.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Sobre fuscas e o aniversário da cidade

 

Ontem foi aniversário da cidade. E a cidade, estranhamente, estava bonita. Não pelo sol: inclemente, clamando protetor. Mas pelo conjunto de gentes andando, caminhando, metropolitando, onibusando, bicicletando.

No Memorial da América Latina, ali na Barra Funda, sambistas da "Camisa Verde" faziam uma espécie de ensaio para porta bandeira e mestre sala, além das baianas. Foi legar ouvir o "É noite, agora... chora viola...São Paulo tem convite para dar... Verde e Branco é um encanto...o show vai começar....", samba de alguma década final do século passado e que deu título à escola.

Uma pena o estado de abandono do Memorial. O Governo do Estado de São Paulo é assim mesmo, deixa fluir, até que um dia um imbecil venha dizer que é melhor privatizar. A placa da estátua da "mão" do Niemayer, a que parece a América Latina, o sangue, uma obra bonita, tá lá... pedindo uma manutenção... clamando atenção... quase chorando. Mas não tem porque fazer isso, né...

Depois, o Metropolitano. A estação Barra Funda. É bom passear de metrô. Os meninos gostam, sinceramente. Eu gosto. Mas alguém precisa explicar para quem cuida do metropolitano, ou deveria cuidar e planejar, que metrô pode ser, sim, transporte para os dias de lazer! Sim, com intervalos não tão demorados, quem sabe, quem sabe, as pessoas não deixam um pouco o mau humor de lado. Quem sabe?! Mas essa gente que cuida do metropolitano deve estar mais interessada em outras coisas... quem sabe no preço das reformas, quem sabe na troca dos guichês de pagamento, quem sabe no lucro da companhia, quem sabe sei lá.

O centro? Ontem estava estupefactamente bonito e ocupado. Do samba na Praça Roosevelt, do "Jazz nos Fundos" na sua versão B, ali perto na General Jardim, com uma programação que incluia diversão para crianças. Do almoço no "Boi na Brasa", esta instituição do centrão do lado da República, uma relíquia, um oásis, uma porção de batata portuguesa e um chope numa caneca de metal que faz salivar só de lembrar.

E o show na Praça da República, com o som meio capenga é verdade, do Paulinho da Viola. Paulinho da Viola, fôssemos sérios, seria um país inteiro, seria feriado em qualquer cidade que ele passasse, seria noite e seriam horas e horas e horas.

A praça Dom José Gaspar, ali atrás da Mário de Andrade, linda. Cheia. O "Paribar", o "Cachaçaria do Rancho" e um samba prá lá de honesto na marquise da Galeria Metópole. Tudo a conspirar: Estamos retomando nossa cidade. Há um encantamento com esta moça antiga, nossa cidade, que se perdeu em algum lugar - provavelmente para erguerem algum prédio de cinco quartos, com sua varanda gourmet e academia.

E gente. Que é o que importa.

O Copan? Bom, o Copan, um clássico como o filé do Moraes, um patrimônio como o canole da Rua Javari, um Masp, um Parque Trianon, uma estação Júlio Prestes. Havia uma festa - ou balada como dizem os meninos - ou boate como diria o pai - naquele estacionamento entre a Ipiranga e aquela rua que vai virar Rua Araújo. Era uma balada tecno, com gente dançando esquisito (segundo a versão do Grande). Sem contar o muro, todo pintado e bordado de diversidades.

Saindo dali, quem sabe, voltar para as Perdizes pelo Minhocão?

E aí, cheiro de fumaça. Um cheiro forte. E aí, sirenes, viaturas, caras feias. Na esquina da Ipiranga com a Consolação dava pra ver. Havia fogo. Lixo queimando.

Confesso, não sei o que houve de fato. Li hoje pelos jornais que uma manifestação de mil e quinhentas pessoas desandou. Que quebraram agências bancárias e que foi um fundunço para evitar que a manifestação chegasse até a República onde havia show. Eu estava ali, no meio, provavelmente, entre os furdunços. Eu, minha companheira e meus dois filhos. Não vimos, entretanto, este meio.

