terça-feira, 16 de março de 2010

Destilados - Série Um

Quando o fígado escreve, melhor desopilar logo. Antes que avarie...



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Contumácia na Inação



Uma nódoa, um cálculo, um cancro.


Teima, insone, martela, dizima.


Dizia que era fase, crise de estima.


Mas parece autofagia, hemorragia, afasia.


E o que isto ensina, pergunta o mancebo?


Nada, nada, nada, nada, nada, nada.


Aos que me entendem, sempre um gole e o silêncio.


Os outros, tão felizes assim, podem ir.


Mas sem deixar a luz acesa, por favor.


10. março, 16.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Comemorações: Noventa e Seis Textos, Dois Anos de Vida


Mais uma crônica publicada n'Os Bolonistas, sobre torcedoras, torcedores e paixões.

Gosto deste texto e ele cai bem com condimentos encontrados nesta mercearia.

Descobri, vasculhando velhas prateleiras, que o Quodores fez dois anos!

E que já são quase cem textos!!!

Poxa... são muitos víveres por aqui. Espero outros cem, duzentos, trezentos.

E o que para mim é mantimento, possa ser um cadinho para vocês também.


Originalmente, publicado aqui:

http://bit.ly/b8VEMo

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Fome de Viver



Bolonistas, uma daquelas histórias que gosto...



Ela tinha um grave e melancólico defeito. Torcia, desesperada e doentiamente, um exaspero e com todas as vísceras pelo Vitória. Sim, rubro negro. Era terrível ver aquele corpo escultural, aquela gênese mulata de bunda, peito, coxas e pés desenhados por Deuses, vestida pelo capeta. Lembraria sempre daquela tarde em Itacaré, a primeira vez que a viu de biquíni, e aquele par de chinelos do Vitória. Teve um horror similar ao pânico de elevador cheio, um gosto de vatapá vencido, uma sensação de morte profunda. Namoraram, mesmo assim, umas duas semanas depois da triste descoberta.


Ela tinha perfeições outras que quase a salvavam. Mas o Vitória? Nem purgatório resolvia. Ela gostava de prato, cerveja, praia, mar e odiava axé. Foi este ódio ao ritmo que os aproximou, numa tarde de janeiro. Num bar onde os tímpanos sofriam com os batuques eles se encontram no lado de fora, para respirar. Papo vai e papo indo, acordaram na casa dela. Foi tão bom que somente se separam no domingo, depois do café. Ela disse que tinha que visitar a mãe. E era ótimo, pois o Bahia ia enfrentar o Internacional de Porto Alegre, na Fonte Nova.


Brigaram feio durante um BaVi. Feio, mesmo. Combinaram de assistir juntos ao jogo, mas em território neutro. Viajaram para Triunfo, no interior de Pernambuco. Um chalé. E compraram por pacote o tal jogo. Durante o final de semana inteiro se amaram, beijaram, brincaram. Considerou, com todo o coração, a possibilidade daquilo dar certo, daquele defeito certeiro dela se transformar só em um detalhe, uma pequena rusga, uma coceira. Em vão. Foi a pelota rolar e o Vitória deitar e rolar, ela cantar, gritar, xingar e golear. Ela o deixou antes da Mesa Redonda. Voltou sozinha. E de ônibus.


Da Guia era o cara mais simpático do mundo. Abençoado. Todos o tinham como cara calmo, sereno e boa praça. Tinha uma paixão desmesurada pelo Bahia, herdada da mãe. O nome quem colocou foi o pai, encantado com aquele time verde de 1969. Costumava dizer que o Tricolor era o que lhe fazia sorrir. Se bem que sorria muito, era de bem. Ela? Eram águas passadas.


