domingo, 9 de março de 2008

Confissões da Paternidade, mais uma: VI

Os anarquistas australianos


Por alguma razão inexplicável ninguém ousou escrever um almanaque destinado a pais frescos. Seria uma maneira de garantir uma boa quantia em dinheiro, tendo em vista que os senhores e senhoras que se habilitam nesta estranha jornada são ansiosos o suficiente para adquirir qualquer espécie de literatura especializada.


Conselhos diversos e milhares de revistas especializadas, entretanto, substituem o almanaque. Revistas de todos os tipos e de todas as doutrinas. Já li em algum lugar que as mulheres que amamentam não podem comer brócolis, em virtude do tal vegetal afetar o leite materno e aumentar os gases dos bebês. Em outro lugar brócolis é tratado como algo absolutamente natural em dietas maternas.


Absorto, este tipo de literatura apresenta gráficos de crescimento, de tamanhos de dentes, de formas de controlar as cólicas, tábua das marés (para facilitar a prática do surf), horários para o banho e uma série de demonstrativos de como educar seus filhos. É difícil imaginar como uma criança pode ter problemas escolares ou problemas de saúde, ou quaisquer outros tipos de problemas. A literatura explica tudo e os pais que seguirem a teoria tim tim por tim tim não poderão errar!


Não demora um naco e descobrimos que toda esta teoria é uma balela. Desde a maternidade podemos perceber que inexistem regras. E que, se por um acaso, tentarmos nos prender a tais regras vamos nos estrepar. Eles são todos diferentes, todos. Esses pequenos seres são anarquistas incorrigíveis.


Eles choram ao nascer, nos dizem. E se eles não choram estão com algum problema... Sim, mas se justo no nosso caso esta regra não valer? Se ele ou ela não chorar e estiver tudo bem? Inusual, porém ocorre.


Preocupa-me esta mania de regrar tudo, de criar parâmetros para tudo. Qualquer incidente no decorrer do percurso tem um devastador potencial para nos causar pânico. A lenda de que as crianças vêm da Austrália e são trazidas por cegonhas não é integralmente despropositada. Como metáfora funciona. O horário desses seres é o horário de quem acaba de chegar de um longínquo lugarejo do interior da Austrália, com uma diferença de fuso de 12 horas.


A ciência revela as dificuldades de adaptação de quem viaja para a Oceania. Os recém chegados podem tanto dormir de dia e berrarem a noite, como berrarem de dia e dormir a noite. Ou, ainda, o desesperador, berrar o dia todo. E mais, podem dormir o dia todo, o que também é desesperador. Portanto, a adaptação ao novo fuso pode ser bastante demorada.


Na Austrália, frio. Aqui, calor. Dizem que os bebês tem frio. Dizem que temos que sempre agasalhar os bebês, porquê eles tem muito frio. Bom, o nosso anarquista suava feito um louco no primeiro dia que ficou em casa, agasalhado com macacão, manta e meias. Suava e chorava, provavelmente com calor. Alguém dirá que nós exageramos. E este alguém, não exagera?


E as cegonhas então? Cada vôo é um vôo. Nem sempre é o mesmo trajeto. Nem sempre a mesma cegonha. Um filho é diferente do outro. O que nos explica partos normais e partos com cesarianas? E o que explica que o cordão umbilical pode estar numa ou outra posição? Não há vôo padrão. Essas cegonhas...


Ninguém pode nos preparar para estes eventos, a não ser a experiência. Para isso deveriam nos preparar, os almanaques. A pressão para que as coisas dêem certas é absolutamente impressionante. As mulheres devem se sentir num vestibular dificílimo na amamentação, uma pressão inenarrável. O almanaque deveria informar que a amamentação é o melhor dos banquetes. Mas deveria informar que não é um vestibular, que existem alternativas se algum problema ocorrer, que problemas ocorrem e que não há culpas. A culpa é de quem culpa.


Temos que nos rebelar. A experiência é nossa e temos muito o que descobrir a cada dia. Uma rebeldia que nos mostrará que existem vários caminhos. Um ato que acalmará a todos. Será salutar. A única receita que podemos aceitar nesse almanaque é a de curtir esta anarquia e recortar os cupons que podem nos dar uma passagem para a Nova Zelândia. É o lugar mais próximo que podemos chegar...

sexta-feira, 7 de março de 2008

Do Cursinho...