Vimos sim o colchão pegando fogo, de longe. E carros tentando passar pela barragem inflamada. E sim, um dos carros pegou fogo ao passar pela barrragem. Sim, provavelmente por medo do condutor - medo justificado, diga-se - mas ninguém ateando fogo dentro do carro. E sim, uma cena ruim de ver. Poderia ser mais grave.

Mas o que vimos foi a polícia. E aí, sinto, lamento, desculpem-me. A polícia tinha sede. Ao passsarem por nós, que estávamos distantes da confusão, com crianças, quase nos cercando, havia a disposição para o combate. A tropa. Os carros na contra-mão. Não havia ninguém a orientar. Sim, uma situação de estresse, sem dúvida. Mas para que servem, afinal, as autoridades de segurança?

Ninguém acha que a polícia deve atuar com canhão de flores ou chegar na multidão propondo um psicodrama - o que seria lindo. Sabemos, até os postes, os paralelepípedos - que infelizmente estão em extinção - e as coitadas das lixeiras sempre sacaneadas, que uma situação como esta, de embate, tende a desandar para conflito, briga, tapa, chute, pontapé.

Mas aí que está a cousa toda. De um lado temos o Estado. Com seus agentes. Que supostamente treinados. Armados. Capacitados. Mas não... não são. Sem treino, subiam desordenadamente a Consolação na contramão. Não orientavam. Tacapes na mão, prontos para o confronto - o medo de quem ganha pouco e de quem definitivamente não recebeu orientações para este tipo de conflito. O inimigo do outro lado. E só isso: o inimigo. Eu era um inimigo. Estava ali. Bem ali.

Ouvimos barulhos de bomba, provavelmente na Augusta. Ficamos ali na igreja da Consolação. Vimos as viaturas. A tropa subindo. Não vimos manifestantes. E por isso este relato pode ser entendido como parcial. Mas não é esta a questão que enfrento, a de quem tem razão ou não. É a forma que o estado escolheu para agir.

Pelo jornal li que eram dois mil policiais. Dois mil. Mais que o número de manifestantes. Não sei, mas algo nesta equação não fecha...

Depois de uns vinte minutos, subimos a Consolação para pegarmos o Minhocão, que estava fechado para carros. Vimos o rescaldo do carro queimado, um fusca. Sou da opinião que os fuscas merecem o céu e que quem faz mal a um fusquinha tem pouca chance de perdão, pouquíssima, quase nenhuma. Entristeci-me. Mas já não tinha mais viatura, nem manifestante. Só bombeiro - talvez a única instituição que sobre nessas horas.

Encaramos os três quilômetros do elevado, da Consolação até o "Ponto Chic" do Largo Padre Péricles. No começo, ainda, um pouco apreensivos, porque a iluminação do monstrengo anda tatibitati também. Mas depois viramos super heróis de novo. E mais gente encontramos. E bicicletas. E gente. E cachorros passeando. O horizonte dali, naquele trecho por cima da Pacaembú, é bonito. Estranhamente bonito. Assim como esta cidade maluca.
 
25.01.2014

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Passes e Passos, para fora do mesmo compasso

Há uma profunda incompreensão quando movimentos sociais, populares, espontâneos, brotam contra governos que se rotulam como de esquerda...

E é engraçado que as reações são similares, para não dizer idênticas, aos daqueles que são rotulados como de direita: deslegitimam, criam maniqueísmos, baderna, vândalos, protestar pode mas isso aí é bagunça.

Não é fácil, não.

Porque compreender estes movimentos, mais do que uma tentativa necessária, é pensar um pouco sobre nós mesmos, sobre nossos equívocos, sobre nossas traições.

