Segundo o Houaiss, Quodore é uma pequena porção de vinho, uma pequena porção de alimento. Também é uma bebida ordinária, um café ralo, algo para o desjejum. Aqui, são fragmentos, ideias, pensamentos tolos, outros tipos de pensamento. Enfim, um cadinho de alimento...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Um copo dágua, por favor...
E continuam as pequenas crônicas da falta de água...
Mas ainda me causa espécie, que tragédia mais que anunciada, fiquemos esperando uma providência divina, uma chuva, um milagre.
Enquanto que as autoridades - e em SP é preciso nominar o governo do Estado, porque parece que a culpa é só de São Pedro - continuam fingindo pão de ló. Era necessário racionamento, transparência nas informações sobre contratos de fornecimento e sobre as providências. Mas não... o silêncio e o cinismo das autoridades e de parte da banda que defende o ocupador de cadeira oficial.
Espero, sinceramente, que o leitor destas crônicas publicadas nesta quitanda possa rir, mas possa dialogar com o tema. Porque o que a gente tem assistido é uma intensa campanha para apontar dedos para as pessoas, imputando responsabilidade individual para um drama que é da coletividade e, acima de tudo, tem um responsável político - e, não, o divino ou o espírito santo.
E nestas horas não é espanto algum que venham moralistas de plantão, prontos para cagar regrinhas de conduta.
Aos textos! E obrigado pela visita. Sente-se, seja benvindo, benvinda, bem vindo e bem vinda.
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Descobriu o porque daquele sorriso no rosto, mesmo num dia como aquele.
"O biltre tem um poço em casa, sabia?"
"Que biltre, querida? De quem você está falando?"
"Ora... daquele janota. Aquele que mora ali naquela casa..."
"Amarela?"
"Esse. O pascácio tem um poço em casa. Por isso aquele sorriso de propaganda de dentifrício! Tem um poço, deve tomar banho todo dia e a gente aqui, nesta de lencinho umedecido e repetir cueca."
"Querida.... desculpe... eu já sabia. Fui eu quem fiz o poço.... ele é meu amante. E o sorriso dele é por outra razão....".
"Você está brincando, né. Nunca me leva a sério. Vocês se merecem!"
"Eu sei...".
Nunca se soube a verdade. Mas o apelido dele, no time de futebol das segundas feiras, era "Capitu".
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O cara era dono do motel. Gostava, muito, de fazer festa pros outros, dizendo que era proprietário de um parque de diversões para adulto e tralha e tal.
E era... Um parque aquático, temático, cadeira, piscina, hidromassagem, ofurô.
Só que a crise da água foi se aboletando... Ele vivia um pré desespero. O negócio ia falir, ir para cucuia e ele já tinha levado a primeira tunda da Sabesp na conta... era um grande consumidor.
Colocou uns cartazetes nos quartos, nos banheiros. Distribuiu um folder na entrada. "Economizem água."
O fato é que depois dos cartazetes e tals, o movimento caía, dia a dia...
Até que um belo dia, o gerente - a santa alma que cuidava do estabelecimento para que desse o menos dores de cabeça possíveis ao dono - chega visivelmente tristonho...
"Acabou. A água acabou. A caixa dágua.... secou."
Foi quando ele se lembrou do parque de diversões e teve a grande ideia do mundo:
"Encha as piscinas com bolinhas. E no ofurô põe uns brinquedos, algemas, pintos, xoxotas de borracha, fantasias de polícia e ladrão, máscara do Brad Pitt e da Angelina Jolie."
Virou um "case" de marquetinque. Primeira página, palestra, aula magna e o escambau.
Mas hoje a vigilância sanitária lacrou tudo: denunciaram que as bolinhas estavam muito sujas....
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O clima estava esquisito...
"Amor.... não queria te dizer isso assim.... mas não tô aguentando.... eu estou tendo um caso."
Demorou um pouco, mas ela sorriu timidamente...
"Amor, então.... por enquanto, então, faz como eu... toma banho no motel, na casa dela ou dele... Deixa a caixa dágua pra lavar a roupa, a louça e pras crianças...".
"Melhor assim, né?"
"Ô amor.... não fica assim. Quando esta crise de água passar a gente faz terapia."
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Na cama, naquela malemolência....
"Amor...."
"Oi..."
"Você é meu chuchuzinho..."
"Ah... amor... você é meu pitelzinho...."
"Você é mais, é meu coração de amor..."
"Você que é... meu tesouro.... encantado..."
"Amor... sabe mesmo...."
"O que...?"
"Você... você.... você é meu caminhão pipa!!!!"
Transaram loucamente. E foram dormir, sem tomar banho.
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15, fevereiro.
sábado, 31 de janeiro de 2015
"A Dona Aranha subiu pela parede e ficou por lá."
Putz....
E faz tempo que esta quitanda aqui está sem víveres novos...
Crise de abastecimento? Talvez...
O tal do feicebuco tem esse efeito colateral. Por vezes escrevemos por lá e deixamos de lado cousas mais importantes.
Tentarei não deixar a casa vazia por tanto tempo. Promessa d´ano novo.
Fiz uns pequenos microcontos com o tema da escassez de água... Publico aqui.
Fiquem a vontade. Até para tomar um refresco.
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"Do que, paixão?".
"De antes....".
...
"Antes do que, tesão?".
"A gente...contestava... Fumava um baseado....imprimia panfleto clandestino na gráfica do centro acadêmico....trepava no cinema.... O que aconteceu com a gente, mô?".
Ouve-se um chorinho de criança, distante. Mas um espasmo.
Silêncio.
"É.... A gente encaretou, moça.".
Uns segundos...
"Amorão.....vamos fazer uma cousa bem louca agora? Transgressão! Cuspir verdades por aí?."
Ele, excitado... A cena para no começo do volume vivo, dentre as vestes.
"O que, bruxa?".
Os dois pelados, lavando o quintal. De esguicho cheio.
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"Oi, amor... que foi?".
"A gente nunca mais vai poder tomar banho junto?"
"Mas.... gosto tanto de ensaboar tuas costas... e de....sabe....".
"Upa!!!! Vou te contar um segredo, então...."
"Conta, conta...."