Mexendo nas coisas antigas, mui antigas, achei esta quinquilharia.

Do século passado. Um dos textos mais ingênuos que fiz. Chega até a ter gosto de picolé.

Talvez um dos mais bonitos... de alguém, e de um tempo, que precisa urgentemente ser resgatado.

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viagem pela terra dos homens


I -

sonhar com o impossível
a mais linda utopia
a incrível fantasia.


mas se conseguimos sonhar,
aonde está o impossível ?
por onde andas, utopia ?


se ainda sonhamos, não pode ser fantasia.



II -


sonhar com o possível
a mais real das realidades
a sensata razão.


mas se conseguimos sonhar,
por que o possível ?
para que serve, então, a sensatez ?


se ainda sonhamos, não pode ser realidade.



III -



sonhar com imaginação
a mais real das fantasias
a utópica realidade sensata.


mas se conseguimos sonhar,
por que não imaginar ?
até onde podemos chegar ?


se ainda sonhamos, fantástica realidade de imaginar.



IV -


quero ser o imaginário sonhador
pousar no infinito
conhecer a física abstrata
onde tudo é realmente relativo


se ainda sonho, real é a fantasia da imaginação.


quero ser o mais louco dos racionais
alcançar a lógica pura
estudar a física dos homens
onde tudo é relativo


se isto é sonho, imagino a realidade.


quero ser o mais sábio dos irracionais
correr junto ao inacreditável
ensinar o simples e inexplicável
crer no irreal completamente abstrato


se é sonho, imaginarei a fantasia.


V -


perguntam os homens sobre os seus própios destinos
há homens que respondem com seus sonhos
outros hão de responder com suas razões.


sonhadores e racionais
imaginam o futuro
um futuro sem resposta, suposto.


perguntam os homens suas dúvidas e incertezas
existem os que sonham respostas
enquanto alguns raciocinam


sonhadores e racionais
pensando e sonhando
porém, inevitável
a mesquinhez, a prepotência e a arrogância dos reacionários


perguntam os homens sobre os reacionários
os que sonham não tem resposta aparente
e o mesmo acontece aos racionais


sonhadores e racionais
sabem entretanto
apartheid, fome, miséria, bombas nucleares... são reacionários.



VI -


acordar do sonho e da razão dos homens
eu que desejei ser sábio e louco
quis ser pensador e sonhador
conheci as mais diversas perguntas
viajei pelo futuro, aterriso no presente


acordar do sonho e da razão dos homens
quero no limiar da realidade e da fantasia
respostas, para sonhadores e racionais
e aumentar a distância que separa o futuro
da insanidade medíocre e reacionária.


acordar do sonho e da razão dos homens
e o futuro fantasiar, raciocinar
viver.




1989.outubro.14.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Outra das outras

Originalmente:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-03-01_2007-03-31.html#2007_03-23_13_43_50-2402205-25


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Bolonistas que esperam pelos mil goles



Não sei se na vida real jogaram juntos. Mas eram amigos, desde sempre. Mané, Vavá e Didi. Pequenos, ainda descalços, se conheceram na escola. Manoel, Valdomiro e Dionísio, de nascença. Mané, Vavá e Didi no coração. Os apelidos lembravam ataque de seleção. Eles gostavam desta curiosa situação.



Mané sempre foi o mais extrovertido, o mais apaixonado, o mais namorador e o mais enrolado. Sempre capaz de extremos, namorou atrizes famosas, jogou futebol no Bangu, ganhara no bicho com a mesma freqüência espantosa que tinha que pedir empréstimos para agiotas. Adorava canções de amor, de amores rasgados, impossíveis e os consumados.


Vavá era destemido, corajoso, um pouco rude, mas aquela rudeza que os amigos perdoam. Uma sinceridade atroz, olhos profundos. Os que o desconheciam o achavam triste. Os que o amaram sabiam de sua paixão pela vida, pelo vinho, pelo calçadão, pela areia. As mulheres foram poucas, mas intensas. Dos três era o único que gostava de verdade de bossa nova.


Didi era sábio e sabia como poucos as melhores saídas para as melhores discussões. Dos três era uma espécie de líder, de cérebro. Galanteador, era fiel, porém. Não era quieto, mas não desperdiçava palavras. Genioso, adorava pão com manteiga e odiava margarina. Os assovios eram comuns e tinham samba, boleros e coisas que tocam nas rádios.