Em 2011, sim, em 2011, durante o governo Kassab, eram vereadores do PT que se diziam solidários ao Movimento do Passe Livre. A crítica era contra a abusiva majoração da tarifa, a rudeza e a truculência da polícia e cousa e lousa. Os embates entre os vereadores e a polícia foram capas de periódicos e as falas eram de que o movimento estava corretíssimo em suas reivindicações e ações. O próprio site do PT tecia comentários de apoio, solidariedade e compreensão: http://transportesptsp.blogspot.com.br/2011/02/repressao-do-kassab-lembra-os-tempos-da.html

Não se pode exigir o "monopólio" das reivindicações justas. Este é o problema central. O governo municipal está perdido, sim. Está perdido porque levou a questão da tarifa do transporte público para um debate meramente "técnico", aquele papo de contrato, reajuste abaixo da inflação e um protocolo de boas intenções, do bilhete mensal à construção de novos corredores. E aí, atônitos: "Poxa, mas tudo que é correto nós estamos fazendo e prometendo que vamos fazer. O que esses meninos e meninas querem é absurdo."

Não é. Porque o debate é político. O reajuste de vinte centavos tem impacto brutal no bolso de quem usa o transporte público diariamente. É a diferença entre o cinema e o ficar em casa assistindo ao "Zorra Total". Entre a cerveja e o cachimbo. Entre o passo e laço.

Dizem que há um problema neste Movimento do Passe Livre, que eles não tem uma liderança reconhecida que possa "negociar". Que eles são jovens de classe média, que não usam diariamente o transporte público. Que eles vestem toucas, cobrindo rostos... Cuidado, porque mais que incompreensão podemos correr o risco de reproduzir conceitos que até ontem condenávamos.

A questão da liderança e da "negociação" nos remete a um dilema sério e cruel. Em que medida as negociações com lideranças dos movimentos de esquerda não desaguaram numa retumbante diminuição de direitos ou em pequenas traições (uso "pequenas" porque eu também cultivo dúvidas...): dos movimentos de moradia que nunca tem suas desapropriações por interesse social atendidas, da reforma agrária que nunca sai, dos créditos para os pequenos agricultores sempre em segundo plano em relação aos financiamentos para os agronegócios, nos Afifs, da reforma da previdência. Nesses últimos dez anos aprendemos que a governabilidade custa sonhos, que o carpete amortece, que é melhor negociar para perder.

Sobre as toucas e os rostos, será que os trabalhadores de Belo Monte, que foram presos pelo exército inclusive, não ensinam que mesmo na "democracia" podem ocorrer perseguições, prisões e sei lá mais? Ou será que vamos fingir que trabalhadores não foram presos por lá, porque é muito distante e que Belo Monte é uma questão estratégica para o desenvolvimento do brasil potência.

São jovens. Podem ser de classe média. Ora, pelotas, quem foi para a rua contra a ditadura não tem o direito de dizer quem pode ou não se manifestar quando se reivindica direitos.

São estas pequenas contradições de discurso e prática que vão minando os espaços institucionais, incluindo os partidos políticos. Podemos até ficar perplexos, só não podemos deixar de olhar para o próprio rabo.

E, por fim, sincera e honestamente, não é de Paris que se manda recados. Se está por lá é porque o que se está fazendo por lá foi considerado prioritário - sem juízo de valor algum nesta constatação. Os arruaceiros já tinham dito que a terça feira ia parar SP. Pelo jeito, a quinta também. Eu voltaria no próximo avião, se fosse para tratar desta questão como prioridade.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sobre a redução da maioridade penal: NÃO!!!


Todo mundo que tem lá seus quarenta anos, um pouco mais ou pouco menos, assistiu ao filme “Footloose”, na versão original com o Kevin Bacon. Deve, aliás, ser o primeiro filme que vem a cabeça naquela brincadeira do “Seis passos para Kevin Bacon”... O filme é fraquinho, mas tem seus momentos, uma cena de dança memorável e um dos personagens mais importantes para se entender o “homem moderno” de Neandertal: o pai da “mocinha rebelde” do filme, interpretado pelo John Lithgow (o hilário ET pai na série “3rd rock from the sun”).