"Os vizinhos de cima tem acordado de madrugada e tomado banho escondido... a gente podia conversar com eles e propor alguma cousinha ... que você acha?"
"Tipo... todo mundo junto? Mas não vai gastar mais água?"
"É.... mas a gente reforça os laços de solidariedade....".
"Verdade, solidariedade é tudo nesses tempos de crise."
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O desespero se instala na casa... Pais modernos não querem criar fantasmas onde não existem. Sabem que o menino está lá, tocando uma para alguém. Mas não deixam de lado as preocupações mundanas... A carestia da água é a doença da vez. E desta vez séria, mui séria...
Esperam algum tempo. E nada. Até que se liga o chuveiro.
Mais um tempo e nada...
"Filho.... tá tudo bem?"
"Porra, mãe.... não enche....".
"Não seja malcriado com sua mãe, moleque!".
"Pai... caralhos.... quero tomar banho em paz....".
"Tá... tá.... mas filho, não esquece.... tem rodízio de água, tá faltando por aí, tá uma crise braba....".
"Tá!".
O menino sai do banheiro, toalha amarrada na cintura. E solta, quase que um lamento, enraivecido:
"Caramba, gente.... eu sei que tem que economizar água. Mas vocês sabiam que o papel higiênico para ficar branco gasta uns sei lá quantos mil litros de água!!! É... é sim... que para fabricar papel, uma tonelada que seja, se usa cem mil litros de água!"
E emenda:
"Essa punheta de ficar reclamando de punheta é ísso... uma grande distração do principal. Uma PUNHETA."
Todos ficaram um tanto ruborizados. Mas, por via das dúvidas, deixaram uma dessas revistas no bidê aposentado.
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"Oi, tutuquim...".
"Esse cheirinho de bumbum lavado as pressas...é seu?".
"Putz, mumuquinha.... É....esse cheiro de camiseta que seca no varal antes da gente usar de novo tem disso....".
Longo silêncio.
"Tuquinho.... Te amo.".
"Tutuquina....mais que banho. Vem cá....vem........".
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"Oi... o que é?"
"Querido.... você acha mesmo que a culpa desse negócio aí da falta de água é cousa de São Pedro?"
"Querido.... mas eu li que outro dia propuseram restringir fornecimento de água, no ano passado, e que se isso tivesse acontecido, sabe, hoje a gente podia ter mais agua na represa... uma reserva, sabe..."
"Querida... isso é política, politicagem. Você não gostou de tomar banho ano passado? Tinha água.".
"É....".
"Isso, fique tranquila."
"Querido.... o vizinho veio de novo oferecer pra gente poder tomar banho lá na casa dele... ele fez um treco de sei lá.... que aproveita a água da chuva...".
"Querida... olha... eu acho que nosso vizinho é um pederasta. Não quero me misturar com esse tipo de gente, mesmo banheiro. As coisas são muito difíceis, você não entende."
"Querido... qual a raiz quadrada de nove?"
"Ãh.... que pergunta... é três. Por que?".
"Nada.... é que você é tão inteligente...".
"Querida... você é ingênua. Deixe isso pra lá.... Você vai sair? Vai onde?"
"Ah.... querido.... vou ali comprar cigarro. E aproveito e levo esta toalha velha para doar lá na igreja.........".
15. janeiro.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Sobre fuscas e o aniversário da cidade
Ontem
foi aniversário da cidade. E a cidade, estranhamente, estava bonita.
Não pelo sol: inclemente, clamando protetor. Mas pelo conjunto de gentes
andando, caminhando, metropolitando, onibusando, bicicletando.
No Memorial da América Latina, ali na Barra Funda, sambistas da "Camisa
Verde" faziam uma espécie de ensaio para porta bandeira e mestre sala,
além das baianas. Foi legar ouvir o "É noite, agora... chora viola...São
Paulo tem convite para dar... Verde e Branco é um encanto...o show vai
começar....", samba de alguma década final do século passado e que deu
título à escola.
Uma pena o estado de abandono do Memorial. O
Governo do Estado de São Paulo é assim mesmo, deixa fluir, até que um
dia um imbecil venha dizer que é melhor privatizar. A placa da estátua
da "mão" do Niemayer, a que parece a América Latina, o sangue, uma obra
bonita, tá lá... pedindo uma manutenção... clamando atenção... quase
chorando. Mas não tem porque fazer isso, né...
Depois, o
Metropolitano. A estação Barra Funda. É bom passear de metrô. Os meninos
gostam, sinceramente. Eu gosto. Mas alguém precisa explicar para quem
cuida do metropolitano, ou deveria cuidar e planejar, que metrô pode
ser, sim, transporte para os dias de lazer! Sim, com intervalos não tão
demorados, quem sabe, quem sabe, as pessoas não deixam um pouco o mau
humor de lado. Quem sabe?! Mas essa gente que cuida do metropolitano
deve estar mais interessada em outras coisas... quem sabe no preço das
reformas, quem sabe na troca dos guichês de pagamento, quem sabe no
lucro da companhia, quem sabe sei lá.
O centro? Ontem estava estupefactamente bonito e ocupado. Do samba na Praça Roosevelt, do "Jazz nos Fundos"
na sua versão B, ali perto na General Jardim, com uma programação que
incluia diversão para crianças. Do almoço no "Boi na Brasa", esta
instituição do centrão do lado da República, uma relíquia, um oásis, uma
porção de batata portuguesa e um chope numa caneca de metal que faz
salivar só de lembrar.
E o show na Praça da República, com o
som meio capenga é verdade, do Paulinho da Viola. Paulinho da Viola,
fôssemos sérios, seria um país inteiro, seria feriado em qualquer cidade
que ele passasse, seria noite e seriam horas e horas e horas.
A praça Dom José Gaspar, ali atrás da Mário de Andrade, linda. Cheia. O
"Paribar", o "Cachaçaria do Rancho" e um samba prá lá de honesto na
marquise da Galeria Metópole. Tudo a conspirar: Estamos retomando nossa
cidade. Há um encantamento com esta moça antiga, nossa cidade, que se
perdeu em algum lugar - provavelmente para erguerem algum prédio de
cinco quartos, com sua varanda gourmet e academia.
