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segunda-feira, 24 de maio de 2021

“No fundo do gol!”

Nunca sabemos, nem os mais sábios, nem os mais clarividentes, como desenterrar um sapo, depois que este foi enterrado num gramado de futebol. Esta é uma verdade inexorável, talvez.


Porque nunca se sabe onde, exatamente, se colocou o batráquio, com bilhete na boca amarrada. Muitos acham que na geografia do campo, o lugar é perto das balizas, entre a linha da meta e o infinito. Mas este lugar, de tão óbvio, já foi ocupado por outras mandingas, normalmente as protetoras. Então.... onde está o sapo?


Quando a pelota foi defenestrada da área por algum defensor palmeirense, depois da disputa com nosso atacante, Pablo, ela estava enfeitiçada pelo sapo. Note que ela viaja no tempo e no espaço desengonçada, atrapalhada, girando parecendo pião sem freio na linha tênue do meio fio da esperança. Foi ali que tudo se deu...


Crespo, nosso argentino, treinador, na coletiva pós jogo, disse algo sobre a maravilha do futebol, sobre as possibilidades e a mágica do jogo. Disse da grandeza do time, reconhecendo algo que andava negligenciado nestes últimos anos, que um time de futebol é, sobretudo, sua história. Mas a senha para entender o desfecho da bola no gol foi noutra passagem: “haviam meninos que nunca tinham visto o time campeão”.


Futebol é infância, sabemos. E a rememoração daquele lugar mágico, onde os destinos podem ser sonhados. Na trajetória da bola até Luan ela não se ofereceu, não se aninhou naquela matada no peito, entre lasciva e luxuriosa. Ela veio meio como bola de meia em brincadeira de quintal, bola de copo de refrigerante em intervalo de escola, meio troncha. Luan, menino, volante do time desde menino, volante, consegue dar um jeito de trazer a bola para o chão e desfere o chute, um chute que tinha as imensas pretensões de um gol, mas que sai maroto, escorregadio, zunindo, mascado. Não era um chute na veia ou na cara da bola. Era um chute de esperanças.


E a bola, chutada pelo menino volante, um gigante ali no meio durante todo o campeonato, motor, tanque, esteio, coração, pulmão - nestes tempos de pandemia, o pulmão é mais que pulmão - vai encontrar o morrinho do sapo, bate no jogador adversário, justamente no mais valentão, o funesto da turma de lá, que noutra ocasião havia chamado o nosso time de inimigo, mais que adversário, inimigo. E nesse bater desenterra sapo, batráquio, mau olhado, maldizer. Engana o arqueiro de seleção e repousa, a bola, no fundo da rede: dá para ouvir o barulho da danada no fundo da meta. Gol. Gol? Caneco, o resto é baile e história.


E a camiseta do time volta a ser pijama. Para melhor sonhar, inclusive.


Este texto vai como bola careca - daquelas que a gente brinca e que perde gomo, fica murcha, vira lembrança - para os três, Marco Antônio, Leonel e Cecília. Que puderam perder a voz gritando campeão, dormir com a camiseta do time, brincar e sonhar. 





quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Trio de Ferro

Os que passeiam por aqui, sabem: futebol cá é cousa séria, de paixão.

A mercearia tem time, sim. Aqui nesta casa de víveres, somos tricolores, sãopaulinos. Nas estantes e pendurados pelas paredes, temos os times, as histórias, as fotos desta paixão. Aqui o Zé Sérgio, o grande José Sérgio Presti, o melhor ponteiro esquerdo de todos os tempos, nunca vai precisar pagar conta.

Mas nem por isso. O Corínthians e o Palmeiras, nossos inimigos figadais, tem lá seus pequenos recortes. Depois a casa oferece um boldo, fiquem tranquilos.

Escrevi para o blogue de futebol que mantemos, eu e mais dez camaradas, dois textos para os aniversários do Palestra e do Timão. E gostei dos textos. São textos da série "Bolonistas e outras histórias", em que tenho tentado mostrar historietas de torcedores e de suas paixões pela bola jogada com os pés.

Trago os dois textos para cá, então.

Espero que gostem... Podem se "aprochegar".


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Nunca morre, nunca da silva!


Era Neco. Não era diminutivo, apelido, nome de guerra. Era assim, de batismo. Nascera Neco. Nenhum outro nome seria possível, descobriram depois. Da vida, levara tudo muito a sério. Tanto é que o coração parou de funcionar duas vezes, em 77 e em 90, e ainda assim, sobreviveu. “São prolapsos”, dizia para horror dos amigos, esposas e filhos, “mas eu sou forte, sou protegido por santo”. E ria, fazendo uma imitação tosca de alguém cravando uma lança num animal feroz, estilo dragão ou cousa que o valha.



Neco acordava cedo, quase todos os dias. Só aos sábados se permitia algum luxo. Algo como nove da manhã, no máximo. E todos os dias mantinha rotinas: escova, mão esquerda, e o dentifrício, mão direita. Quando o esculhambavam dizendo que era um “homem de manias” reagia com calma, mas com a firmeza dos convictos: “são fidelidades, meu caro, fidelidades.”



Trabalhava feito cão. E mesmo depois da aposentadoria, e dos ataques cardíacos, manteve-se laborando e laborando. Depois que se aposentou das máquinas, foi dar aulas num curso técnico. E depois, ainda, foi do sindicato, militou clandestinamente contra o governo militar, participou de movimento contra o preço dos alimentos, contra a tarifa de ônibus e era sempre o primeiro a votar. O Neco levava a colinha e quase sempre contagiava alguém a votar nos candidatos dele, até quando se desencantou da política.



E tinha uma conta no bar, que nunca deixou de pagar. Mesmo quando desempregado por causa daquela greve. Jogava dominó nas manhãs de domingo e quase sempre jogava conversa fora com qualquer um. Só não gostava de gente que não olhava nos olhos dele enquanto conversavam. E sempre, todas às vezes, dizia bom dia ao chegar e boa tarde, ao ir embora.



E foi lá no boteco de sempre, num domingo que o Neco não apareceu, que soube que ele tinha morrido. Quem contou foi o neto, o Basílio. E todo mundo concordou que o Neco nunca ia de morrer, ia ficar com a gente, sempre. Erguemos nossos americanos e o brinde foi daqueles, com lágrimas e limão no dedos: “O Neco foi sempre fiel. Por quais diabos vai deixar a gente agora?”. E na televisão ligada, com bombril na antena, ia começar o jogo...



2011. setembro, 01.


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A casa na vila já tem 97 anos...







Noutro dia passei pela vila. E é engraçado, os barulhos são quase sempre os mesmos, uma nostalgia daquelas. Ouvia-se, evidentemente, o jogo de domingo, radião colocado no muro, num baita volume...





Naquela casa era assim: gente falando alto, gente gesticulando para falar, gente falando pelos cotovelos, gente, gentes. Aquele cheiro de alho refogado, que perfumava a casa toda, a vila toda, a vida toda. Era de lá que vinham os melhores cheiros de comida e a molecada da rua saía no tapa, aos domingos, para poder receber um convite do Ademir para almoçar na casa dele. A razão? Domingo tinha o macarrão, molho bolonhesa e salve se quem puder.