O pai da mocinha é o pastor da cidade, uma espécime de zelador dos bons costumes e da moral. É ele a autoridade moral que impede a realização de um baile, por achar pecaminoso, cabeça vazia morada do diabo. As justificativas morais e religiosas do pastor são todas rasas, mas baseadas na suposta autoridade e nas “boas intenções” em se proteger o rebanho. Um cidadão autoritário, que se impõe por causa de aparências e que teme que um simples baile possa contaminar toda esta equação que mantém a paz e a tranquilidade na pacata cidadezinha americana de classe média do filme. Não importa que a vida seja uma merdinha, levanta cedo, trabalha, pausa para o almoço, trabalho, volta para casa, jantar feito pela esposa, televisão, boa noite, escovar os dentes, pantufa e dormir.


Mas o tal pai sintetiza o pensamento médio, meridiano, merdinha de boa parte da cidadela do filme. A importância da personagem mora neste quesito: E de boa parte da sociedade fora do filme. Sim, a vidinha de merda, desde que mantidas a televisão e o jantarzinho feito pela esposa, pode variar aqui e ali, um cereal no café, um radicalismo no uso de chinelas ao invés de pantufas – os mais radicais até ousam andar pela casa descalços, mas no fundo este é o ideal de vida. E preces, com loas, para as virtudes todas que esta cena transborda, aviva, transcende.


Enquanto o país assiste ao coro do deputado falastrão na comissão de direitos humanos, percebemos que boa parte da rusga é em razão do tal deputado ser um boquirroto, um boca aberta, como se ele não tivesse medo de defender a merdinha, sem pudores, sem escusas, sem falsas máscaras. Ele é o pai de “Footloose”, mas caricato. Essa caricatura machuca, porque nos obriga a olhar para nossos conceitos... E como são conceitos de merda, os nossos. Sim, há pessoas que estão de fato indignadas, emputecidas, com nojo da situação. Mas, sincera e honestamente, quando os jornais afirmam categoricamente que o “tal deputado tem declarações polêmicas que poderiam supor homofobia, racismo e intolerância” estão a proteger o pai do filme fugindo da óbvia constatação de que o que foi dito não é nem polêmico, nem suposto: é fato, é ódio, é racismo, é homofobia. E ponto.


Assim, surge o mais deletério dos políticos nacionais, por sua obtusidade militante, seu conservadorismo de pai da mocinha do filme radical, sua aparência anódina (aparência, evidente que só aparência), sua insipidez crônica que lhe valeu, inclusive, o apelido de “picolé de chuchu”, a aparecer no conselho da cidade, impoluto, a dizer sobre a necessidade de mexer na legislação para punir com mais rigor menores infratores quando a violência assusta, maltrata e vilipendia a cidade. Esquece da qualidade precária das escolas públicas, “desconhece” a qualidade precária dos transportes públicos que fazem de gente, gado, esquece das responsabilidades do Estado para com saúde e cultura, com diversão, lazer, com demonstrações de que também pode ser cidadão aquele que não consome bens de última geração. E trata a consequência - nefasta, violenta, abrupta, chocante - como causa. Mas o conselho da cidade aplaude... afinal, o rebanho quer é se sentir protegido.


Sim, é necessária a discussão sobre as razões que motivam a violência e o porque jovens tendem a ser cruéis, bárbaros, desumanos. Mas, alto lá, deixemos de hipocrisia e do consenso raso. O conselho da cidade pode – e deve - mais. O filme, até agora, tem sido bem ruim.

13. abril, 12.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Em SP, para virar a página



O último texto sobre as eleições deste ano...

Para quem tiver saco e paciência.

Obrigadão.

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Para virar a página


O ano? 1988. Era ano de eleição para prefeito. A sucessão de Jânio da Silva Quadros. Poucas vezes a maluquice de São Paulo foi tão categórica: Jânio era um zelador caricato de costumes, uma personagem, um triste retrato desbotado. Não tínhamos dois turnos e acabou vencendo a eleição Luiza Erundina de Souza, do PT. Oito de cada dez moradores de São Paulo, hoje, admite: poucos governos em São Paulo foram tão bons quanto o de Erundina. Na época, é verdade, teve todo tipo de preconceito para enfrentar e foi infernizada por todo mundo que detinha alguma rotativa industrial.