E gente. Que é o que importa.
O Copan? Bom, o Copan, um clássico como o filé do Moraes, um patrimônio
como o canole da Rua Javari, um Masp, um Parque Trianon, uma estação
Júlio Prestes. Havia uma festa - ou balada como dizem os meninos - ou
boate como diria o pai - naquele estacionamento entre a Ipiranga e
aquela rua que vai virar Rua Araújo. Era uma balada tecno, com gente
dançando esquisito (segundo a versão do Grande). Sem contar o muro, todo
pintado e bordado de diversidades.
Saindo dali, quem sabe, voltar para as Perdizes pelo Minhocão?
E aí, cheiro de fumaça. Um cheiro forte. E aí, sirenes, viaturas, caras
feias. Na esquina da Ipiranga com a Consolação dava pra ver. Havia
fogo. Lixo queimando.
Confesso, não sei o que houve de fato.
Li hoje pelos jornais que uma manifestação de mil e quinhentas pessoas
desandou. Que quebraram agências bancárias e que foi um fundunço para
evitar que a manifestação chegasse até a República onde havia show. Eu
estava ali, no meio, provavelmente, entre os furdunços. Eu, minha
companheira e meus dois filhos. Não vimos, entretanto, este meio.
Vimos sim o colchão pegando fogo, de longe. E carros tentando passar
pela barragem inflamada. E sim, um dos carros pegou fogo ao passar pela
barrragem. Sim, provavelmente por medo do condutor - medo justificado,
diga-se - mas ninguém ateando fogo dentro do carro. E sim, uma cena ruim
de ver. Poderia ser mais grave.
Mas o que vimos foi a polícia.
E aí, sinto, lamento, desculpem-me. A polícia tinha sede. Ao passsarem
por nós, que estávamos distantes da confusão, com crianças, quase nos
cercando, havia a disposição para o combate. A tropa. Os carros na
contra-mão. Não havia ninguém a orientar. Sim, uma situação de estresse,
sem dúvida. Mas para que servem, afinal, as autoridades de segurança?
Ninguém acha que a polícia deve atuar com canhão de flores ou chegar na
multidão propondo um psicodrama - o que seria lindo. Sabemos, até os
postes, os paralelepípedos - que infelizmente estão em extinção - e as
coitadas das lixeiras sempre sacaneadas, que uma situação como esta, de
embate, tende a desandar para conflito, briga, tapa, chute, pontapé.
Mas aí que está a cousa toda. De um lado temos o Estado. Com seus
agentes. Que supostamente treinados. Armados. Capacitados. Mas não...
não são. Sem treino, subiam desordenadamente a Consolação na contramão.
Não orientavam. Tacapes na mão, prontos para o confronto - o medo de
quem ganha pouco e de quem definitivamente não recebeu orientações para
este tipo de conflito. O inimigo do outro lado. E só isso: o inimigo. Eu
era um inimigo. Estava ali. Bem ali.
Ouvimos barulhos de
bomba, provavelmente na Augusta. Ficamos ali na igreja da Consolação.
Vimos as viaturas. A tropa subindo. Não vimos manifestantes. E por isso
este relato pode ser entendido como parcial. Mas não é esta a questão
que enfrento, a de quem tem razão ou não. É a forma que o estado
escolheu para agir.
Pelo jornal li que eram dois mil policiais.
Dois mil. Mais que o número de manifestantes. Não sei, mas algo nesta
equação não fecha...
Depois de uns vinte minutos, subimos a
Consolação para pegarmos o Minhocão, que estava fechado para carros.
Vimos o rescaldo do carro queimado, um fusca. Sou da opinião que os
fuscas merecem o céu e que quem faz mal a um fusquinha tem pouca chance
de perdão, pouquíssima, quase nenhuma. Entristeci-me. Mas já não tinha
mais viatura, nem manifestante. Só bombeiro - talvez a única instituição
que sobre nessas horas.
Encaramos os três quilômetros do
elevado, da Consolação até o "Ponto Chic" do Largo Padre Péricles. No
começo, ainda, um pouco apreensivos, porque a iluminação do monstrengo
anda tatibitati também. Mas depois viramos super heróis de novo. E mais
gente encontramos. E bicicletas. E gente. E cachorros passeando. O
horizonte dali, naquele trecho por cima da Pacaembú, é bonito.
Estranhamente bonito. Assim como esta cidade maluca.
25.01.2014
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Passes e Passos, para fora do mesmo compasso
Há
uma profunda incompreensão quando movimentos sociais, populares,
espontâneos, brotam contra governos que se rotulam como de esquerda...
E é engraçado que as reações são similares, para não dizer idênticas,
aos daqueles que são rotulados como de direita: deslegitimam, criam
maniqueísmos, baderna, vândalos, protestar pode mas isso aí é bagunça.
Não é fácil, não.
Porque compreender estes movimentos, mais do que uma tentativa
necessária, é pensar um pouco sobre nós mesmos, sobre nossos equívocos,
sobre nossas traições.
Em 2011, sim, em 2011, durante o governo
Kassab, eram vereadores do PT que se diziam solidários ao Movimento do
Passe Livre. A crítica era contra a abusiva majoração da tarifa, a
rudeza e a truculência da polícia e cousa e lousa. Os embates entre os
vereadores e a polícia foram capas de periódicos e as falas eram de que o
movimento estava corretíssimo em suas reivindicações e ações. O próprio
site do PT tecia comentários de apoio, solidariedade e compreensão: http://transportesptsp.blogspot.com.br/2011/02/repressao-do-kassab-lembra-os-tempos-da.html
Não se pode exigir o "monopólio" das reivindicações justas. Este é o
problema central. O governo municipal está perdido, sim. Está perdido
porque levou a questão da tarifa do transporte público para um debate
meramente "técnico", aquele papo de contrato, reajuste abaixo da
inflação e um protocolo de boas intenções, do bilhete mensal à
construção de novos corredores. E aí, atônitos: "Poxa, mas tudo que é
correto nós estamos fazendo e prometendo que vamos fazer. O que esses
meninos e meninas querem é absurdo."