Era uma casa grande. Todo mundo católico, todo mundo rezava. Mas ninguém negava por lá que todo mundo pecava, um dia. E era lá na casa da mãe da Chinesinha, que apesar de italiana até a medula tinha este apelido, que as pessoas iam procuram conforto: e contavam as pequenas traições, os pequenos delitos, os pequenos deslizes. E sabe a razão? Por que lá tinha sempre um vermute para depois do choro e até das broncas. A mãe do Dudu e do Ademar era gente bona, boníssima. E tinha lindos cabelos negros e uma cara de Sophia Loren que fazia a molecada morrer, em pecado muitas vezes.





E tudo lá parecia ser mais apaixonado. A mãe amava o pai, apesar de gritar com ele algumas vezes e todo mundo gargalhar escondido. Amava os meninos e a menina, abraçava de deixar a gurizada toda envergonhada. Fofocavam, sim. Mas depois riam e esqueciam de tudo. Normalmente por causa de um molho vermelho, que deixava a rua da vila daqueles jeitos que eu já contei.





Noutro dia passei pela vila e aquela Sophia Loren já é vó. E continua alegrona, sabe? Feliz da vida que os meninos dela, e a menina, viraram tudo uns moços. E ri feliz da vida. E me chamou num canto outro dia, me convidando para almoçar no domingo: “Ragatzo, vem almoçar aqui no domingo. Mas antes do jogo, né? Não quero saber de confusão! Já te contei que vou ter um neto? Um bambino!!! O nome dele vai ser Marcos.” E me deu uma piscadela, que quase soou uma bela duma tarantela.


2011. agosto, 26.








quarta-feira, 10 de março de 2010

Comemorações: Noventa e Seis Textos, Dois Anos de Vida


Mais uma crônica publicada n'Os Bolonistas, sobre torcedoras, torcedores e paixões.

Gosto deste texto e ele cai bem com condimentos encontrados nesta mercearia.

Descobri, vasculhando velhas prateleiras, que o Quodores fez dois anos!

E que já são quase cem textos!!!

Poxa... são muitos víveres por aqui. Espero outros cem, duzentos, trezentos.

E o que para mim é mantimento, possa ser um cadinho para vocês também.


Originalmente, publicado aqui:

http://bit.ly/b8VEMo

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Fome de Viver



Bolonistas, uma daquelas histórias que gosto...



Ela tinha um grave e melancólico defeito. Torcia, desesperada e doentiamente, um exaspero e com todas as vísceras pelo Vitória. Sim, rubro negro. Era terrível ver aquele corpo escultural, aquela gênese mulata de bunda, peito, coxas e pés desenhados por Deuses, vestida pelo capeta. Lembraria sempre daquela tarde em Itacaré, a primeira vez que a viu de biquíni, e aquele par de chinelos do Vitória. Teve um horror similar ao pânico de elevador cheio, um gosto de vatapá vencido, uma sensação de morte profunda. Namoraram, mesmo assim, umas duas semanas depois da triste descoberta.


Ela tinha perfeições outras que quase a salvavam. Mas o Vitória? Nem purgatório resolvia. Ela gostava de prato, cerveja, praia, mar e odiava axé. Foi este ódio ao ritmo que os aproximou, numa tarde de janeiro. Num bar onde os tímpanos sofriam com os batuques eles se encontram no lado de fora, para respirar. Papo vai e papo indo, acordaram na casa dela. Foi tão bom que somente se separam no domingo, depois do café. Ela disse que tinha que visitar a mãe. E era ótimo, pois o Bahia ia enfrentar o Internacional de Porto Alegre, na Fonte Nova.


Brigaram feio durante um BaVi. Feio, mesmo. Combinaram de assistir juntos ao jogo, mas em território neutro. Viajaram para Triunfo, no interior de Pernambuco. Um chalé. E compraram por pacote o tal jogo. Durante o final de semana inteiro se amaram, beijaram, brincaram. Considerou, com todo o coração, a possibilidade daquilo dar certo, daquele defeito certeiro dela se transformar só em um detalhe, uma pequena rusga, uma coceira. Em vão. Foi a pelota rolar e o Vitória deitar e rolar, ela cantar, gritar, xingar e golear. Ela o deixou antes da Mesa Redonda. Voltou sozinha. E de ônibus.


Da Guia era o cara mais simpático do mundo. Abençoado. Todos o tinham como cara calmo, sereno e boa praça. Tinha uma paixão desmesurada pelo Bahia, herdada da mãe. O nome quem colocou foi o pai, encantado com aquele time verde de 1969. Costumava dizer que o Tricolor era o que lhe fazia sorrir. Se bem que sorria muito, era de bem. Ela? Eram águas passadas.


Conheceu a outra numa saída de estádio. Chorava, copiosamente. A dor do rebaixamento ficou até um pouco mais tênue ao confortar a moça, muito bonita, embora com um corpo mais para modelo do que para o que ele gostava. Mas era Bahia fanática. De sangue. Ficaram andando pela praia após o jogo, se conheceram, trocaram telefones, ela fazia academia perto da casa dele. E marcaram encontro e saíram e tudo mais. Tinham uma combinação explosiva, quente e passavam quase todo o tempo possível juntos, quase sempre sem roupas.


Faziam planos para acompanhar o Tricolor nos jogos da Série C, na cama dela. E, repentinamente, aquela fome absurda. “Vamos ao mercado?”. “Engraçado, nunca fomos juntos...”


Na fila, ele desconsolado acompanhava as compras. Um queijo branco light, umas fatias de peito de peru, um pão integral. E iogurte. O estômago roncava. Os olhos quase marejados. Ela de camisa tricolor, linda. Na gôndola ao lado reconheceu de pronto a eletricidade, o comichão e o cheiro: Com a camisa do Vitória, um sorriso de quarteirão, linguiça defumada, parmesão italiano, pão de torresmo e umas tantas latinhas de cerveja. A mulher da vida dele, não teve dúvida.



08. Novembro, 04.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Contos de Torcedor

Gosto muito, como já disse noutras vezes, de um série de textos que escrevi no "Bolonistas", o nosso sítio de futebol, que conta causos sobre torcedores e sua paixão pelo futebol.


Aqui vai mais um. Espero que gostem.


O link para o original cá está: http://osbolonistas.zip.net/arch2008-04-01_2008-04-30.html#2008_04-08_19_15_27-2402205-25.

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Zizinha, uma homenagem do pai ao cracaço que até Pelé admirava, era alegre e brincalhona. Não perdia piadas e não entrava em berlinda desnecessária. Um dia me disse que era a mulher mais sortuda do mundo, pois era Botafogo e no tricolor jogaram Sócrates e Raí, coisa que outro time nenhum do mundo ousou sonhar.


É sempre difícil contar o início de uma inimizade. Qual calo foi pisado, quem pisou antes, o pecado original e o azedo. Das agruras deste tipo todos sofremos. Alguns são pessoas normais, tranqüilas, pacatas. Mas quando há a faísca, inevitável a ressaca.


A primeira contenda entre os dois, que me lembre, data de tempos imemoriais. Disputaram, voto a voto, a presidência do Grêmio Estudantil da Escola Estadual do Clássico e do Científico Jornalista Libero Badaró, lá de minha cidade. E um ódio de vísceras nasceu entre os dois. Ela ganhou, mas foi ele que foi eleito o mais popular da escola, na votação do baile no final do ano.