Nunca me esqueci de uma noite, no Bar do Luís, chope e porção de joelho de porco, vozes alteradas: “Essa música é do Antônio Marcos”. Era um brado de fúria ébria. “Você está louco!!! É do Rei. Rei. Roberto Carlos.” A resposta também em alto volume e em tom de discussão. Então, Didi, certeiro: “A música é do Antônio Marcos. Mas a versão que faz chorar... é do rei.”. Ponto final na discussão. Até hoje eles cantam, depois do oitavo copo, a bela “E não vou mais deixar você tão só”, e é possível e provável que os três tenham lágrimas.


Tinham vivido muito a vida. Tinham casado, um descasou, outro viuvou, tinham tido filhos e até netos, no caso de Mané. Tinham até uma paixão em comum, nunca revelada, mas evidentemente reconhecida, pela mesma mulher. Todos eram torcedores. Torcedores no bom sentido. Torciam desde os tempos do futebol de botão, da bolinha de gude e das pipas. Mané, era Fogão, desvairado. Vavá, Vasco, contido. Didi, tricolor, entusiasmado. Mas na cumplicidade que os acariciava escolheram secar o Flamengo. Coisas de torcedor. Coisas de amigos Do peito.


Naquele domingo, o mesmo bar de sempre, um bolinho de bacalhau ainda esperava. Tinha acontecido. Zico, o genial, acabara de dar mais um título ao Flamengo. Uma longa fila esperava o Botafogo, Dinamite não era suficiente para aplacar a dor e a Máquina já era uma lembrança distante. Mas a notícia que os silenciara, pela primeira vez em anos, era aquela que teriam adiado, teriam escolhido ir primeiro, nunca esperaram: Ela se foi. A notícia chegara no intervalo do jogo. Difícil crer. Difícil entender. O silêncio era perturbador. Entre os garçons havia um respeito absoluto. Os chopes com colarinho chegavam sem que fossem pedidos. Uma dor palpável, visível, dilacerante.


Entre olhares perdidos e vagos, o diálogo estranho que teriam evitado pelo resto das vidas. “É. Eu sempre soube.” “Eu também.” “Todos sabiam pelo jeito, até os garçons!”. “A gente dava tanta bandeira assim????”. “Porque nunca falamos isso antes?”. “Porra... você é casado, ele é viúvo e eu...”. “Será que minha mulher também sabe???”. “Mas era algo tão distante”. “Tão distante, tão impossível, tão improvável.”.


Jura o garçom que a última parte do colóquio foi mais ou menos assim: “Sei lá... E podia ser estranho, eu não ia querer saber se um de vocês se enamorou, comeu, trepou, a beijou.”. “Nem eu.” Um longo e pausado silêncio, uma resposta, quase uma desculpa, uma suplica: “Ela torcia pelo América, sabiam?”. Ninguém sabia.


2007. março. 23.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ciência Concreta da Adivinhação

Textos que gosto muito. Na verdade, uma brincadeira.

O Danilo tem um "blog" sobre futebol: "Pitacos do Bodaum". Eu sou um leitor voraz dessas coisas do futebol, das impressões de torcedores, das brincadeiras e do sarro.

Eu lia e comentava, sempre palpitando os jogos da rodada. O Danilo então me convidou para ter uma "coluna" no blog: Prenúncios do Amaral.

Este é o meu predileto. O São Paulo Futebol Clube rumava ao Quinto Caneco com uma facilidade estonteante... Não resisti.

Originalmente,

http://pitacosdobodaum.zip.net/arch2007-09-01_2007-09-15.html


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Prenúncios Proibidos


Alguns podem estar se perguntando: Cadê o Amaral? Explico a ausência. Estava cumprindo uma missão oficial do Pitacos, numa convenção sobre Palpites de Futebol ocorrida na aprazível cidade de Itaú. É uma convenção anual que reúne os maiores matemáticos, catedráticos, lunáticos e médiuns que tem como arte fundamental a capacidade perceptiva. Percepção dos resultados de partidas de futebol.


E os engraçadinhos que me desculpem. Tal convenção não tem nada a ver com esquemas de arbitragem, pilantragem, compadrio escuso, corriola ou qualquer coisa do gênero policial. Trata-se de convenção que reúne somente os visionários.