Não é. Porque o debate é
político. O reajuste de vinte centavos tem impacto brutal no bolso de
quem usa o transporte público diariamente. É a diferença entre o cinema e
o ficar em casa assistindo ao "Zorra Total". Entre a cerveja e o
cachimbo. Entre o passo e laço.
Dizem que há um problema neste
Movimento do Passe Livre, que eles não tem uma liderança reconhecida
que possa "negociar". Que eles são jovens de classe média, que não usam
diariamente o transporte público. Que eles vestem toucas, cobrindo
rostos... Cuidado, porque mais que incompreensão podemos correr o risco
de reproduzir conceitos que até ontem condenávamos.
A questão
da liderança e da "negociação" nos remete a um dilema sério e cruel. Em
que medida as negociações com lideranças dos movimentos de esquerda não
desaguaram numa retumbante diminuição de direitos ou em pequenas
traições (uso "pequenas" porque eu também cultivo dúvidas...): dos
movimentos de moradia que nunca tem suas desapropriações por interesse
social atendidas, da reforma agrária que nunca sai, dos créditos para os
pequenos agricultores sempre em segundo plano em relação aos
financiamentos para os agronegócios, nos Afifs, da reforma da
previdência. Nesses últimos dez anos aprendemos que a governabilidade
custa sonhos, que o carpete amortece, que é melhor negociar para perder.
Sobre as toucas e os rostos, será que os trabalhadores de
Belo Monte, que foram presos pelo exército inclusive, não ensinam que
mesmo na "democracia" podem ocorrer perseguições, prisões e sei lá mais?
Ou será que vamos fingir que trabalhadores não foram presos por lá,
porque é muito distante e que Belo Monte é uma questão estratégica para o
desenvolvimento do brasil potência.
São jovens. Podem ser de
classe média. Ora, pelotas, quem foi para a rua contra a ditadura não
tem o direito de dizer quem pode ou não se manifestar quando se
reivindica direitos.
São estas pequenas contradições de
discurso e prática que vão minando os espaços institucionais, incluindo
os partidos políticos. Podemos até ficar perplexos, só não podemos
deixar de olhar para o próprio rabo.
E, por fim, sincera e
honestamente, não é de Paris que se manda recados. Se está por lá é
porque o que se está fazendo por lá foi considerado prioritário - sem
juízo de valor algum nesta constatação. Os arruaceiros já tinham dito
que a terça feira ia parar SP. Pelo jeito, a quinta também. Eu voltaria
no próximo avião, se fosse para tratar desta questão como prioridade.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Películas Protetoras, Amém.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Os maias só queriam eram vestidos floridos
Acordou totalmente empapado, suor. É verdade que lá fora fazia um calor de matar guarda, mas era verão, ou quase, e o calor da cidade já era mais comum do que nota de dois reais naquela época do ano. E que a janela estava tão escancarada que a luz do sol, lá pela hora do relógio, deu bom dia, boa tarde e quase antecipou o boa noite. Mas aquele suor todo era novidade.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Paula Amaral
sexta-feira, 1 de junho de 2012
As cinzas de uma cidade
São Paulo, a cidade, o estado: O que estamos fazendo com a gente? Cinzamente.
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São Paulo está uma cidade feia. Que enfeia a cada dia. Que fica cinza asfalto, cinza vida, cinza hipócrita.
Fecharam o Bar do Binho... http://marcelinofreire.wordpress.com/2012/06/01/binho-moinho-pinheirinho-2/
Quem não conhece o "Sarau do Binho" desconhece talvez uma das mais interessantes manifestações culturais que acontecem na parte bela de São Paulo: Os saraus. É o Cooperifa, organizado poeta Sergio Vaz (http://www.colecionadordepedras1.blogspot.com.br/), é o Sarau do Fundão, é o Sarau do Binho, e são outros entre outros.
Nesses lugares afastados da Berrini, da Vila Olímpia, dos Pinheiros, da Paulista, da descolada Vila Madá, pessoas se encontram para declamar, contar, cantar, vivenciar.
Pois bem, o Binho não conseguiu “regularizar” sua situação com a Prefeitura, a despeito de uma luta inglória contra a burocracia. A Sub Prefeitura do Campo Limpo foi lá e prum: mandou fechar.
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidades/2012/05/kassab-fecha-bar-do-sarau-do-binho
Tudo pela lei! Ora, a lei...
Ora, pelotas! Recentemente um empreendimento imobiliário recebeu “carta branca” do prefeito, mesmo descumprindo as contrapartidas que legislação municipal exige dos chamados “polos geradores de tráfego” (não confundir com tráfico, de influência). Separei algumas matérias do Estadão que contam a novela do “shopping JK” para formular um singelo convite aos que tiverem paciência de ler este desabafo figadal:
1) Em razão da fiscalização da prefeitura e do Ministério Público, o shopping JK não tem licença de funcionamento. A matéria tece loas ao empreendimento e menciona os “prejuízos” e a “decepção dos investidores estrangeiros”
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-so-na--minha--esquina-que-tem-transito-,863165,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,multa-diaria-de-r-500-mil-sera-anulada-,874933,0.htm
2) O Prefeito recua, muda de ideia e dá “sinal verde” para a abertura do shopping...
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,prefeito-autoriza-abertura-do-shopping-jk-iguatemi,875098,0.htm
3) O shopping ainda não foi aberto, porque o MP não entrou na lorota e porque não há base legal para tanto, apesar dos esforços do prefeito para encontrar “brechas jurídicas” para a tão sonhada inauguração de mais um templo na cidade:
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,prazo-para-abertura-do-shopping-jk-continua-indefinido,881082,0.htm
Eis aqui o meu convite: Debater como Binho e o dono do shopping são tratados pelo poder público. Discutir como um e outro têm acesso ao poder público. Analisar como um e outro episódio são tratados pelos jornais, pela imprensa. Um clamor ao debate de qual é o papel de anunciantes na política editorial dos órgãos de imprensa. Um convite para enfrentarmos a questão do financiamento das campanhas eleitorais.