Conheceu a outra numa saída de estádio. Chorava, copiosamente. A dor do rebaixamento ficou até um pouco mais tênue ao confortar a moça, muito bonita, embora com um corpo mais para modelo do que para o que ele gostava. Mas era Bahia fanática. De sangue. Ficaram andando pela praia após o jogo, se conheceram, trocaram telefones, ela fazia academia perto da casa dele. E marcaram encontro e saíram e tudo mais. Tinham uma combinação explosiva, quente e passavam quase todo o tempo possível juntos, quase sempre sem roupas.


Faziam planos para acompanhar o Tricolor nos jogos da Série C, na cama dela. E, repentinamente, aquela fome absurda. “Vamos ao mercado?”. “Engraçado, nunca fomos juntos...”


Na fila, ele desconsolado acompanhava as compras. Um queijo branco light, umas fatias de peito de peru, um pão integral. E iogurte. O estômago roncava. Os olhos quase marejados. Ela de camisa tricolor, linda. Na gôndola ao lado reconheceu de pronto a eletricidade, o comichão e o cheiro: Com a camisa do Vitória, um sorriso de quarteirão, linguiça defumada, parmesão italiano, pão de torresmo e umas tantas latinhas de cerveja. A mulher da vida dele, não teve dúvida.



08. Novembro, 04.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um quodore a mais


Depois de preparar uns quitutes, resolvi compartilhar a festa. Saiu este trem aí: Simples, mas com tempero....


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A geladeira estava ali, no lugar de sempre. O chamava pelo nome, com a intimidade de amigos que moram juntos, sem o desgaste das contas para pagar ou do casamento. Sim, o refrigerador era a companhia ideal para o homem solteiro, depois dos trinta e do primeiro casamento. Era lá que geladas ficavam as cervejas, aquelas companhias de noite de futebol ou dos dias estupidamente quentes. Lá também era o palco para as pizzas que sobravam, os pães, o queijo, o presunto e outros parceiros de bilhar.

Depois de muitas conversas, idas e vindas, era o eletroméstico branco da cozinha o retrato da casa e do dono. Se as crianças passavam por lá, uma festa. Iogurtes, queijos especiais, tomates frescos, carne, filé de peixe, alguma verdura, uvas, maçãs, pêras e até o melão. Se tinha visita alegre, frios, condimentos, alguma carne ou passatempo para bebes e conversas. E quando tinha vinho branco, a geladeira sabia que a noite ia ser boa, quiça barulhenta, daqueles barulhos bons de se ouvir.

Mas naqueles dias de singela decepção com o trabalho, nos dias de fastio, nos dias de luto, nem um mísero copo de requeijão era encontrado com facilidade. A geladeira parecia deserta, tal qual coração em desencanto. A geladeira poderia, muito bem, substituir o dono na ida à terapia, ao trabalho, ao médico. A amiga sabia de tudo. E era discreta.

Enfim, naquele lugar de sempre, ela o chamou, de soslaio, e disse, naquele tom ao pé do ouvido, misto de carinho e repreensão: "Rapaz, você precisa se divertir mais quando está em casa. Veja, aqui dentro tem esta copa que vai estragar se ficar mais uns dias aí.". O rapaz olhou para o aparelho com certa desconfiança, afinal quem era ela para recomendar diversão? "E olha, meu caro, tem aquelas pêras ali. Vai esperar elas ficarem pretas?". Definitivamente a dita tirara o dia, ou a noite, para azucrinar, pensou.

Quando percebeu, estava posta a mesa sorridente, pedaços de pêra envoltos com copa numa mistureba digna de cozinha contemporânea, um suco de maçã com limão batido no liquidificador com gelo, um pão com tomate, queijo branco e orégano, acabado de sair do forno, com azeite, óbvio. O refrigerador, feliz da vida, fazia uma listinha de compras, incluindo abacaxi, sorvete de creme e carne moída, enquanto colocava um "ok" defronte à palavra "estoque". O radinho de pilha encontrou uma estação qualquer que tocava música boa e a lata de atum respirou aliviada: Não ia ser desperdiçada antes do vencimento, virara patê. O pão velho virou torrada. E a noite seguiu, todos cantando "Fly me to the mooooonnnnn".