Mas quero chamar a atenção não para a vitória de Erundina. Nem traçar um paralelo com o atual cenário, tendo em vista que ocupa o cargo de prefeito outro desses zeladores de costumes, muito menos carismático que o retrato desbotado. Quero chamar a atenção para... o PSDB.

Naquela eleição o candidato à prefeito pelos tucanos foi José Serra. Sim, este aí. Na verdade, aquele era outro, embora sendo o mesmo. Duas personagens. Era a primeira eleição do PSDB, que acabara de ser fundado em razão de rusgas internas no PMDB do governo Sarney e, sobretudo na sucursal paulista da legenda, com o governador Orestes Quércia. Naquela eleição foram eleitos vereadores pelo PSDB. Cito alguns de memória e sem recorrer ao gúgol: Marcos Mendonça, Paulo Kobaiashi, Arnaldo Madeira. Era um partido que tinha um discurso do “novo”, da preocupação programática para se distanciar do quercismo e já um discurso de “mais ético” em contrapartida ao desmazelos repetitivos que marcaram a gestão peemedebista nos governos federal e estadual.

Mas a questão da “ética” e da “moralidade” eram coadjuvantes. Importava mais a visão de descentralização de poder, presença marcante nos discursos do ex governador Franco Montoro, e a experiência da gestão Mário Covas como prefeito biônico na cidade, que, de fato, foi diferenciada: vivíamos o fim institucional da ditadura e Covas foi prefeito depois de figurinhas como Maluf, Colassuono e Reinaldo de Barros – cousa nada elegante – o que significou para além de novos ares, nova forma de fazer política.

Passados os anos, o candidato do PSDB ainda é José Serra. Mas não há mais descentralização de poder e a gestão Mário Covas é algo que soa tão antigo como CMTC, bonde ou “passeio público”. Entre os vereadores mais bem votados do PSDB estão um ex coronel da ROTA, que se vangloria de ter matado mais de trinta pessoas, “banditos”. E um ex secretário com nome de conde que se vangloria de ter colocado grades em prédios públicos para que mendigos não aporrinhassem o saco de transeuntes dignos no centro da cidade. Não é pouca coisa esta degeneração do PSDB. Só quem acredita na barbárie pode comemorar que um adversário político tenha chegado neste ponto... Até outro dia também não havia programa de governo. Até outro dia, também, não havia nada de proposta que não fosse apostar no erro alheio, exaustivamente como fumaça para o próprio desterro.

São Paulo pode ser chamada de conservadora. Não combina muito com as diversas esquinas da cidade, mas, sim, pode ser chamada de conservadora. Mas a total ausência de um mínimo de preocupação com o discurso (notem, uso a palavra discurso e não a palavra “prática”) humanista, a utilização de um preconceito como instrumental de campanha (ora, chamar o material pedagógico contra a homofobia de “kit gay” é de uma indelicadeza atroz, espalha – esparrama, na verdade – preconceito como baba), a consagração do valentão discurso e prática do “bandido bom é bandido morto” (e inevitável lembrar de um jingle malufista de eleições pretéritas - “gente boa é na rua”) não pode ser chamado de uma política “conservadora”. É mais que isso. Muito mais: é reacionarismo, para dizer o mínimo.

Sim, os puristas vão me “policiar” dizendo que estou defendendo o velho PSDB, em que meu pai e minha mãe votaram naquela distante eleição de 88, e que isso não combina com meu esquerdismo juvenil. Outros irão lembrar que eu mesmo comecei votando no PSDB de Covas, nas eleições presidenciáveis de 1989, meu primeiro voto, para fazer algum tipo de troça. Não ligo. Minhas posições políticas foram sendo contruídas e, sim, a gente pode mudar, se transformar, lutar. O que me entristece é quando percebo o retrocesso, a regressão.