Enfim, concluo: O fechamento do Binho é mais uma demonstração cabal da lógica podre, nojenta, excludente e feroz que é a marca desta administração municipal, a de Serra e a de Kassab, pois uma só existe em decorrência da outra. Talvez Binho não tivesse a proteção da “Santa Imaculada da Especulação Imobiliária”, uma santa “empreendedora” que é a santa de devoção do atual alcaide e de tantos outros por aí.
Ou Talvez o colorido do shopping seja tão tamanho que ofusque e as coisas ofuscadas tendem a ter o mesmíssimo tom: cinza.
12. junho, 01.
sábado, 19 de março de 2011
Amarrações para o Amor: Pagamento mediante resultado
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Um verdadeiro fuzuê, coletivo de fuzarca. Helicópteros da polícia e das redes de televisão e rádio sobrevoavam o pequeno sobrado na rua apinhada de gente: curiosos, policiais, jornalistas, urubus e toda sorte de traficantes, ladrões e criminosos variados, estes últimos à paisana. Dentro da casinha e de seus dois andares, o mundo de Gabriel, que muitos chamavam de anjo - outros o alcunharam de capeta.
Gabriel nasceu Frederico, mas virou Gabriel quando começou o roubar coisas maiores e mais valiosas que confeitos de supermercado ou frutas de Dona Iolanda, a dona da quitanda e amiga de infância de Nora, a mãe de Frederico. Gabriel, para ser anjo. Frederico era nome de batismo e virara Fred, Fredinho, Derico, Frê antes de vestir a carapuça de santo: "Para ser ladrão não posso aceitar diminutivos", disse para o pai quando foi preso pela primeira vez, com dezesseis anos, oito meses e vinte e três dias.
De criança, guardava boas memórias. A bicicleta, a bola, os amigos inseperáveis João e Darismar, de ir ao jogos do São Paulo, de caminhar nas pracinhas do bairro, do escorregador, do sorvete de massa que a Tia Gula fazia. Da escola, da professora de ciências, das pernas da professora de ciências, de olhar o vestiário das meninas, de cantar Roberto Carlos, José Augusto, Benito de Paula e "Feelings" do Morris Albert. E muitos lembravam com carinho do rapazola forte, educado, bom de papo, riso fácil, o afeto dos irmãos, companheiro do pai nas rodas de dominó e que carregava as sacolas de feira de Dona Nora. Do catecismo, da devoção ao pai nosso e ao espírito santo. Das amoras e jaboticabas furtadas em jogos infantis do jardim da escola. "Rapaz de bem", concordavam o Padre Valter e o Demerval Oliva, o eterno diretor da escola estadual do bairro.
E Frederico era assim. Mas Gabriel, não. Gabriel era da pá virada. Começou flertando com um chocolate aqui, outro ali, pequenos furtos inconsequentes das gôndolas do mercado chique da avenida. E eram chocolates para dar de presente para Gaia, a filha de Dona Iolanda, tão acostumada a ver o menino sair sem pagar pelas maçãs, cebolas - sim, ele comia cebolas cruas - e outras frutas da quitandinha da família. Mas Gaia era tão linda que o mundo parava para ela voar. Desde o primeiro dia que ele colocou os olhos na menina, uma quarta feira chuvosa, uma carambola.
Depois dos chocolates, flores. O danado passou a furtar - ressaltando sempre que ainda não tinha escopeta ou a "Rita", tão famosas - flores para galantear a pequena, a pequena musa da sua vida. Mas a paixão por Gaia era uma maluqice na vida dele porque ela não queria nada com Frederico. Nadinha de nada. Muito embora, secretamente, ela gostasse de Gabriel. Muito, enlouquecidamente, perdidamente.
Gabriel ganhou o mundo. Não mais por causa de Gaia. Por causa, sim, dos casacos de grife, dos tênis descolados, da TV gigante, do rádio maravilhoso, da lanterna de dois tempos com luzes coloridas que se acendiam pelo calor do tato, dos vinhos frisantes, dos charutos, da casona para a mãe, do carrão para o pai, do papai noel da vila, das férias no Rio, das férias em Buenos Aires, das férias em Miami, das férias em... Gabriel virou o cão, o demônio, o maior ladrão do mundo. Naquele mundo era o Anjo Gabriel e todos esperavam sua benção. Ou seu ódio. Nestes casos era difícil se manter inteiro ou vivo. Gabriel não prestava.
Naquele dia tocou o telefone do Anjo. "Frederico?" "Não conheço ninguém com este nome." "Frederico, fique quieto e me escute. É Dona Iolanda. A menina vai casar e a gente não quer confusão, ok? Pelos bons tempos, por Nora, sua mãe.". Ele enlouqueceu após o telefone desligar. Pegou o revólver, a "Rita" e saiu dizendo para todo mundo que quisesse ouvir, amedontrando os demais, que tinha "algo a resolver". E saiu, apressado, aparentando fúria e desencanto.
E foi assim. Transtornado, entrou na salinha cheia de gente do sobradinho da antiga rua de infância. Era lá que Maria Santa lia cartas e fazia mapas astrais, desde o tempo em que ele andava descalço a caçar ratos pelados. Entrou e foi gritando, numa verdadeira bagunça de mesas viradas, cadeiras jogadas aos cantos: "Saiam todos!!!! Hoje sou eu que tenho que ser atendido!" E disparou para o alto, todos correndo numa algazarra genuína. Alguém chamou a polícia: "Sim. É ele. E está sozinho. E louco."
"Maria Santa, lê esse trem aí e me diz o que devo fazer! Por tudo que é mais sagrado, me diz aí o que devo fazer!!!" A santinha puxou a primeira carta, sem medo: "Frederico, senta e te acalma." A história acabou ali mesmo, como tinha que ser. E Gaia se casou, sem confusão - sem amor, mas sem culpa - dois dias depois do previsto, pois a família resolveu esperar pelas formalidades de estilo.
11. março, 19.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Da cidade que virou mundo
Uma das experiências mais legais deste lugar foi a "blogagem" coletiva feita em maio deste ano... http://quodores.blogspot.com/2008/05/coisas-do-brasil-blogagem-coletiva.html
Conheci gente nova e, mais do que em qualquer outro texto, segundo os indicadores pouco confiáveis que disponho, os aviamentos e miudezas deste armarinho foram garimpados, consultados, pesquisados, tocados. E convenhamos, temos nossas pequenas boticas para isso. Para que nossos textos tenham contado com o mundo.