Saldanha era elegante. De uma cortesia arrebatadora. Um coração do tamanho do Palma Travassos, o estádio do querido Comercial, sua paixão maior depois do chope do Pingüim.


Na faculdade, discussões no corredor eram mais usuais do que pasta de dente. Recordo com exatidão de avó a vez que um deles defendeu no pátio o presidente João Goulart. A outra, na seqüência, acabou dinamitando o plano de metas, cada espinha. Ambos foram presos, entretanto, e tiveram que sair do país. O Golpe era torpe e conseguia unir Montecchios e Capuletos no mesmo barco.


E se odiaram por cartas, manuscritos e por conversa alheia. Figadais. Nos panfletos da clandestinidade, ele defendia a estratégia da resistência, até a luta armada. Ela queria ingressar no MDB. Um dos nossos conta com exatidão matemática que se encontraram em Paris. Brigaram e quase chegaram aos tapas em razão do couvert. Ela não queria o pãozinho.


Com a Anistia ambos voltaram para nossa cidade. Quem conhece a história sabe que foi uma festa. Os dois eram figuram carimbadas nos encontros dos centros acadêmicos, nas palestras da Universidade, nos saraus, colóquios e nos botecos da cidade. Ele ajudou a fundar o PT. Ela ajudou a construir o Diretório do PMDB. Ingressaram na vida acadêmica e a trágica futrica ganhou ares de pelada: No concurso para livre docência, ambos concorreram na mesma vaga. Ele ficou com a vaga. Ela, porém, virou catedrática dois anos antes.


A rixa entre ambos faz parte do anedotário da Universidade. E virou página de jornal, fofoca de quitanda, matéria prima para rádio novela. E há partidários aqui e ali, de um e de outro. Fiori, o simpático garçom do Taberna, sempre coloca um no lado oposto ao outro, para que se evitem inclusive os olhares de esguelha.

Outro dia, pelo Correio, recebi em casa um convite delicioso, inesperado. E desejado. “Querido Amigo, temos a honra e o prazer de convidá-lo para o lançamento do nosso livro “Come-Fogo, patrimônio cultural da cidade de Ribeirão Preto”, na Choperia Pingüim, às dezenove horas do dia oito de abril. Contamos com sua presença.”. Olhei o relógio. Dá tempo de tomar uns dois antes da festa...



08. abril, 08.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Outro texto publicado nos Bolonistas...


http://osbolonistas.zip.net/arch2008-04-01_2008-04-30.html#2008_04-04_18_05_02-2402205-25


Mais um daquela série de pequenas histórias de futebol.


Gosto destes textos.

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Mistérios da Mente Humana


Bolonistas gratos e os outros...


Ela torce para o Pelotas, a ingrata. A desculpa esfarrapada, e a ingrata não sabe o que é uma bola de futebol, é que o pai, os irmãos, os tios e os primos todos são torcedores daquele time de lá. Aquela coisa. A ingrata não sabe o que é um impedimento, desconhece a regra três, não sabe o que é linha de fundo, mas é Pelotas. Bem feito, a ingrata está na segunda divisão.


Fui eu que a levei, pela primeira vez, para ver Fellini. Ela chorou tanto ao fim de Amarcord que eu nem pude disfarçar o desconforto. “É uma obra de arte”, lacrimejava. A ingrata depois disso foi estudar roteiro, fotografia, história da arte e acabou se formando em cinema, Nova Iorque. E está com a corda toda nessas revistas especializadas.


E nossa viagem para Montevidéu? A ingrata esqueceu que fui eu que a levei ao tango, ao vinho chileno, ao alfajor argentino. E ainda fomos curtir as férias na Praia Mole. Ingrata, esqueceu Cuzco, as Cordilheiras, Arequipa e Lisboa. Se ao menos fosse Farroupilha, vá lá. Pelotas. Pelotas, minha mãe!


A cidade tem três times. Três. O xavante, o querido e heróico Brasil, o nome de nossa paixão. O Farroupilha, e aquele caneco de 35. E aquela outra coisa, amarela. Ela tinha que escolher justo a opção do juízo final? Ingrata. E eu que sempre me perguntava quais as razões dela nunca vestir aquele tubinho preto com laçarotes vermelhos... Era por causa do Brasil. Ingrata. Mil vezes.


A ingratidão crassa. Campeia. Dilacera. Ingrata é o que ela é.


“Cubillas!!! Cubillas!!!!”


Tenho que ir. Ela me chama. Temos que pegar os dois na escola. Mas acho que vou convidá-la, pela última vez, para ver o Xavante e Internacional, lá no Bento de Freitas. É a última vez, juro. De pé junto. Ela fica linda com esse vestido azul...


08. abril, 04.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Armazém

Puxa vida... Sem textos novos.


Mas coloco um velhinho que gosto muito, já publicado nos Bolonistas:

http://osbolonistas.zip.net/arch2008-03-01_2008-03-31.html#2008_03-19_17_50_23-2402205-25

Gosto muito dos sabores e cheiros deste texto. Dá fome.

Espero que gostem.

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Das outras....


Bolonistas em tempos de dérbi...


Sincera e honestamente, nunca tinha reparado naquela pequena loja de secos e molhados que fica na esquina de minha rua. Talvez a pressa do dia a dia. Ou, quem sabe, o fato de normalmente estar de carro. É difícil se andar a pé na cidade grande. Muito difícil. O que é uma pena, concluí.

A loja até que era simpática. Um balcão de madeira bem trabalhado, daqueles antigos. A madeira parecia ser carvalho. Não conheço madeira suficientemente para atestar fé, entretanto. No balcão, uma porção de recipientes de vidro com diversos acepipes de encher a boca d'água: Amendoim, castanha de caju, castanha do Pará, figos secos, azeitonas em conserva, das pretas e das verdes, sardela, pão de lingüiça, maçã desidratada e uma porção de outras coisas visualmente atraentes.

Entrei na loja por acaso, é verdade. Parei só para perguntar se sabiam onde era a Rua tal e qual. Mas o aconchego e o cheiro dos salgados, doces e da madeira me detiveram. E uma enorme bandeira da Ponte Preta ornava o local, atrás do balcão. Inevitável puxar assunto.

O dono do armazém era um senhor de longas suíças, barrigudo e com cara de boa gente. Proseador. Foi logo contando a história do boteco. Abriu uma garrafa de cerveja enquanto preparou uma pequena travessa com as sementes. No tomate seco despejou azeite e me ofereceu guardanapo.

O nome da peça rara era Varela de Vieira. Varela, em homenagem ao carrasco Obdulio, da seleção uruguaia de 50. Nascido no Uruguai, o pai dele era um português que trabalhava no consulado luso em Montevidéu quando o pequeno nasceu. Era a justa homenagem para o povo que o acolhera, me explicou sobre as razões do pai.

E contou que criança foram deslocados para o Consulado em São Paulo. E que o pai ficou viúvo e, desencantado, resolveu largar a carreira diplomática. Acabou em Campinas, dando aulas de direito. Lá conheceu Isadora, e logo vi o retrato da bela mulher, no lado oposto ao da bandeira da Ponte Preta. Isadora era sem dúvida a mulher mais bonita do mundo. A fotografia não deixava dúvidas. O velho retrato destacava um rosto de mulher com aquele sorriso de parar o tempo e os olhos negros de querer a noite. E ela com uma camisa verde, inacreditavelmente verde: Guarani.

