Quem me convidou foi o Rubens.
"Escrever sobre o Brasil". A proposta é da Andréa Mota, do blog "Eu leio o mundo assim".
Topei. Sem saber direito o que era.
Mas uma produção coletiva sempre me atrai.
A tarefa é escrever sobre a cidade em que nascemos. Nasci em SP. Na gema. Da gema.
Resolvi manter o padrão dos textos do "Quodores". Uma crônica. Não necessariamente na primeira pessoa. Ficção, sem ser necessariamente irreal. Real, com o compromisso com os mais tolos devaneios.
Visitem o blog da Andréa e conheçam os outros "blogueiros" e os outros textos.
http://leioomundoassim.blogspot.com/
O texto saiu assim.
Gostei. Da "blogagem" e da experiência.____________________________________
Um chope e dois pastéis, por favor
Acordou cedo. Bem cedo. A cidade que nunca dorme, dormia. Cinzenta, ainda. A poluição, talvez. São milhões de carros enfumaçando tudo. Mas era a névoa típica de uma cidade que já foi da garoa. Nenhuma outra cidade tem aquelas cores. Uma estranha, rocambolesca e química mistura de cores. O sol começa a aparecer. Os primeiros raios. Vermelhos. De vida. E paixão.
Desceu apressado, pela escada. Os elevadores estavam em manutenção. Há prédios para todos os tipos de estudantes de arquitetura na desvairada cidade de Mário de Andrade. Prédios e mais prédios. Arranhas céus típicos da Malásia. Pequenos prédios de três andares de um tempo em que se dizia bom dia.
Na pressa, quase cai escada abaixo. Quase. Ainda bem que não caiu. Com o plano de saúde, estava em débito. Os melhores centros de medicina da América Latina e hospitais de primeiro mundo se encontram nos índices com um sistema deteriorado de saúde pública, péssima gestão, endemia de qualquer administração.
Disse “bom dia” ao zelador. Na retribuição do gesto, o primeiro sorriso numa cidade que quase não sorri. Sisuda, a vizinha do 23 passeava com o cachorro. Era linda. Mas descuidada, a vizinha. E cuidava da rua, levando uma pá para recolher o cocô do cachorro. Ainda bem. Há bairros de classe média na maior cidade do país que as calçadas estão minadas com ex pertences dos animais domésticos. Há poucos espaços realmente públicos na cidade.
Na padaria, a combinação típica das manhãs na cidade que acolheu Tom Zé: O pão francês na chapa, com manteiga, e a média, o codinome clássico do café com leite. Todos apressados devorando os lanches e os cafés, quentes, fortes. “Um carioca”, foi o que pediu o senhor de bigodes junto ao balcão. Em terras paulistas, o “carioca” é o café mais fraco. Mais uma contradição da velha senhora.
Ouvia no carro Geraldo Filme e Adoniran. As canções falavam da cidade, das antigas senzalas e das novas segregações. Inevitável repensar tudo, num trânsito caótico e maluco, sem preferenciais. Há uma rádio na antiga província Piratininga que simplesmente “toca” notícias do trânsito o dia todo. Vinte e quatro horas, de carros e buzinas.
Fez os planos para a noite. Cinemas, cineclubes, boates, puteiros, teatros, botecos. Tudo há na capital do progresso. E para todos os tipos de dinheiro. Decidiu pela Praça Roosevelt, com teatros, um “teatro bar” do Grupo Parlapatões e um antigo cineclube. Quase no centro da cidade, lá tem um boteco ótimo, onde Elis Regina teria feito sua primeira aparição na terra de Osvald: “Papo, pinga e petisco”. Decidiu que antes andaria a pé pelo centro velho, do Theatro Mvnicipal imponente de Ramos de Azevedo ao moderno Copam, de Oscar. Evidentemente passaria pela Galeria do Rock e compraria algum disco, sim LP, bolacha, vinil, em alguma das lojas. E tinha até o que comprar: Rita Lee, dos primórdios.
E já tinha planos para a madrugada, um churros tradicional e espanhol numa espécie de garagem na Mooca, na Rua Ana Néri, que abre no horário e para os boêmios: A partir das três da manhã. E que fecha as dez da matina. Seria tranqüilo, pois o Juventus jogaria no mais simpático e acolhedor estádio da cidade, na Rua Javari, lá pelas onze horas. Da outra manhã. Não dormiria? Nem a cidade.
Nas divagações e devaneios, nos milhares de paradoxos e esquinas, relembrou que os amigos viriam do interior para a Parada Gay, um dos maiores orgulhos da cidade. E olhou para os missionários de alguma organização mariana que faziam abaixo assinado desfavorável ao aborto. Os choques de uma cidade conservadora e plural, autoritária e libertária, cretina e emancipadora. Enfim, a metrópole.
Pensou no almoço, deliciosamente, na Cantina do Magrão, lá no Ipiranga. E já tinha telefonado para a namorada, para jantar um sushi na Liberdade. Iriam passear de metrô. Do Museu da Língua Portuguesa, da roda de chorinho aos sábados na Loja Contemporânea na General Osório e terminando sorvendo o elixir: chope, no Bar do Léo. Rua Aurora.
A cidade de corintianos, palmeirenses, são paulinos e até dos flamenguistas, cruzeirenses, colorados, tricolores da Bahia, Confiança do Sergipe. Da Lusa. Do Boca, do Napoli e do Atlético, de Madri. A cosmopolita mais provinciana das cidadelas, da Avenida Paulista, das Marginais, da Berrini, do Largo da Penha e das casas dos militares, em Santana.
Lembrou que estava atrasado para o trabalho. Pontualidade. Parou por instantes os planos de lazer... “Bom dia”. Ninguém retribuiu, ainda assim sorriu. O relógio dizia que ainda não eram nove da manhã.
2008. Maio, 16.