A minha amiga de blogosfera Andréa Motta, dos deliciosos "Leio o mundo assim" e "Conversa de Português", é quem organiza este encontro. Diversos espaços na rede e a idéia é escrever sobre nossas cidades, de nascimento ou adoção. Ler, e reler, os textos produzidos é muito bom. O resultado é diverso e o alimento nutritivo.
Visitem os textos. E aqui está o link para o blog da Andréa: http://leioomundoassim.blogspot.com/
Vale dizer que este texto aqui dialoga com o outro. Pode até ser que o resultado final seja Chover no Molhado. Mas a cidade tem a alcunha de terra da garoa. Talvez a chuva explique...
Bom passeio.
E Andréa... muito obrigado. E ano próximo tens companhia para ver o jogo do Vasco com a Lusa!
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As garoas da cidade e seu guarda chuva
Uma cidade tem esquinas, estatísticas, histórias, amores, desamores, desavenças, descasos, quitutes, trens, saudade e melancolia. Impossível pensar na cidade sem contar os contrastes, os desníveis, os dissabores. Todos os dias em todos os jornais há coisas para contar, sobre o trânsito quilométrico, sobre a tétrica violência na senzala e sobre os casos de bonança da casa grande. Indecifrável aos olhos de muitos que a olham de longe e absurdamente presente na vida de cada um que vive, mora, habita, sobrevive. A capital do progresso. E do regresso. Do retrocesso e da vanguarda. Mas que ainda não sabe para onde ir.
A cidade acorda cedo. Ou dorme tarde. Não há aquele horário da sesta, do descanso, do andar descalço. É sempre sapato. Normalmente apertado. Há cinzas no ar que se respira. Cinzas de tudo, de pó de fábrica ao pó de grafite. Há novelos, mas há desvelo, se soubermos procurar. Tem mais carros que gente. Tem mais gente que precisa de afeto e hospital do que de carro. Tem macarrão para macarronada, para sopa, para yakissoba, para doce, para fazer arte experimental. Tem templo budista e monge que dança ao som dos atabaques, conversando com algum orixá. Tem zabelê, tem besouro, tem barata e tem princesa.
O parque, mas mais asfalto. A fábrica, o desemprego e a oportunidade. A escola, a faculdade, o seminário, poucas bibliotecas e muitas igrejas. Pedreiros, tijolos, argamassa, concreto, andaime, guindaste, tapume. E palafita, barraco, papelão, latão. Tem ar condicionado, carpete, bolsa de valores. Tem calor de mosca, chão de chão e mercado de trocas, escambo. Tem neurocirurgia, átomos, telescópios e microprocessadores. Fila interminável no hospital e não tem curativo. Moderadores de apetite nas mais belas lojas do mundo descolado. Colesterol, derrame, enfarte, enfisema. E esperança, de cura, de sanidade, de saúde.
Uma cidade tem esquinas, estatísticas, histórias, amores, desamores, desavenças, descasos, quitutes, trens, saudade e melancolia. Mas única, brega, apaixonada, enlouquecida, desvairada, careta, conservadora, repleta de gente incógnita e quase bela. A cidade, do jeito dela, quase tudo. Só não digam que é insípida, inodora e sem sabor. Nem a garoa da terra é.
08. dezembro.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Vinte e quatro de junho
“Olha pro céu meu amor...”
Desconhecia outra forma de aproximação. Era só o correio elegante das festas de São João. Uma timidez atroz o acompanhava. Era imensa, tal qual um elefante num jardim. Mas o correio de São João o tornava valente, bonitão, boa praça, cavalheiro, poeta, bom de dança, papo firme. E não era preciso quentão nem vinho quente.
Foi no correio que conheceu Rosa. E com Rosa dançou quadrilha, pegou na mão, beijou bochecha, encontrou lábios, namorou, se deitou, e namorou, fez amor, sacanagem, massagem e tudo então. Mas perdeu Rosa, numa discussão sobre botão e cerzir. E São João também lhe trouxe a doce Margarida, completa, mulher vivida, mais velha e sabida. E com esta paixão aprendeu o que era traição. E este amor durou só dois São João.
Os amores eram assim. Era, na quermesse da matriz, o favorito para o papel do noivo. As cartas do correio elegante eram famosas e ruborizavam as destinatárias e deixavam zangadas as esquecidas. Alguns murmuravam que fizera um pacto com o santo e sentiam inveja daquelas.
Nos papelotes de amor do elegante correio da festa conquistou Maria, Vitória, Laura, Lígia e Libertina, esta última sua maior paixão. Sempre imaginou que Libertina um dia voltaria, com ingressos para Campina Grande, passagem para Caruaru ou só para um chamego no calor da fogueira de uma noite de junho. Mas ela nunca voltou e ele reescrevia as cartas para outra senhorita, senhora, moça ou perdida. Era desse jeito que conhecia o amor.
A fogueira era quente. A festa das boas. A quadrilha animada. As barracas, cheias de prenda. Olhou para os lados, olhou para os cantos e nada das moças de pernas grossas e vestidos vermelhos, as elegantes donas do correio, as carteiras do flerte, as companheiras das palavras de amor. Sentiu desamparo e algum desatino. Perguntou para o padre, para as devotas e para o senhor de terno preto. Quase um desespero, sem respostas e só anedotas.
“Oi... posso lhe falar?”. Era uma das moças de pernas grossas, demorou a lhe reconhecer, sem o usual vestido vermelho. “Hoje não tem correio. Vamos dançar que é noite de São João.”. E sem perceber estava mais alegre que o santo, mais vivo que as labaredas, de cafuné apertado e aliança na mão, cantando: "São João disse que não... isso é lá com Santo Antônio....".
2008. junho.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Coisas do Brasil - Blogagem Coletiva
Quem me convidou foi o Rubens.
"Escrever sobre o Brasil". A proposta é da Andréa Mota, do blog "Eu leio o mundo assim".
Topei. Sem saber direito o que era.
Mas uma produção coletiva sempre me atrai.