Durante anos o velho tentou se aproximar de Isadora, em vão. Ela não notava aquele viúvo, pai do menino Varela. E jurou o bonachão, enquanto descontraidamente abria nova garrafa de cerveja, desta feita de outra marca e mais gelada, que o velho ficou até doente. A outra paixão do velho era o Benfica, me disse. Mas em nome da nova paixão começou a freqüentar os jogos do Guarani, saber a escalação e até vestir a camiseta verde. Pela simples razão da moçoila ser torcedora fanática do Bugre. Vestia o manto nos dias de folga, cantava o hino nas horas vagas e desfilava impropérios nas arquibancadas do Brinco de Ouro da Princesa.

Mas nada. Isadora nunca dera um olhar sequer ao velho pai do Varela. Abriu um sorriso largo, destampou o vidro do alicce, encharcou um naco de pão e sem que eu dissesse nada encheu outro copo para mim: “Até que um dia o meu pai desistiu daquilo tudo sem sentido e começou a andar com a camisa da Ponte Preta, só para demonstrar profunda irritação.”

E um dia de domingo, no tempo em que ir ao estádio era programa de domingo, dia de clássico na cidade, a moça fitou o moço que levava o filho ao Moisés Lucarelli: “Varelinha, que camisa mais feia!!!”. “Vem cá... quem é este senhor, que você nunca me apresentou?”. “Professora, este é meu pai...”. Dois meses depois, casaram.


08.março, 19.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

E o palhaço o que é???

Mais um texto da série já publicada nos Bolonistas. Já escrevi antes: xodó. Gosto muito de escrever e reler essas pequenas historietas...

Publicado originalmente aqui:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-10-01_2007-10-31.html#2007_10-18_15_45_30-2402205-25

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Bolonistas Saudosos das Outras Histórias...



O fusquinha azul subia e descia as ladeiras da cidade. Rodava, passeava, cantarolava. Munido de um estridente aparelho de som, com chiados, quase inaudíveis as frases ditas, de forma rápida. Mas elegantes. “Hoje tem marmelada? Tem sim senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim senhor.” Era o anúncio, do circo. O circo e a cidade. As crianças todas vivendo euforia. A tenda colorida. O fusquinha.


Os olhos curiosos e pretos do pequeno Leônidas cintilavam. Camisa do Alecrim, sempre. Inseparáveis. E a bola de meia. O pai, seu Arthur, ainda inconformado com a opção do menino, vestia a camisa do ABC. Coisas de família. Simples, mas teimosos na vida.


O pai, nome Arthur por causa do genial boleiro Friedreinch, já tinha escolhido o nome do menino. Leônidas. O craque que inventara bicicleta. Que jogava para dentro da baliza a pelota com as pernas no ar. O Diamante Negro. E tinha outros planos para o filho: Ser doutor e torcedor do ABC. Assim como o avô, o pai e os tios. Nasceu num Alecrim e América, entretanto.


Desde pequeno Leônidas escolheu o Alecrim. Amor desses que não tem muita razão nem explicação. Talvez o verde da camisa. Talvez o hino. Mas foi assim. E o menino ganhou de um vizinho a camiseta cinco, inseparável. E quando o pai lhe provocava, “sarreando” a opção, respondia, de pronto: “É o único time do Brasil que teve um Presidente da República!!!”. E era. Café Filho jogou nos potiguares da vida.


O fato é que o menino não dormiu mais depois das notícias dadas pelo fusquinha. Imaginava o circo. E na volta da escola fazia questão de errar o caminho e olhar para a tenda colorida. Os animais. Os gritos. As cantorias. As bicicletas num canto. Sonhou com aquilo tudo. Uma, duas, três noites. E sábado nunca chegava.


Chegou. E foi como o Alecrim. Inimaginável alguma razão para tirar o menino do campo de terra da matriz, antes do escurecer. Mas naquele sábado o menino já estava de banho feito, antes da novena. O pai encantado levou o menino e os irmãos.


Espetáculo. Os olhos, as mãos, os pés. O corpo. O menino não imaginava aquilo. E teve o fogo, dos cuspidores. Os trapézios. Os domadores. As canções. E os palhaços. Na primeira risada estava dado o destino. O pai percebeu, por instinto. “Nem ABC, nem Doutor.”. O menino chorou ao fim do ato. E decidiu ser palhaço. O “Galante Alecrim”. Faceiro, inteligente, alegre, Chaplin. O melhor dos Carlitos. Já com quinze anos conhecia o Rio de Janeiro e a Cidade do México. Aos vinte, Lisboa. O palhaço mais feliz do mundo.


Nos festivais internacionais, convites não faltavam, foi conhecer o mundo e outros circos. Outros times. Sempre levava a inseparável camiseta cinco. E trocava com franceses, ingleses, camaroneses, poloneses, por camisetas de outros times. O “Galante Alecrim” fez fama. E seu Arthur repetia, com um imenso sorriso no rosto: “Nem Doutor, nem ABC. Mas também nunca foi América!!!”


“Uma pirueta, duas piruetas.” E num desses foi parar em Moçambique, Maputo. Circos que alegravam aquele país pobre e triste, mas de imensa alma. O sorriso das crianças todas. E um sorriso especial, que nunca mais pode esquecer. Ela vestia branco, um lindo colar e escondia a longa cabeleira no uniforme colado ao corpo. A trapezista e o palhaço. A história foi assim. Como o Alecrim.


2007.outubro

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Vivendo e aprendendo a jogar...


Outra da série dos times brasileiros e seus torcedores. Eu gosto destes textos. Gosto das releituras. Gosto de escrever tais estórias. Com "e"... E que poderiam ser histórias também...

Publicado originalmente n' Os Bolonistas:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-06-01_2007-06-30.html#2007_06-26_18_18_09-2402205-25


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O Mais Belo dos Botafogos


Bolonistas que queriam ler sobre as outras histórias...



Havia um clima de indisfarçável consternação. Depois de tantos e tantos anos, tantos e tantos jogos, o Botafogo poderia subir para a Série B do Brasileirão. Mas falhou, na reta final. E o pior, falhou na hora que não poderia. O time de João Pessoa amargaria mais um ano de jogos esquecidos.


E o pior é que este fato gerou inusitada e alarmante situação na família Goitacás: Michel não saía mais do quarto, desde o domingo.


Todos conhecem ao menos um Goitacás, lá da Paraíba. Eles são famosos, pois a família se especializou em nomear seus herdeiros com os nomes dos craques da seleção francesa de futebol, muito antes, mas muito antes, do canarinho virar saco de pancada e freguês de carteirinha dos “bleus”. Digo isso, pois todos viram ao menos uma vez nessas matérias de programas de esportes as incríveis façanhas da família Goitacás.


O velho e bom Domenico Salvador Goitacás era jornalista e foi escalado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro para cobrir o Mundial de 30, no Uruguai. Em feliz dia, Dom Domenico viu, estupefato, a defesa do arqueiro Tephot, da França, numa penalidade cobrada por um atacante chileno. Uma defesa de penalidade em pleno Mundial de Seleções. Algo memorável. E Domenico resolveu que seu primeiro filho se chamaria Thepot Goitacás. E Teté nasceu em 32, sorridente e confiante, ainda no Rio de Janeiro.


