terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dos remédios amargos...


E seguem os textos da série "Cotovelos".

Este, evidentemente, coletado de impressões da rotina de finais de caso que acabam num escritório de advocacia (sim, além deste mercadinho, na vida lá fora sou "advogado"). Escrito como se fosse ela. Mas cabível, absolutamente cabível, se fosse ele.


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Te odeio por mexer nas tuas cousas e encontrar o telefone dela.


Te odeio por futucar teus papéis e encontrar os poemas que eram dela e não meus.


Te odeio com ódio de tudo por checar seu celular e encontrar o telefone dela, ali e mil ligações.


Te odeio, mesmo, por não dizer que era um engano, que era uma aventura, que era uma coisa a toa.


Te odeio por tudo isso. E por odiar este ódio todo, te odeio.


Mas te odeio ainda mais por ela ser especial para você.


E esse ódio vai aumentando a cada certeza que ela te faz feliz e que ela sorri para você.


E o ódio nas vísceras todas vai me dizimando ao perceber que ela não sabe que eu existo.


E te odeio por isso, nem isso, que nem isso eu tenho dela.


Me prometa uma única coisa: Diga para ela que eu existo e faça ela sentir ódio de mim.


E se ela dar de ombros... essas odiosas moças equilibradas, diga que eu te odeio em cada vírgula.


E se ainda assim eu te odiar ao ponto de te odiar mais um pouco, me tenha ódio. Ao menos isso.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Das mentiras que preciso ouvir

Como disse no texto anterior à este, espalhados em algumas anotações estão notas sobre "dores de cotovelo". Vou tentar, aos poucos, publicar.


O texto fica febril, arde. A paixão vira ódio, em segundos poucos. Escrever sobre as pequenas tragédias, os nossos "fim de mundo", costumam render boas cousas, creio. Mesmo que o cotovelo esteja são.

Aqui, então o "Cotovelos, II".


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Vim ensaiando discurso. Palavra por palavra, gestos, jeito de falar e todos os eteceteras e tais.


Mas, porra, cacete, putaquepariu. Hoje, não! Hoje eu não quero verdades. Deixe que o tempo desvele o que eu já sei. Não diga o dia, a hora, o minuto, o local, a gravata que eu vestia quando, de súbito, tudo acabou.
Não me diga sobre nosso sexo ter deixado de ser diversão, encantamento, descobrimento para ser rotina, jogo para cumprir tabela e cartão de ponto. Não me diga dos ciúmes, das reciprocidades magoadas, das incongruências de discurso, prática e das plantas que deixei, deixou, deixamos de regar. Aliás, odeio essa comparação entre regar plantas e regar sexos, ou paixões, sei lá.


Hoje não quero verdades. Não quero espetáculos, também. Se tens outro, não diga nem que sim e muito menos que não. Tente evitar comiserações mas não faça deste pé na bunda um retumbante “eu não gosto mais de você”. Se me amou, e desconfio que sim, não diga que desamou ou que “ainda ama, mas não dá mais”. Diga, apenas. Para que eu saiba e que, embora na dúvida, não fique embriagado de verdades. As verdades, estas que a gente pede sempre, são boas da boca pra fora, da boca pra dentro, da boca para a boca. Mas quando são assim, são só melancolias ríspidas e azedas, antecipações daquilo que o tempo, e só ele, pode reconhecer, reconduzir, refazer, rever e uma outra porção de verbos todos de fim e de começo.


Que a paixão acabou, até eu, que não quero verdades, sei. Não insista. Mas ao menos lembre que foi bom, foi do caralho, foi o que foi, fomos, fui, foste. Mas faça isso sem deixar esperanças. Estas devem morrer, antes das verdades.


Minta. Mas não se omita. Hoje eu não quero verdades. Só quero que acabe logo. Só isso.



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cotovelos

Este é um dos primeiros textos de uma série: Cotovelos.

Tem alguns espalhados nos caderninhos de anotações, divagações, contas penduradas e afins. Aos poucos, os recupero.

Uma polida aqui e outra ali.

Devia ter uma canção ao fundo, que ainda não escolhi.

Mas cá está, já exposta no balcão desta mercearia.

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E ela?


Bom, ela se foi. Acordou, fez a mochila e se foi.