A tarefa é escrever sobre a cidade em que nascemos. Nasci em SP. Na gema. Da gema.
Resolvi manter o padrão dos textos do "Quodores". Uma crônica. Não necessariamente na primeira pessoa. Ficção, sem ser necessariamente irreal. Real, com o compromisso com os mais tolos devaneios.
Visitem o blog da Andréa e conheçam os outros "blogueiros" e os outros textos.
http://leioomundoassim.blogspot.com/
O texto saiu assim.
Gostei. Da "blogagem" e da experiência.____________________________________
Um chope e dois pastéis, por favor
Acordou cedo. Bem cedo. A cidade que nunca dorme, dormia. Cinzenta, ainda. A poluição, talvez. São milhões de carros enfumaçando tudo. Mas era a névoa típica de uma cidade que já foi da garoa. Nenhuma outra cidade tem aquelas cores. Uma estranha, rocambolesca e química mistura de cores. O sol começa a aparecer. Os primeiros raios. Vermelhos. De vida. E paixão.
Desceu apressado, pela escada. Os elevadores estavam em manutenção. Há prédios para todos os tipos de estudantes de arquitetura na desvairada cidade de Mário de Andrade. Prédios e mais prédios. Arranhas céus típicos da Malásia. Pequenos prédios de três andares de um tempo em que se dizia bom dia.
Na pressa, quase cai escada abaixo. Quase. Ainda bem que não caiu. Com o plano de saúde, estava em débito. Os melhores centros de medicina da América Latina e hospitais de primeiro mundo se encontram nos índices com um sistema deteriorado de saúde pública, péssima gestão, endemia de qualquer administração.
Disse “bom dia” ao zelador. Na retribuição do gesto, o primeiro sorriso numa cidade que quase não sorri. Sisuda, a vizinha do 23 passeava com o cachorro. Era linda. Mas descuidada, a vizinha. E cuidava da rua, levando uma pá para recolher o cocô do cachorro. Ainda bem. Há bairros de classe média na maior cidade do país que as calçadas estão minadas com ex pertences dos animais domésticos. Há poucos espaços realmente públicos na cidade.
Na padaria, a combinação típica das manhãs na cidade que acolheu Tom Zé: O pão francês na chapa, com manteiga, e a média, o codinome clássico do café com leite. Todos apressados devorando os lanches e os cafés, quentes, fortes. “Um carioca”, foi o que pediu o senhor de bigodes junto ao balcão. Em terras paulistas, o “carioca” é o café mais fraco. Mais uma contradição da velha senhora.
Ouvia no carro Geraldo Filme e Adoniran. As canções falavam da cidade, das antigas senzalas e das novas segregações. Inevitável repensar tudo, num trânsito caótico e maluco, sem preferenciais. Há uma rádio na antiga província Piratininga que simplesmente “toca” notícias do trânsito o dia todo. Vinte e quatro horas, de carros e buzinas.
Fez os planos para a noite. Cinemas, cineclubes, boates, puteiros, teatros, botecos. Tudo há na capital do progresso. E para todos os tipos de dinheiro. Decidiu pela Praça Roosevelt, com teatros, um “teatro bar” do Grupo Parlapatões e um antigo cineclube. Quase no centro da cidade, lá tem um boteco ótimo, onde Elis Regina teria feito sua primeira aparição na terra de Osvald: “Papo, pinga e petisco”. Decidiu que antes andaria a pé pelo centro velho, do Theatro Mvnicipal imponente de Ramos de Azevedo ao moderno Copam, de Oscar. Evidentemente passaria pela Galeria do Rock e compraria algum disco, sim LP, bolacha, vinil, em alguma das lojas. E tinha até o que comprar: Rita Lee, dos primórdios.
E já tinha planos para a madrugada, um churros tradicional e espanhol numa espécie de garagem na Mooca, na Rua Ana Néri, que abre no horário e para os boêmios: A partir das três da manhã. E que fecha as dez da matina. Seria tranqüilo, pois o Juventus jogaria no mais simpático e acolhedor estádio da cidade, na Rua Javari, lá pelas onze horas. Da outra manhã. Não dormiria? Nem a cidade.
Nas divagações e devaneios, nos milhares de paradoxos e esquinas, relembrou que os amigos viriam do interior para a Parada Gay, um dos maiores orgulhos da cidade. E olhou para os missionários de alguma organização mariana que faziam abaixo assinado desfavorável ao aborto. Os choques de uma cidade conservadora e plural, autoritária e libertária, cretina e emancipadora. Enfim, a metrópole.
Pensou no almoço, deliciosamente, na Cantina do Magrão, lá no Ipiranga. E já tinha telefonado para a namorada, para jantar um sushi na Liberdade. Iriam passear de metrô. Do Museu da Língua Portuguesa, da roda de chorinho aos sábados na Loja Contemporânea na General Osório e terminando sorvendo o elixir: chope, no Bar do Léo. Rua Aurora.
A cidade de corintianos, palmeirenses, são paulinos e até dos flamenguistas, cruzeirenses, colorados, tricolores da Bahia, Confiança do Sergipe. Da Lusa. Do Boca, do Napoli e do Atlético, de Madri. A cosmopolita mais provinciana das cidadelas, da Avenida Paulista, das Marginais, da Berrini, do Largo da Penha e das casas dos militares, em Santana.
Lembrou que estava atrasado para o trabalho. Pontualidade. Parou por instantes os planos de lazer... “Bom dia”. Ninguém retribuiu, ainda assim sorriu. O relógio dizia que ainda não eram nove da manhã.
2008. Maio, 16.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Vermutes e aguardentes
João e Maria
E a cidade crescia por todos os lados. A praça e o viaduto. O colégio, um outro prédio. Mutatis mutanti. A cidade continuava seu caminho. Mas era uma boa companheira de desilusões. Imaginem o quanto que essa alma sofreu quando lhe impuseram o Viaduto Costa e Silva? Aquela coisa bizarra, feia e estúpida que liga a região central ao local de trabalho do prefeito da ocasião... e em nome do progresso! O progresso era uma espécie de doença, urbanismo mal resolvido. A cidade sofreu, mas calada ficou.