De lá para cá várias gerações de Goitacás perfilam os gramados da vida. A família voltou para a Paraíba, ainda nos anos 40. Adotou o Botafogo como time de coração, embora uma ala da família, com nomes de mortais, morasse em Campina Grande e adotasse o Treze. Em 59 nasceu Fontaine Goitacás. Em 61, Kopa. E o Botafogo, o “Belo” da Paraíba foi conquistando títulos e títulos regionais.


O fato é que a campanha do Botafogo fora irrepreensível. Mas no quadrangular final perdeu do Santo André, em pleno Almeidão, e empatou com o Ituano, num inimaginável 4x4, na última rodada. Michel, irmão de Tigana e Rochetau, primo de Amorros, desde o empate se prostrou na cama. Não havia alma que lhe tirasse do quarto. Benzedeira, padre, professor de música e até a dona da quitanda já haviam tentado. Em vão.


Os vizinhos começavam a espalhar boato: “Narcóticos”. Os familiares de Campina Grande, fofoca: “Descobriu que ela o trai.”. Foi aí que o pequeno Zizou, com seus cinco anos incompletos, mandou a certeira: “Paiê... será que se fosse o Treze...”. Michel percebeu o perigo e o ridículo. Abraçou o filho, foi para a praia jogar bola e, por via das dúvidas, comprou mais uma camisa com a estrela vermelha para o menino.



2007.junho, 26.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

De casórios e de casamentos



Originalmente, nos Bolonistas.

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-04-01_2007-04-30.html#2007_04-28_01_20_59-2402205-25

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Bolonistas dos Campeonatos Regionais em fases decisivas...


Quem não se emociona com Altemar Dutra não é pessoa confiável. Simples, assim. Esta era a opinião central de Cróif sobre o mundo dos homens. Não, não errei. Cróif nasceu em 1974, sagitariano, batizado assim em homenagem ao maior jogador de futebol da história da Holanda. Aliás, um dos maiores futebolistas do globo, um assombro. Evidentemente que houve erro na grafia, no cartório. Mas este fato é de pouco relevo.


Cróif nasceu e em pouco tempo revelou sua natureza dócil. Era, desde menino, um cara legal. Supimpa. Boa gente. E galante. Com cinco anos já roubara flores para presentear a vizinha, de sete. Da vitrola do pai conheceu clássicos do repertório romântico. E foi e cresceu desse jeito. As suas paixões eram três, além da música: Filme do 007, mulatas e a Associação Desportiva Confiança. Esta última lhe tirava o sono.


Me contaram um dia, nesses dias de boteco, que Cróif era daqueles lunáticos, sabedores dos dezesseis títulos da Confiança no Campeonato Sergipano de Futebol, das melhores campanhas do time no Nacional e que somente vestia azul ou branco. Era febril. Mas a febre não o impedia de ser um cara normal, exceto no futebol.


Pois bem, o fato curioso foi que em um dezembro qualquer Cróif chegou cabisbaixo, macambúzio e ranheta e sentou-se na mesma mesa cinco do nosso bar predileto, seja ele qual for: "Vocês não sabem o que eu descobri...". Confesso, temi. Só podia ser por causa dela...


"Ela vai se casar." Senti a primeira pancada. No estômago. "Ela vai se casar e vai ter festa." Aquilo roeu minhas vísceras. O cara ia desmontar e ia ser aquela cena no boteco. "Ela vai se casar, vai ter festa e porra... eu vou ser o padrinho!!!". Senti náusea. Vertigem daquelas. E, batata, o cara desandou a chorar, daqueles choros que contaminam, que enlouquecem, que arrebentam.


Impossível deixar de divagar. Bar é local de história triste? Sacanagem. Juro, vou me regenerar e parar de beber. E nesse pensamento fortuito vocês nem desconfiam, nem sequer imaginam o que aconteceu. E posso dizer, testemunhei. Lá pelas tantas, umas quinze tulipas, duas doses de "steiéguener" e muita choradeira, música de corno e impropérios múltiplos sobre os nubentes, entra uma mulata escultural, anormalmente bela e ébria, vestida dos pés a cabeça com o segundo uniforme da Confiança, um branco sublime, bestial e estonteante:

"Eu não acredito, você vai deixar eu me casar com ele, seu tapado!!!!".

2007. abril. 28.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Outra, dos xodós.

Original, no Bolonistas:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-04-01_2007-04-30.html#2007_04-16_23_32_29-2402205-25

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Bolonistas céticos e os outros...


Todos reconhecem a grandiosidade das histórias de botecos. De certa forma e modo, as pequenas delícias do chope só se completam com as belezas das histórias anônimas, contadas e percebidas na mesa ao lado. Quem nunca "pescoçou" uma conversa alheia em boteco mente. Todos mentimos.

Lá pelas tantas era tão nítida a pérola que me pareciam os detalhes mais um filme do que novela, mais verdade que mentira, mais sóbria do que ébria. Os fatos relatados eram de amor febril e contrariado. Poucas vezes vi um silêncio tão grande entre as mesas do Bella Rubia. Repentinamente todos auscultavam a pérola. Alguns tinham lágrimas.

Tudo começou, sempre há um começo, numa dessas tardes sem compromisso que acabam por acabar em uma mesa, alguns copos e alguns acepipes. Pelo que notei, era um viúvo. Tinha lá os seus sessenta, menos que setenta. Era um homem de renome, mas desencantado. Os relatos davam conta de ser um dos poucos torcedores da Portuguesa de Desportos e pelo que eu entendi da conversa tinha nome de craque, Heleno. Para quem não sabe Heleno de Freitas fora um genial jogador do Botafogo. Mas um jogador de temperamento para lá de cascudo, um encrenqueiro de marca, um namorador de acabar casamentos alheios, um azougue. Heleno era na viuvez a sobriedade, mas era a tristeza em pessoa.

E naquela tarde entre copos surge uma moça no bar, dessas de dezessete. Linda, atraente, de óculos. Com uma justa e bela camiseta da Lusa. O que era impossível aconteceu e ambos acabaram a noite tagarelando sobre a Portuguesa. O entusiasmo da bela e o conhecimento dela sobre Djalma Santos, Julinho Botelho, Brandãozinho, Enéas, Jair, Wilsinho, Edu Marangon, Rodrigo Fabri, o fantástico Dener, Candinho despertaram os olhos cansados e céticos daquele senhor que pensara seriamente que nunca mais conheceria ninguém com menos de trinta anos torcendo pelo clube do Canindé.

E foi tanto assunto que Heleno se sentiu tentado a fazer o convite: "Lusa e Bandeirante de Birigüi, amanhã. Na tribuna, sou sócio." E ela topou no ato, mas fez reparo: "Vou. Mas de arquibancada, pois não sei ver o jogo sem o fado". Ouvindo o relato imaginei o sorriso da moça, deslumbrante, daqueles de parar o trem, gelar a arquibancada, domar a multidão. E senti que Heleno estaria em apuros.

E depois de Bandeirante tivemos o Rio Preto, o Mirassol, o Comercial e o Nacional, na Comendador Souza. E foi num amistoso contra o algum time grande qualquer, sentados pela primeira vez em cadeiras numeradas, que ouviram o primeiro sinal de alerta: "Vovô deixa a menina com a gente!".