Votar em José Serra é isso: regredir. E, pior, dar sobrevida a um político que, por seus méritos e muitos deméritos, tem feito de seu capricho em querer ser presidente o único mote, o único discurso, o único tapete. Não querer votar no Haddad, no PT, no outro – e muitos que tem conversado comigo tem dito isso – pode até ser um posicionamento. Mas que não se faça disto a justificativa para votar no Serra. Anule. Venha ser oposição, não dói e a gente aprende pra caramba quando a oposição é feita com critério, com esmero, com paciência, com diálogo. Seja oposição. Mas não seja situação de algo que você não é.

Digo, por fim, que votarei no Haddad. Muito por ele, muito por amigos que gostam dele, muito por ele ter sido participado em alguns bons livros da coleção “Zero a Esquerda” da Editora Vozes – em especial o “Desorganizando o consenso”, que era uma coletânea de entrevistas feitas pelo Fernando Haddad, muito por ele ter participado do Centro Acadêmico XI de Agôsto (uma razão que, reconheço, meramente sentimental) e muito por ter um programa de governo que, embora não o dos sonhos, foi de alguma forma discutido e gestado por gente séria, preocupada e inovadora. Mas, na oposição. E para quem acha contradição pregar o voto com a frase “não seja situação de algo que você não é”, digo que ser oposição ao Serra não é tarefa salutar, porque, infelizmente, não pressupõe mais o diálogo.

Para virar a página, não vote em José Serra. É isso.

sábado, 11 de agosto de 2012

Não deixe o trem correr sozinho...

A quitanda reconhece que os contos, poemas, croniquetas e fusquetas estão no forno... mas estão demorando.

Entretanto, é ano de eleição. E os meus poucos leitores sabem que na quitanda também tem política e pastel de feira.

É como boteco.

E num papo de boteco, resolvo aqui expressar considerações sobre as eleições municipais de São Paulo, cidade onde moro.

E indicar um voto para vereador

O texto é longo. Mas fica o convite.

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Sobre as eleições municipais: A Câmara Municipal não pode ficar como está.


Talvez o mais importante de uma eleição municipal seja o voto que a gente pode dar para eleger alguém para a Câmara Municipal. O tal vereador.

Sempre brinco quand
o vejo aqueles espigões, prédios enormes que rompem a harmonia do bairro sem delicadeza alguma e até com alguma desfaçatez, com uma frase: “Esse empreendimento aí tem uns dois vereadores.” É brincadeira, antes que algum nobre edil se sinta ofendido, ofendidíssimo, caluniado. Mas diz muito: Nos processos de fiscalização das ações e das políticas municipais e nos processos legislativos, é a Câmara Municipal que desempenha papel crucial para a cidade: a leniência, a conivência, a condescendência são sempre muito cruéis para com a cidade. Basta lembrar-se dos escândalos das regionais do Pitta e do Maluf. Basta olhar para a gestão Kassab e sua lista intermináveis de descasos, de proibições e de festas do setor imobiliário – A Câmara foi cúmplice em tudo. E a oposição, no caso de Kassab, por sua atuação tíbia, tímida ou inconfessável parceira, foi também responsável pela farra e pelo desgoverno.

Todo mundo gosta de esquecer a Câmara. A bem da verdade, se dá de ombros para a questão, deixando a decisão do voto e a fiscalização do exercício do mandato para terceiros e chafurdando no lugar comum de que “todos são iguais, tudo ladrão, tudo chupim.”. E a Câmara acaba se tornando uma secretaria da paróquia, apta a resolver conveniências aqui e acolá: “Tem uma árvore para podar... acho que vou pedir para o vereador fulano de tal mandar lá um ofício para a regional”. Enfim, uma lástima.

Nestas eleições, até pela característica de disputa entre tucanos e petistas - naquele papinho mole de que eles são os demônios e nós os iluminados, e vice versa – as vagas na Câmara precisam ser preenchidas com mais cuidado, zelo e precaução. A oposição que se fez ao Kassab, de uma tibieza de dar dó, dó da cidade, mostra que é absolutamente necessário garantir o contraditório, a voz destoante, a crítica, o chato e a chata, no parlamento municipal.