A vantagem, ou enorme desvantagem, da grande cidade é essa resignação que ela transmite. Sem um rugido de dor, sem uma feroz virada de mesa, ela acolhe o viaduto e o transforma em moradia, em recanto para muitos. E as pessoas podem andar por aí, vagando sem se cumprimentar, sem se notar. A cidade grande oferece abrigo e você pode transitar com suas desilusões, sem incomodar quase ninguém e esperando ser incomodado só vez em quando...
Waldir bebera tanto que ia caindo pelas ruas. Esbarrava em orelhões e chutava latas. Marina, com ar de superioridade e completamente embriagada ralhava, tudo sem o menor sentido. A padaria acabara de abrir. Média requintada às quatro da manhã? Será que é de ontem? Uma singela coxinha de frango adormecia nas estufas e um cheirinho de fritura. Pãozinho na chapa. Moacir, o único com resquícios de sobriedade pediu um gole de fernet, não queria chegar em casa de cara limpa. Rosinha riu e Carlão só fazia rir, e ria.
Os ônibus já circulavam com alguma freqüência. Hora de ir para casa. Salazar, com um casaco fino de náilon, saiu correndo pela rua. No que Rui e Diana logo o seguiram. Cachorro quente e suco grátis, de uva ou morango, aceitam-se passes. Uma névoa fina cobre a cidade. Uma cantoria tomava fôlego e o Brás e o Tulinho se abraçaram e começaram a chorar.
Plantar verduras pode ser um grande negócio. O cinturão verde é próximo da capital e pode-se vender um pouco mais no verão. Um passarinho pia. Um carro buzina, quase atropelou Marquinho. Lucinha escorregou e todos riram. Algumas conversas desconexas.
A cidade, um imenso guarda chuva com cabo ornado com ouro.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Fecharam o Parreirinha... e faz tempo
Da garoa...
Quem diria? Quem? Em plena cidade de São Paulo, a olhos nus se poderia observar aquele fenômeno, o eclipse lunar e um showzinho extra do planeta vermelho, ou Marte para os íntimos.
Fátima sempre enaltece São Paulo. Lugar como aquele nunca existirá. Cinemas, restaurantes, coisas para fazer. Um emaranhado de gente de todo o país, o inusitado do cordel em feirinha hippie. O teatro de rua em bairros distantes, União e Olho Vivo. Os repórteres de trânsito. Que delícia é distinguir cada ponto do trajeto Machado de Assis - Cardoso de Almeida, em ônibus elétrico, claro.
O MASP, o Mercado Municipal, as torres. Comprar discos nas galerias ou na imensidão de sebos que se espalham pela cidade. O sotaque. A pizza e o pastel de feira.
Um parêntese: Registremos a violência e a burrice solapante da classe média. Que bom seria deslindar tal burrice e deixar a cidade menos triste!
Uma garoa fina cai. A cidade não desperta. Aos domingos uma espécie de catarse domina a cidade. Nos parques e suas bicicletas, nos botecos e seus pagodes, no macarrão com ou sem frango e no futebol do meio da tarde tudo indica uma clara intenção de se adiar o inevitável. Pouquíssimos lugares do planeta sentem tanto a chegada de uma segunda feira. Talvez seja o trabalho.
Talvez... Pode ser que este seja somente um pedaço da questão. A cidade ganha a partir das sextas uma outra cor, uma outra dimensão. Incluindo os mais viciados no trabalho, o olhar cria uma certa independência positiva, novas percepções são colhidas. Note que mesmo a enfadonha Marginal desperta em detalhes, minúsculos detalhes.
Quem nunca viu o dia amanhecer? Silvio Romero, Largo da Matriz. Das praças ao Bixiga, do Camisa ao Som de Cristal. E o Parreirinha, o Bar do Léo, o Itamarati? Pensemos logo em um choppinho gelado.
Boemia? Quem diria que o vermelho de Marte é vermelho de fato? Só a Fátima, ela nunca duvidou.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Negativos em tempos digitais
Eu não desistia
É público e notório. Quando se mora em uma cidade como São Paulo a tendência é não reparar. O vizinho é um mero distante, um rosto muitas vezes sem nome. O caótico sistema de transporte, o caótico trânsito. Carros. Carros. Metalização das relações humanas.
Todo santo dia é um acordar enfumaçado pela poluição densa, o "fog" paulista. Pela manhã cores enigmáticas no céu. O ar tóxico gera cores surpreendentes, um mosaico de vermelhos, azuis, cinzas, brancos, arroxeados. O céu paulistano quase nunca repete de cor. Digo isto por que existe uma mania triste de dizer acerca do cinza, uma mania. Percepções na metrópole são raridades. Ninguém diferencia paisagens, seres e coisas.
Uma cidade como esta tem seus meandros pouco explorados ou conhecidos. Flávia tinha os seus 50 anos e era fotógrafa por opção e dona de bar por profissão. Naquele dia houve um flagrante roxo no céu. Acordara cedo depois da bagunça da madrugada, fora à Praça Pôr do Sol com sua máquina. Fotos e fotos construíram uma outra cidade e a poluição, paradoxalmente, atração turística.
Quantas partículas de enxofre, monóxido de carbono são responsáveis por essas cores maravilhosas??? Tossiu, quase não ligou. O arroxeado se transformou em grande relíquia. Pouquíssimos diziam que era o raiar de um novo dia na capital financeira. “Uma cidade do interior, que lindo!!!” ou “ É o céu de Brasília?!” e ainda “ Usaste papel vermelho para tapar a lente nesta foto, qual ASA usaste?”
Flávia acordara cedo e caminhara até a janela de sua casa. Um cinza irritante e feio. Tirou fotos e fotos. A paisagem urbana desfez o encanto, entristeceu, emudeceu. Todo santo dia é um acordar enfumaçado. Sentiu um cheiro de enxofre e teve vontade de voltar a dormir. Sorriu. E da relíquia ao cinzento fez-se o contraste, desnudou-se a cidade. Procurou outras radiações, outras luzes, oposições. Começou a chover e lá de longe uma outra cor escura tomava corpo, pedindo para ser fotografada, observada, percebida. Diferenciada. Um suplício de uma cidade, uma busca inútil.