Era inevitável que conversas sobre a Lusa resultassem em outros assuntos. Descobriram uma afinidade política incomum, ambos ainda eram socialistas, seja lá o que isso queira dizer. Eram terminantemente contrários à pena de morte, favoráveis à descriminalização do aborto e achavam uma tolice manter na ilegalidade a maconha e o jogo do bicho. Enquanto ela descia a lenha no Governo Lula, Heleno ainda acreditava em Papai Noel. Ela gostava da Pitty: "Te vejo sonhando e isso dá medo, perdido num mundo que não dá para entrar/Você está saindo da minha vida e parece que vai demorar.." Ele, de Vinícius e de Tom: "Porque tu foste para mim, meu amor, como um dia de sol".

E cada vez mais eram incomodados por comentários pérfidos sobre idade, sobre remédios para os homens trabalharem, sutis hipocrisias e galhofas. Mas nada parecia incomodar de fato, pois sempre havia a lembrança daquele golaço do Dener.

Mas sempre há os dias de luto. Numa tarde fria, ouvindo Amália Rodrigues, ele desistiu de tentar ser feliz, numa argumentação covarde, mas cheia de heroísmo romântico: "Não dá mais para nós. Amanhã você presta vestibular...". Ela não acreditou, mas infelizmente não reclamou, não argumentou, não tentou, sequer chorou. E desistiu também.

O silêncio no Bella era sepulcral. Alguém lembrou que a Portuguesa jogaria a partida decisiva no domingo. Mas, sinceramente, de que adiantaria?

2004.abril.16

quarta-feira, 19 de março de 2008

Cadarços em falso

Publicado antes nos Bolonistas...

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-03-01_2007-03-31.html#2007_03-28_13_50_27-2402205-25

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Bolonistas dos primeiros dias....



Ferenc de Almeida. Nunca entendera bem a razão do nome. Mas seu Vicente o nomeou assim em homenagem ao Puskas. O maravilhoso magiar do Real Madrid e da seleção húngara de 1954. Dizem até que o major Ferenc Puskas trocara uns sopapos com a delegação brasileira na Batalha de Berna, jogo em que os magiares colocaram nosso time na roda.


Desde sempre Ferenc foi bom aluno. Era um dos melhores da classe, do colégio e da cidade. Ganhara duas das famosas Olimpíadas de Matemática. Estudou na Federal e se especializou em São Paulo, na USP. Era notório especialista em astronomia e química quântica. Comum ser chamado de “A Sapiência” pelas colunas sociais dos periódicos locais. Fez fortuna. Professor catedrático. Casado, pai de três filhos e uma filha, linda. Foi figura carimbada nos comícios pelas Diretas. Figura proeminente da política local, sem nunca ter aceitado cargos de secretário de estado ou qualquer candidatura. Uma sumidade, enfim. Tal qual o homônimo, genial.


Mas padecia de uma tristeza incomum. Não chegava a ser depressivo crônico, ansioso patológico ou rancoroso. Era uma figura triste. Poucos sorrisos na face. Gostava de música, se encantava com Luis Gonzaga. Glutão, comia de tudo. Tinha especial adoração por filé com brócolis com alho, fritos no azeite preferencialmente.


A tristeza não incomodava os muitos amigos. Embora muitos se preocupassem com a cara de infortúnio de uma das mais lúcidas figuras da República. Alguns justificavam tal enfermidade exatamente pelo fato do professor saber muito e reconhecer a impossibilidade de transformar as coisas impossíveis. Uns diziam que a culpa era do ateísmo. Ninguém tinha razão, entretanto.


Nutria especial deleite pelo futebol. Nascera numa casa simples e desde pequeno aprendera a cantarolar o hino do Ceará, o “vovô” do futebol cearense. Todos na família torciam freneticamente pelo Ceará. Os loucos eram capazes de recitar os times campeões de 22 e 25 como se os jogos tivessem acontecido na noite anterior. O pai Vicente tinha um irmão Valter que nunca mais fora encontrado nas festas de família e nos álbuns de retrato, pela razão odiosa do irmão problema ter se tornado Fortaleza, o tricolor de aço. Pareciam lendas, mas diziam coisas abomináveis do Tio Valter: que este se perdera pelo mundo, que era amasiado com mulher casada na Guanabara e que fora preso na ditadura militar por ser comunista. Doutor Ferenc de Almeida foi secretário geral do PCB na clandestinidade e vai ver era esta a razão, todos desconfiavam, que este demonstrasse afeto e admiração pela história do abominável Tio Valter.


O futebol esteve sempre presente nas reuniões de família. Ferenc, entretanto, nunca fora torcedor apaixonado pelo Ceará. Era, evidentemente, torcedor do Vozão. Ia aos jogos, acompanhava as escalações e tinha ido até a Argentina acompanhar um amistoso. Mas não apresentava os sintomas de delírio da família. Tio Vantuir dizia que o Doutorzinho era tão inteligente que estava acima dessas coisas terrenas.


Mas embora não doente pelo Ceará, Ferenc conhecia tudo de futebol. Sua mente era capaz de assombrosas lembranças dos melhores times do mundo, do Real Madrid, do São Paulo e até do Ceará. Era dos poucos na família que tinha um jogo de botão do Fortaleza e outro do Ferroviário, nomes de times que nunca eram mencionados nos encontros da família Almeida, por ser pecado justo para excomungar qualquer ser terreno.


Mas a tristeza atávica ao caráter do Doutor o fazia sofrer. O pior é que não sabia a razão daquele estado permanente. E numa bela tarde de outono resolveu se encaminhar, finalmente, depois de anos e anos, depois de tanto adiar, para uma terapia, dessas com divã. Temia reconhecer seus fantasmas. Temia. Mas o espanto é que a resposta da terapeuta, passados os primeiros cinqüenta minutos de sessão, era de uma obviedade solar: “Doutor Almeida, me desculpe. Seu problema é evidente. Você tem medo do Tio Valter. Você é Fortaleza, cada palmo, cada pedaço e cada cadarço”.


Ele nunca tinha chorado daquela forma. Chorou, tal qual menino que perde a bola no arame. Nos últimos dez minutos de sessão foi capaz de relembrar o esquadra do Tricolor de Aço de 59 e que seu grande ídolo sempre fora Bececê, o artilheiro de Limoeiro do Norte. Sorriu. Teve saudades do tio Valter. Há sempre um primeiro dia para tudo.


2007.março.28.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Outra das outras

Originalmente:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-03-01_2007-03-31.html#2007_03-23_13_43_50-2402205-25


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Bolonistas que esperam pelos mil goles



Não sei se na vida real jogaram juntos. Mas eram amigos, desde sempre. Mané, Vavá e Didi. Pequenos, ainda descalços, se conheceram na escola. Manoel, Valdomiro e Dionísio, de nascença. Mané, Vavá e Didi no coração. Os apelidos lembravam ataque de seleção. Eles gostavam desta curiosa situação.



Mané sempre foi o mais extrovertido, o mais apaixonado, o mais namorador e o mais enrolado. Sempre capaz de extremos, namorou atrizes famosas, jogou futebol no Bangu, ganhara no bicho com a mesma freqüência espantosa que tinha que pedir empréstimos para agiotas. Adorava canções de amor, de amores rasgados, impossíveis e os consumados.


Vavá era destemido, corajoso, um pouco rude, mas aquela rudeza que os amigos perdoam. Uma sinceridade atroz, olhos profundos. Os que o desconheciam o achavam triste. Os que o amaram sabiam de sua paixão pela vida, pelo vinho, pelo calçadão, pela areia. As mulheres foram poucas, mas intensas. Dos três era o único que gostava de verdade de bossa nova.