Todos sabem, nós somos proibidos de apostar em jogos de azar, por razões óbvias. E também não podemos divulgar os resultados com muita antecedência, também por razões evidentes. Leis supremas para manter a credibilidade de nossa dádiva.


Em resumo, foram debatidos vários assuntos fundamentais na tal Convenção. E ficou deliberado, em Nota Conjunta assinada pelos quatrocentos e vinte e dois participantes, que não se pode mais palpitar quem será o campeão brasileiro de futebol, sob pena de descrédito de todos os videntes do globo terrestre.


Peço licença aos nobres leitores de elite do blog para reproduzir o último parágrafo da Nota:

“Devido a circunstâncias objetivas, parece que concluir que o São Paulo Futebol Clube será pela quinta vez campeão brasileiro de futebol é óbvio, lógico e irrefutável. Portanto, prever o óbvio não é prever. Não é exercício de adivinhação. Não é, sequer, constatação antecipada. Àqueles que possuírem o dom premonitório, e que evidentemente já sabiam desses fatos, não podem zombar da inteligência alheia. Temos que zelar por nossos nomes e por nossa capacidade divina. E diante desses fatos inexoráveis decide a Convenção Mundial vetar qualquer manifestação pública acerca do Campeonato Brasileiro de Futebol e o próximo campeão.”


Em síntese, é proibido chover no molhado.


Pitaqueiros do Brasil, de hoje em diante só palpito fórmula um e jogo de tênis: Ganha o Alonso. E o Federer fatura mais um caneco.


Mas já consultei a Organização Mundial dos Nostradamus se poderei pitacar sobre os jogos dos outros times e sobre as outras Séries do Campeonato Nacional. Ainda não obtive resposta conclusiva. E adianto: Vasco, Galo e Inter vencem.


É isso.

2007. setembro.14.

Quem nunca viu o samba amanhecer



Coração Absurdo


Pelo pouco que o conheço deveria estar atrasado. Sim, o atraso em si não pode ser considerado um defeito de caráter ou algo semelhante. Mas era quinta feira e ele tinha que parar em algum lugar para comer o tradicional pastel. De feira, é óbvio.


Disseram-me, depois, que parou na feira do viaduto Alcântara Machado, que ironia. Pediu o pastel de carne ao japonês e uma garapa na banquinha que ficava ao lado. E, munido, passou a comer vagarosamente. Essa qualidade ele tinha: comer devagar. Em dias que o "fast food" e a velocidade são regras, comer se tornou um ato de sete minutos cravados.


Foi a demora e o vagar certamente. Possibilitaram uma atenção especial ao que o circundava. Certamente o calor cumpriu seu papel e teve um efeito sensacional. A temperatura da garapa ou a qualidade da carne deveriam ser as de sempre, portanto incapazes de qualquer alteração psíquica, apenas metabólica. E ele não tinha antecedentes...


“ - Sim, vamos fazer um programa especial de televisão. Televisão, não!!! Um espetáculo multi mídia!”
“- Saluto!!!”
“- Biscoito! Biscoito Fino!”


Um outro acharia que o papo estava girando em torno de algum especial de TV, de algum show ou coisa que o valha. Ele quis se inteirar, ter certeza.


“ - Sim, vamos convidar o Geraldo Filme, o Idibal Piveta e o Vanzolini para gravar uma espécie de piloto”
“ - Bravíssimo! E o meu Bixiga, a Casa Verde e a Vila Esperança de cenário!
“ - Uma festa antropofágica.”


Que conversa estranha e gostosa aquela. Gostaria de estar lá. Ele teve comichões, pediu outro pastel e engatou a ficar de orelha na conversa que girava sobre a cidade e alguns de seus ilustres. Seriam produtores de TV? Cineastas?? Radialistas???


E ele, anos depois contava com ares de espanto, pensava em dar sugestões: “ - E no final a gente presta uma homenagem a Semana de 22, aos parques, aos museus, aos conservatórios, aos bairros, aos times de futebol!!!! Vamos realizar programas diversos sobre a cidade, cada dia com um nome, uma personalidade diferente...”


E foi daí que ele desembestou a delirar. Olhou para o lado para ver a cara dos palestrantes e desmaiou. Acordou uns sete dias depois tendo alucinações, lá no Hospital do Servidor. Jurou ter visto Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Adoniran Barbosa, os três mais o Paulo Machado de Carvalho. Deve ter sido o calor, coitado.