A cerveja foi colocada no congelador, para um grand finale. Sorvida, antes do batuque na escova de dentes. E a dona geladeira dormiu agarradinha com o armário, a noite todinha. Foi feliz.

10. fevereiro, 21.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A singeleza do voto

Um texto de 2010. Saindo do forno, com cheirinho de pão.


E já contaminado pelo clima eleitoral...



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Ela adorava aquela bunda. Sim, era algo para além do ortodoxo, muito além da simples admiração da beleza. Ele era o dono da bunda e isto costumava deixá-la plenamente satisfeita. De olhar, tocar, namorar. Enfim, era a bunda. E ele nem suspeitava disso. Gostava dela, mas daquele jeito “amiga para as horas difíceis”. Era carinhosa, tarada, falava pouco. Mas, cá entre nós, não tinham muito em comum.


Para ela aquilo era um exercício de fetiche. Não, não era uma sodomita ou cousa do gênero. Mas apreciar o corpo dele lhe agradava muito. E o espelho do teto, nunca o levara para a sua própria casa, era um parceiro silencioso e quente. Sempre tivera suas preferências por homens assim ou assado, mas com ele era absolutamente diferente. Ele não era agradável, necessariamente. Falava muito, para o gosto dela. Era apressado e dormia fácil. Mas ela aprendeu o jeito certo e com ele era feliz. Daquela felicidade efêmera, mas essencial.


O homem da bunda, vamos chamá-lo assim, gostava da companhia dela, mais até do que o hábito lhe recomendava. Era boa companhia para boteco, era ótima ao escolher bons restaurantes e vinhos. Não era pegajosa, escolhia motéis, não queria dormir de “conchinha”. E na cama era um desbunde: Pedia e falava coisas indizíveis noutras ocasiões. Reparou, numa tarde de futebol, que queria a companhia dela mais do que assistir ao restante do jogo monótono da televisão. Questionou, naquelas dúvidas de revista de relacionamento, se deveria ligar num dia como aquele, numa hora como aquela, numa tarde de futebol. “Dane-se”. E ligou.


“Hoje? Não é dia de futebol?”. Pensou, mas não disse. Ela estava no cinema com um amigo. Não ia rolar nada depois, o amigo não gostava daquilo. “Oi... tudo bem?”. “Sim, podemos”. “Mas estou no cinema. Vamos depois naquele boteco ali na Vila”. “O que? Na sua casa?”. Foi um choque. Ela nunca tinha tido a mínima curiosidade em conhecer a casa dele. Pensou no espelho no teto. “Pode ser. Mas mais tarde, estou querendo tomar um chope antes.”. Riu da própria sabedoria. “Ok.”.


Tarde da noite, depois do bar, naquele motel com piscina, sauna e todos esses artefatos de praxe, ele perguntou: “Porque você não quis ir para minha casa?”. Silêncio. A música no quarto era um Caetano, dizendo que ela era linda.


Ela sabia que aquela pergunta era o ponto final, o derradeiro, a saideira, o fim de tudo. Aprumou o rapaz para a última visão no espelho, o da parede, e sem piedade mandou: “Você vota no FHC.”.

10. fevereiro, 02.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os fantasmas se divertem

Para começar o ano de 2010... um texto de 2009.

Publicado n`Os Bolonistas, no final de ano. Final de campeonato.

Mas é um texto leve e que eu fico namorando com ele...

Lá vai, então.


Um 2010 repleto de especiarias, para todos nós!!!


Originalmente aqui:

http://osbolonistas.zip.net/arch2009-11-01_2009-11-30.html#2009_11-27_12_18_53-2402205-25


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Os Mistérios do Ludopédio




Bolonistas do além...