Didi era sábio e sabia como poucos as melhores saídas para as melhores discussões. Dos três era uma espécie de líder, de cérebro. Galanteador, era fiel, porém. Não era quieto, mas não desperdiçava palavras. Genioso, adorava pão com manteiga e odiava margarina. Os assovios eram comuns e tinham samba, boleros e coisas que tocam nas rádios.


Nunca me esqueci de uma noite, no Bar do Luís, chope e porção de joelho de porco, vozes alteradas: “Essa música é do Antônio Marcos”. Era um brado de fúria ébria. “Você está louco!!! É do Rei. Rei. Roberto Carlos.” A resposta também em alto volume e em tom de discussão. Então, Didi, certeiro: “A música é do Antônio Marcos. Mas a versão que faz chorar... é do rei.”. Ponto final na discussão. Até hoje eles cantam, depois do oitavo copo, a bela “E não vou mais deixar você tão só”, e é possível e provável que os três tenham lágrimas.


Tinham vivido muito a vida. Tinham casado, um descasou, outro viuvou, tinham tido filhos e até netos, no caso de Mané. Tinham até uma paixão em comum, nunca revelada, mas evidentemente reconhecida, pela mesma mulher. Todos eram torcedores. Torcedores no bom sentido. Torciam desde os tempos do futebol de botão, da bolinha de gude e das pipas. Mané, era Fogão, desvairado. Vavá, Vasco, contido. Didi, tricolor, entusiasmado. Mas na cumplicidade que os acariciava escolheram secar o Flamengo. Coisas de torcedor. Coisas de amigos Do peito.


Naquele domingo, o mesmo bar de sempre, um bolinho de bacalhau ainda esperava. Tinha acontecido. Zico, o genial, acabara de dar mais um título ao Flamengo. Uma longa fila esperava o Botafogo, Dinamite não era suficiente para aplacar a dor e a Máquina já era uma lembrança distante. Mas a notícia que os silenciara, pela primeira vez em anos, era aquela que teriam adiado, teriam escolhido ir primeiro, nunca esperaram: Ela se foi. A notícia chegara no intervalo do jogo. Difícil crer. Difícil entender. O silêncio era perturbador. Entre os garçons havia um respeito absoluto. Os chopes com colarinho chegavam sem que fossem pedidos. Uma dor palpável, visível, dilacerante.


Entre olhares perdidos e vagos, o diálogo estranho que teriam evitado pelo resto das vidas. “É. Eu sempre soube.” “Eu também.” “Todos sabiam pelo jeito, até os garçons!”. “A gente dava tanta bandeira assim????”. “Porque nunca falamos isso antes?”. “Porra... você é casado, ele é viúvo e eu...”. “Será que minha mulher também sabe???”. “Mas era algo tão distante”. “Tão distante, tão impossível, tão improvável.”.


Jura o garçom que a última parte do colóquio foi mais ou menos assim: “Sei lá... E podia ser estranho, eu não ia querer saber se um de vocês se enamorou, comeu, trepou, a beijou.”. “Nem eu.” Um longo e pausado silêncio, uma resposta, quase uma desculpa, uma suplica: “Ela torcia pelo América, sabiam?”. Ninguém sabia.


2007. março. 23.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Mais uma história

Outra da série de "Outras Histórias" dos Bolonistas...

Originalmente: http://osbolonistas.zip.net/arch2007-03-01_2007-03-31.html#2007_03-19_12_09_29-2402205-25.


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Bolonistas que gostam de finais felizes...



Enquanto alguns perdiam o fiapo de domingo bebericando uns goles de cerveja, uma pizza ou um cinema, ele se entupia de mesa redonda. Era um vício incurável. Terrível até. Perdera amizades, perdera amores. Perdera tempo e dinheiro, discando para manifestar suas opiniões próprias, quase sempre impróprias para os programas de televisão.


Era, desde sempre, um torcedor fanático do Avaí. Mais do que o Guga. Nascera assim, numa quarta feira de um agosto qualquer. Não podia ouvir o nome do Figueirense, tinha colapsos. Uma vez, na escola, desmaiou quando soube que o Joinvile tinha mais torcedores na classe do que o seu Avaí. Sabia tudo e quase tudo sobre o time do coração. Suas conversas prediletas eram sobre o time, a história do time e os craques do time. Chorou rios. E sorriu pouco, mas deliciosamente, nas vezes em que pode.


A rivalidade com o Figueirense era tanta, mas tanta, que não conseguia mais vestir nem preto, nem branco, quando misturados. Ou a roupa era inteira branca e arrancava até a etiqueta preta, ou não tinha jogo. Não tinha como. Muitos não o entendiam. E os que entendiam, ainda ficavam ruborizados quando ele desatava a chorar depois dessas inapeláveis derrotas.


Também pudera. Ninguém poderia ter o nome de Mário Kempes impunemente. Nunca entendera a fixação do pai pelo argentino, mas, enfim, gostava do nome e o futebol foi sempre a coisa mais importante. Na verdade, a segunda coisa. A primeira era o Avaí.


Quando ela o conheceu, soube logo da enfermidade. Desde a escola primária entendia que ele nunca seria dela. Embora os olhos azuis dele quando fitavam os olhos dela sempre faiscavam. Ela o escolhera como paixão, desde a segunda série. Na quinta série, assumiu o amor platônico. Na oitava, indo embora do colégio, admitiu que o perdera para o time azul. Resoluta, adotou o Figueira. E sabia que daquele dia em diante poucas chances teria. Quase impróprias. Impossíveis.


Kempes nunca a entendeu. Gostava dela. Sentia verdadeiros calafrios por ela. E sabia que a vida sem ela perderia a graça. Mas ela nunca dera chance, dera mole, dera pistas. Foi numa tarde de terceira série que percebeu que ela seria o grande amor da sua vida, embora não soubesse deste tipo de amor. E como nas paixões mais arrebatadoras, numa tarde de intervalo num tempo de ginásio, teve ódio: Ela vestia a cinco do Figueira. Logo ela... Por quê? Tentou esquecê-la.


Naquele domingo o Avaí, novamente, reiteradamente, perdia a última chance de classificação para a primeira divisão do campeonato nacional. Aquela tristeza macarrônica o assombrava. Não tinha mais forças. Teria desistido de tudo, se não fosse pela promessa da diretoria em trazer o Jacaré de volta. Desligou a televisão, numa insônia de cataclisma. Resolveu ouvir música... “Ela desatinou...”.


Depois de muito pensar resolveu que deveria viajar. Esquecer um pouco das agruras da segundona, dos gastos com “pay-per-view”. Ir para longe de Santa Catarina. Longe de tudo. E foi. Acordou feliz num quarto de pousada na Serra das Belezas, próxima de Conservatória, num distante Estado do Rio de Janeiro.


Para quem não conhece, Conservatória é famosa pelas serestas. Nas noites de sexta e sábado seresteiros saem pelas duas ruas da cidadela e passeiam a tocar músicas que fazem os cotovelos urrarem. “Quem sou eu... pra ter direitos exclusivos sobre ela...”. “Esses moços, pobres moços, ahhhhh se soubessem o que eu sei...”. Kempes se divertia. Estava leve, embora vestisse o segundo uniforme do Avaí.