Tinha calcinha, sutiã, calça, camiseta e um vestidinho de alça, tão lindo.


E foi tudo, na mala.


Levou também meus possessivos todos: minha, nossa, teu.


E ela? Bom, ela se foi. E quando acordei, só o travesseiro.


E aquele perfume. E aquele pijama que eu lhe emprestei.


E ele?


Bom, ele está a olhar para o teto. Acordou, entendeu e está lá.


Olhar ao nada. Olhar ao lado vazio. Olhar para dentro. Olhar, de olhos fechados.


Tinha raiva, lembrança, saudade e umas memórias, algumas tão lindas...


Daquilo, tudo ficou. Só os possessivos ficaram indefinidos.


Aquele perfume? Não sabe.


Mas o pijama... outra usará.


sem data. no caderno, o azul.



domingo, 4 de dezembro de 2011

Ao Doutor


"Faço uma promessa: Se a emenda das Diretas passar, não vou para a Itália e fico jogando no Brasil."



Puta dia triste. No meu Estrelão, sempre um espaço para gastar nostalgias, saudades, tristezas, alegrias, memórias, criancices, narrar jogos sozinho, gritar euforias de time, ser torcida e arquibancada, um refletor desligou. E um baita refletor. Daqueles que só de lembrar, da luz, da cor, da felicidade, dói tudo nas entranhas. O melhor do futebol é aquilo que guardamos de criança. E é sempre ruim, muito ruim, quando um pedaço deste infante se vai. Já não existe Papai Noel, já não existe mundo colorido, já não há andar descalço... e agora acabou-se 1982, acabou a única copa do mundo de futebol que, de fato, existiu.


Sócrates era corintiano. Era brasileiro. Era uma sumidade. Mas era palpável, próximo, do caderno de anotações. Era incongruente como nós, falava de política com os mesmos desatinos, acertos, erros miseráveis, sonhos e a doce utopia, a única que nos faz realmente gente, de querer um mundo diferente, menos macambúzio, menos marquetinque, menos comércio, mais papo de bar, mesa de ferro, futebol de botão. Sócrates não se acomodava na política do possível e por isso Sócrates nunca engoliu 94. Porque 94 é vitória, conquista, maravilha. Mas é a política do possível, é o governo sem reforma agrária, a inexpugnável vitória da real politik, da arena multiuso, da arquibancada com cadeirinha de espuma para a bunda.


1982 acabou. Zoff não vai mais me acordar durante o pesadelo. A cabeçada de Oscar no final do jogo nunca mais vai passar a linha. José Silvério nunca mais gritará “é campeão”. Zico nunca mais terá a chance de cobrar a penalidade que Gentile fez, a camisa do galinho nunca mais será remendada. Serginho não dará uns safanões naqueles italianos de ternos armani. Paolo Rossi não será alvejado por uma bazuca quântica de oito mil polegadas. Mestre Telê nunca mais fará a coletiva ao lado da taça FIFA, talvez a taça que mais bonita ficasse na sua coleção. 1982 ficará naquele gol espetacular, mágico, inenarrável, estupidamente soberbo do Doutor contra o maldito Dino Zoff, onde a pelota foi entrar cantinho da meta, no único lugar do mundo que deus pode ajudar.


Que os Deuses, na peleja de hoje a tarde, coloquem o Sócrates no time dos sonhos. É dele a braçadeira. É nossa a saudade. Que o Corínthians de hoje jogue por ele, menos pelo título, menos pelo campeonato, que o time do povo, sem demagogia alguma, possa, ao menos hoje, ser o time do povo. Sem o possível. De coisas possíveis estamos todos com o saco repleto, absolutamente farto.


Sócrates, peço benção Doutor. Te cuida.

11. dezembro, 04.

Texto também publicado n'OsBolonistas:

http://osbolonistas.zip.net/arch2011-12-01_2011-12-31.html#2011_12-04_13_18_42-2402205-25

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Trio de Ferro

Os que passeiam por aqui, sabem: futebol cá é cousa séria, de paixão.

A mercearia tem time, sim. Aqui nesta casa de víveres, somos tricolores, sãopaulinos. Nas estantes e pendurados pelas paredes, temos os times, as histórias, as fotos desta paixão. Aqui o Zé Sérgio, o grande José Sérgio Presti, o melhor ponteiro esquerdo de todos os tempos, nunca vai precisar pagar conta.