Assim, faço meu primeiro texto sobre as eleições de 2012 sobre as eleições para o Parlamento municipal e opino: É fundamental encontrar no voto esta capacidade de inconformismo. Um chato – ou uma chata – faz toda a diferença. Uma voz crítica eleva o debate, pode ajudar a desnudar as hipocrisias. Um voto contrário pode jogar luz numa ação obscura. Alguém que não tenha sido eleito com financiamento de bancos, imobiliárias, empreiteiras pode acordar a cidade. Basta de administrar para atender à lógica de quem financia a eleição.

Feitas estas reflexões, quero expressar minha opinião: No legislativo não dá para não votar e não recomendar o voto no PSOL. Sim, naquele partido que os jornalões chamam, pejorativamente, de nanico. O nanico que com três deputados federais consegue fazer um barulho enorme no Congresso Nacional. Três entre mais de quinhentos. Na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, terra onde nunca se instalam CPIs para fiscalizar os governos do PSDB, há um único deputado do PSOL que faz um baita barulho. No Senado, também, unzinho. Ivan Valente, Chico Alencar, Jean Wyllis, Carlos Gianazi, Randolfe Rodrigues podem ser considerados tudo: chatos, radicais, esquerdistas, moralistas. Mas ninguém duvida da seriedade com estes parlamentares exercem seus mandatos. Ninguém pode desconsiderar que nas votações polêmicas, concordando ou não com a opinião destes parlamentares, do Código Florestal à cassação do mandato do Demóstenes Torres, os parlamentares do PSOL sempre são ouvidos, ponderam, se posicionam, não fogem. Marcelo Freixo, esta raridade da política nacional, é deputado estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.

Eu vou votar no Gilberto Maringoni . O número dele é 50.550. A página na internet é WWW.maringonivereador.com.br

Conheço o Maringoni desde os tempos em que trabalhei com a Tereza Lajolo, na Câmara Municipal, na última década do final do século passado. Às vezes, nas discussões partidárias, ainda no PT, tivemos posições antagônicas, às vezes concordamos. Mas ele sempre foi correto nas relações políticas, coerente e sempre, sempre, se posicionou. Não tem medo de não agradar, o que um enorme passo para convencer acerca da qualidade deste voto. Cartunista, faz rir com críticas ácidas e que nos fazem pensar, refletir, dialogar. Historiador. Político. Sim, precisamos de mais políticos na Câmara e menos de párocos interessados nas relações mesquinhas de poder e de manutenção de espaços e mandatos. É isso. Quem quiser falar mais de política, perguntar, debater, criticar, me procure por aqui, por email, no blogue, no boteco. Quem sabe a gente não vai numa reunião do Maringoni, juntos?

É isso aí.

12. agosto.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"O tal julgamento do século"


Bom.... tem um monte de conto começado... alguns poemas largados...

Mas a cabeça as vezes precisa ajudar o fígado...

Então, escrevo neste boteco sobre um tema que me deixa emputecido. Mas enfrentar fantasmas é um bom mecanismo para derrotá-los.

Segue lá...

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A partir de amanhã voltaremos aos monocórdios...

O julgamento do tal crime do século, o "mensalão", tomará conta do noticiário. Será a luta do bem contra o mal, o trololó do "só acontece no Brasil" e cousas do gênero.

Odeio o "mensalão". Por inúmeras razões o considero um dos mais execráveis exemplos de como estamos perdendo nossa capacidade de crítica e de reflexão em nome de uma estúpida – repito, estúpida - guerra de torcidas.

O episódio é, sim, um divisor de águas importante. Uma parcela do PT ruiu com o episódio. Entretanto, não foi a ocorrência ou não do valerioduto a responsável pela saída, pelo distanciamento, pela ojeriza. Houve um processo de degeneração em que o mensalão pode ser considerado a cereja do bolo, o broche que puiu o vestido. É este processo que deveria ser enfrentado por todos, com coragem, que fizeram e fazem parte do PT e que fizeram e fazem parte da esquerda no país.