O primeiro chamado, não reconheceu. No segundo, pensou ser sonho. No terceiro, era tarde, estava aos lábios dela. “Você por aqui?”. Não deu tempo para resposta. Ela estava de branco e preto. Ele a beijou: “Por onde você andou este tempo inteiro?”.


Não foi fácil explicar aos amigos que ele não sabia que o Tribunal Esportivo mandara refazer a última rodada do campeonato da segunda divisão e que o Avaí jogava na quarta feira, com portões abertos.


2007. março. 19.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

De boteco, uma delas

Publicada originalmente nos Bolonistas.

De uma série que gosto de fazer: homenagens aos times e torcedores que rondam por aí.

Esta é a primeira da série, que chamei de "Bolonistas e outras histórias".

Gosto muito desta série de textos...

Xodó.

Espero que gostem.

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-03-01_2007-03-31.html#2007_03-15_14_24_15-2402205-25
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Bolonistas que reconhecem uma verdadeira paixão ...


Aquela irritação do domingo, noite. Acrescida de uma legítima dor de estômago, em razão daquelas coisas que só acontecem com o Clube Náutico, o Timbú. Era inacreditável que o alvirrubro tivesse perdido, nos Aflitos, para o Paulista de Jaboatão dos Guararapes. O Paulista já não tinha chance de mais nada. Só de atrapalhar...



Ninguém se chama Euzébio impunemente. Enquanto o estômago revirava, a certeza de que os colegas de trabalho iriam acabar com ele na segunda braba, o telefone: “Oi... tudo bem?” A voz rouca, que ele adorava e fazia o estômago revirar, e muito. “Tudo, e você?”. “Quarta feira estou aí. Vamos nos encontrar?”. Ele quase perde a fala, mas tomou coragem, sabe-se lá de onde, e desferiu: “Jantar aqui em casa. Ok?”. O ar pareceu inexistir durante segundos. “Ok. Beijo. Te encontro na quarta.” A televisão ligada já quase não importunava o ambiente.


As mesas redondas davam grande destaque ao feito do Náutico. Precisando da vitória para se classificar para o quadrangular final, naqueles esdrúxulos regulamentos de campeonato regional, perde. E, mesmo com a melhor campanha nos três turnos, o maior número de vitórias, o melhor saldo, o melhor ataque e o artilheiro do campeonato, o Náutico corria sérios riscos de não se classificar para o quadrangular.


Era difícil aceitar o regulamento. Antes dela, o estômago revirara, a raiva cintilara. O Sport vencera o primeiro turno. O Santa, o segundo. Em ambos os turnos o Náutico ficara em segundo lugar. Naquelas coisas que ninguém explica, o regulamento indicava um terceiro turno: Se Sport ou Santa ganhassem, uma final entre ambos, com vantagem para o ganhador do terceiro turno. Se outro time faturasse o inexplicável turno terceiro, um quadrangular envolvendo os três campeões mais o time com maior número de pontos. Ou seja, um regulamento besta. E o pior, o Náutico já não tinha mais chances de ganhar o terceiro turno e dependeria do simpático Central de Caruaru. Sim, o Central tinha feito um terceiro turno irrepreensível. Mas, precisaria ganhar do Sport, em plena Ilha do Retiro, na quarta feira à noite, para tirar do rubro-negro o título do extraterreno terceiro turno e a vantagem nas finalíssimas.


Euzébio era Euzébio por causa do Euzébio. Isso mesmo. Pai fanático por futebol. Mãe portuguesa. Filho, com nome de craque. Euzébio nasceu Portuguesa, de Santos. Mas se mudou para Recife e adotou o Náutico. E se perdeu. Nos insondáveis caminhos que nos fazem torcedores de um clube de futebol, foi o alvirrubro que colocou arreio. Fanático.


Mas ele tinha aquela paixão de desvario por ela. E de uns tempos para cá ficavam juntos, namoravam um pouco. Uma casquinha ali e outra acolá. Mas ela mudara da Recife para São Paulo. E a paixão ficou assim, suspensa. Era a primeira vez em meses que ela voltaria para a Recife. Em plena quarta feira. Euzébio, quase sem querer: “Ainda bem que o Náutico não tem mais chances... quarta feira desisto do futebol!!!” E sorriu.


Foi mais fácil agüentar o resto do domingo. A segunda feira, foi plácida. Todos admiraram a sobriedade do rapaz. A altivez. Agüentou o sarro de forma sublime, quase inumana. Mas na terça feira avisou o chefe que usaria o banco de horas, que não trabalharia na quarta, na quinta e também na sexta. “Vou espairecer a cabeça.” Mentira. Mas todos acreditaram, era o Náutico.


Fez supermercado. Comprou vinho branco, “chardonay” argentino. Duas garrafas. E ousou, um tinto malbec para depois. Peixe. Iria cozinhar. Legumes frescos, tomates. Deixou a cebola de lado. Uns figos para a sobremesa. Estava deliciado. Só faltava ela chegar naquele “tubinho preto básico” que ele simplesmente considerava a maior demonstração da boa costura mundial. Em casa preparou terreno. Limpou as coisas, deixou propositalmente coisas desarrumadas. Um livro marcado na página predileta displicentemente na mesa de centro. Era o local perfeito. Tirou o pôster do Timbu da sala.


Ousou, ainda mais. Passou à tarde entre a cozinha e o computador. Gravou um “cd” para ocasião. Cuidadoso. Marvin Gaye e a beleza da “What´s going on”. Barry White, umas duas ou três, bem escolhidas e sem exageros. Uma Nina Simone aqui, um John Coocker ali. E uma do Rei, “Outra Vez”. Seu estado de espírito era absurdamente leve e obstinado. Era ela. Finalmente, depois de meses.


Noite chegando. Tudo pronto. O celular avisa que ela está chegando. Alguns amigos desejam boa sorte ao Central de Caruaru, numa evidente provocação gratuita. Ele coloca o aparelho no silencioso. Não quer nada para atrapalhar. Nem o Central. Nem o Náutico. Muito menos o Sport Club do Recife.


A campainha. Ele maravilhado: Era o tubinho preto. Para quem morava na distante São Paulo estava inusualmente morena. Com marcas. Tivera a leve sensação de levitar. A noite prometia tudo. E mais um pouco.


Não vou ficar aqui relatando os detalhes do namoro. Não vou definir o que aconteceu ao som de Barry. O fato é que lá pelas tantas ele foi surpreendido pelo celular, que embora no silencioso, emanava uma luz que indicava a certeza de recados deixados. Ficou curioso. E errou, soberbamente, uma mensagem de texto: “O Central acaba de fazer o quinto gol”. Foi como um soco. Deixou o bichicho mordaz da curiosidade.


Arrumou uma desculpa e foi ao banheiro. Um radinho de pilha. Ligou, sussurros. Era verdade. O Central metera 5x2 no Sport. Era campeão do turno. O Náutico, com melhor campanha, faria o quadrangular. Ouvia-se a entrevista dos jogadores, eufóricos: “Agora é com a gente!”. Saiu do banheiro trajando a camisa do Náutico, uniforme completo. Ela já tinha entendido tudo, desde a escapadela para o banheiro. Tinha ido embora. E deixara um bilhete na mesa: “Em SP, me ligue.” Nunca mais a viu.

2007. março, 15.