Quando se descobriu morto, mortinho da silva, incólume entre avenidas, ruas, metrô e casamentos, mesmo que trajasse nu, sentiu pela primeira vez que não viria o seu time ser campeão. Se exasperou. Afinal, faltavam só duas rodadas, cinco pontos de vantagem para o segundo colocado e tinham sido esgotados todos os ingressos para as duas últimas pelejas, numa demonstração de convicção absoluta do caneco inédito.


No início vagou por aí. Não sentia nada. O peso de nada, o vento de nada, o calor do nada. Gritava, ninguém ouvia. Definiu-se morto. Falecido aos quarenta e três anos de vida, dois casamentos e uma união estável, três filhos e uma avó viva. Mas sem título de campeão nacional de futebol, uma verdadeira frustração, dessas equivalentes a nunca ter trepado em árvore.


Como um personagem de filme americano, mas sem a Demi Moore para lhe animar, quando se apercebeu no além tentou descobrir que raios fazia zanzando por aí. Uma alma penada. E olha que mesmo sabendo de uns pecados, alguns até bem feios, achava que o máximo de gancho que o Tribunal Celestial aplicaria era um purgatório, com direito a conexão direta ao fim da punição, em razão dos infortúnios futebolísticos. E foi procurar almas especiais, destas com terceira visão ou cousa parecida, para procurar respostas. Entrou, inclusive, em diversas igrejas, cultos, terreiros. E nada de resposta. O máximo de contato, jurou de pé junto, foi com uma menina no ônibus lotado. Jurou que ela lhe piscara duas vezes.


Por aqueles conhecimentos que todos sabemos de coisas do além, do tipo “brincadeira do copo”, foi vagando pela cidade procurando alguém para encostar. Não achou. Procurou pelas ex mulheres, pelos filhos, pelos amigos. Alguns sinceramente tristes, e ele quis consolar, em vão. Alguns indiferentes, e ele sentiu algum desapontamento. E alguém feliz, mas não valia a pena ficar perdendo o sono por causa disso. Sim, não tinha sono. Entrou madrugada adentro, viu gente em motel, viu gente bêbada, foi voyer e cúmplice de assassinato. Mas nada mesmo podia fazer.


Naquele indo e vindo, notou o domingo. A primeira risada em sei lá quantos dias. Bom, morrera mas ia ver, finalmente, o time campeão. Estádio lotado, encontrou lugar atrás do gol. E o time perdera vergonhosamente, sentindo a ingrata paúra. O segundo colocado tirara três pontos de vantagem e o clima no estádio era péssimo. Não sentira tristeza daquele jeito nem no próprio velório.


Segundo recordações, todas estranhas e confusas, nunca uma semana demorara tanto a passar. Devia ser o passamento do indivíduo uma eterna espera pelo campeonato? E sem nada para fazer, nem a barba cresceu, nem vontade de ir ao banheiro, ficou perambulando naquela busca terrível que lhe explicasse a agonia. A entidade dos céus tinha esquecido dele, chegou a concluir precipitadamente.


Na toada triste, trôpego, macambúzio como limão, chegou no outro domingo. Queria morrer de novo, se fosse possível, ao ter que ver a tragédia consumida de mais um campeonato falido. Mais um ano de fila, mais uma revolta no coração. Mas a constatação do não coração o convenceu a ir ao estádio, outra vez.


Um silêncio sepulcral calou as quase sessenta mil pessoas do estádio. Era o gol do time adversário, num peru digno de Natal. O um a zero acabaria com tudo. Quase tudo, porque ele ainda estaria lá, moribundo, mas morto morrido.


Num desespero frenético resolveu acompanhar todo time no último lance de ataque. O empate daria o título, no saldo de goles. Entrou no gramado sem chuteira e sem corpo, louco, furioso, frenético. A bola dócil e doce parou aos seus pés, no bico da pequena área. Tocou para o fundo da rede. E desapareceu no infinito.


A manchete do Estadão dizia tudo: “Gol de vento enlouquece o futebol”.



09. novembro, 27.