O "mensalão" como mesada para parlamentares no Congresso Nacional parece que não existiu. Não há provas da mesada. Não há ligações das votações no congresso e os recebimentos de numerários por parlamentares. Ademais, muitos parlamentares agraciados eram do partido do governo o que dá a tese da mesada um status de carochinha. Bom, mas, porém, contudo, entretanto, é tão evidente quanto à luz do sol que o episódio não se restringiu a um "mero" caixa dois de campanha, de "financiamento ilegal de campanhas políticas". Este é o maior equívoco do PT: tapar a luz do sol. Circularam recursos provenientes de diversas fontes para abastecer cofres de partidos e de políticos e houve, sim, enriquecimento de alguns. Ora, o enriquecimento se prova pela alteração de "status" social, pela mudança de hábitos, pelo aumento do "consumo". E houve, sim, a utilização desses recursos como forma de pressionar e criar uma "maioria" parlamentar - do tipo, "olha lá como vota porque do contrário àquela sua dívida de campanha não será quitada..." - e uma folgada maioria partidária, interna - do tipo “olha lá como vota porque do contrário àquela sua dívida de campanha não será quitada”.

Mas o mais nojento do episódio é a demonstração da "nossa indignação seletiva". O movimento de combate à corrupção passa a ser na grande mídia (paremos com esta bazófia de PIG, esta bobagem inventada para justificar o injustificável) um movimento de desgaste do PT e do Lula, somente. Não se fazem matérias sobre a compra de votos no processo que alterou a Constituição da República para conferir à FHC a possibilidade da reeleição. Não repercutiram as denúncias sobre as falcatruas generalizadas, amplas e irrestritas dos processos de privatização. Não se fala da Alstom e das obras do metropolitano em São Paulo. Nunca mais se falou da inspeção veicular na cidade de São Paulo.

Agora chegou a hora do julgamento no STF. O que é outra excrescência, em razão do julgamento só ocorrer na Corte Constitucional em razão da insensatez do "foro privilegiado". Mas, na regra do jogo, que o julgamento seja o que deve ser. Que dentro do que está comprovado nos autos, seja a mesada, seja a cooptação, seja o caixa dois, seja o diacho a quatro, punidos e com o rigor que a lei exige. Que nos casos onde a prova foi impossível, que a regra do direito valha acima das regras de conveniências da "opinião pública".

Mas, sobretudo, que tenhamos coragem de sair deste episódio com menos cinismo. Que comecemos a exigir o financiamento público de campanha e mandar para o ostracismo aqueles que convenientemente deixam este debate ao relento, tanto nos partidos como no Congresso Nacional. Que comecemos a entender que as regras do processo eleitoral devem ser rígidas, mas devem ser de fácil interpretação, que não dependam de interpretações de gente iluminada. Que comecemos a enfrentar, de fato, a questão da democratização dos meios de comunicação, com o intuito de estimular a pluralidade de opiniões e diminuir espaços para calúnias, difamações, falatórios, fofocas nos meios de informação e formação de opinião. Que discutamos as razões da publicidade oficial, afinal o "valerioduto" - o tucano de Minas e o petista - nasceram da utilização de uma "agência de publicidade" como "intermediária" das operações, ser tão custosa, tão cara e tão desregulamentada (o princípio da impessoalidade é ofendido em grassa maioria das propagandas chamadas institucionais).

E que o PT saia da letargia, deixe de colocar a culpa em outrem, e entenda que não dá para fugir deste debate em nome de uma "pseudo" superioridade programática. Há que se reconhecer que no mínimo houve um grotesco, um gigante, um monumental erro político. Que este erro custou muito caro ao partido. E, porque não, custou muito caro à nossa história.

Por fim, o texto é repleto de ironias. Ter que explicar ironia mostra que o texto está é malfeito. Neste caso, este palpiteiro pede perdão. É o fígado que escreve. Odeio o “mensalão”.

agosto, 01. 2012.