Mas nem por isso. O Corínthians e o Palmeiras, nossos inimigos figadais, tem lá seus pequenos recortes. Depois a casa oferece um boldo, fiquem tranquilos.

Escrevi para o blogue de futebol que mantemos, eu e mais dez camaradas, dois textos para os aniversários do Palestra e do Timão. E gostei dos textos. São textos da série "Bolonistas e outras histórias", em que tenho tentado mostrar historietas de torcedores e de suas paixões pela bola jogada com os pés.

Trago os dois textos para cá, então.

Espero que gostem... Podem se "aprochegar".


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Nunca morre, nunca da silva!


Era Neco. Não era diminutivo, apelido, nome de guerra. Era assim, de batismo. Nascera Neco. Nenhum outro nome seria possível, descobriram depois. Da vida, levara tudo muito a sério. Tanto é que o coração parou de funcionar duas vezes, em 77 e em 90, e ainda assim, sobreviveu. “São prolapsos”, dizia para horror dos amigos, esposas e filhos, “mas eu sou forte, sou protegido por santo”. E ria, fazendo uma imitação tosca de alguém cravando uma lança num animal feroz, estilo dragão ou cousa que o valha.



Neco acordava cedo, quase todos os dias. Só aos sábados se permitia algum luxo. Algo como nove da manhã, no máximo. E todos os dias mantinha rotinas: escova, mão esquerda, e o dentifrício, mão direita. Quando o esculhambavam dizendo que era um “homem de manias” reagia com calma, mas com a firmeza dos convictos: “são fidelidades, meu caro, fidelidades.”



Trabalhava feito cão. E mesmo depois da aposentadoria, e dos ataques cardíacos, manteve-se laborando e laborando. Depois que se aposentou das máquinas, foi dar aulas num curso técnico. E depois, ainda, foi do sindicato, militou clandestinamente contra o governo militar, participou de movimento contra o preço dos alimentos, contra a tarifa de ônibus e era sempre o primeiro a votar. O Neco levava a colinha e quase sempre contagiava alguém a votar nos candidatos dele, até quando se desencantou da política.



E tinha uma conta no bar, que nunca deixou de pagar. Mesmo quando desempregado por causa daquela greve. Jogava dominó nas manhãs de domingo e quase sempre jogava conversa fora com qualquer um. Só não gostava de gente que não olhava nos olhos dele enquanto conversavam. E sempre, todas às vezes, dizia bom dia ao chegar e boa tarde, ao ir embora.



E foi lá no boteco de sempre, num domingo que o Neco não apareceu, que soube que ele tinha morrido. Quem contou foi o neto, o Basílio. E todo mundo concordou que o Neco nunca ia de morrer, ia ficar com a gente, sempre. Erguemos nossos americanos e o brinde foi daqueles, com lágrimas e limão no dedos: “O Neco foi sempre fiel. Por quais diabos vai deixar a gente agora?”. E na televisão ligada, com bombril na antena, ia começar o jogo...



2011. setembro, 01.


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A casa na vila já tem 97 anos...







Noutro dia passei pela vila. E é engraçado, os barulhos são quase sempre os mesmos, uma nostalgia daquelas. Ouvia-se, evidentemente, o jogo de domingo, radião colocado no muro, num baita volume...





Naquela casa era assim: gente falando alto, gente gesticulando para falar, gente falando pelos cotovelos, gente, gentes. Aquele cheiro de alho refogado, que perfumava a casa toda, a vila toda, a vida toda. Era de lá que vinham os melhores cheiros de comida e a molecada da rua saía no tapa, aos domingos, para poder receber um convite do Ademir para almoçar na casa dele. A razão? Domingo tinha o macarrão, molho bolonhesa e salve se quem puder.





Era uma casa grande. Todo mundo católico, todo mundo rezava. Mas ninguém negava por lá que todo mundo pecava, um dia. E era lá na casa da mãe da Chinesinha, que apesar de italiana até a medula tinha este apelido, que as pessoas iam procuram conforto: e contavam as pequenas traições, os pequenos delitos, os pequenos deslizes. E sabe a razão? Por que lá tinha sempre um vermute para depois do choro e até das broncas. A mãe do Dudu e do Ademar era gente bona, boníssima. E tinha lindos cabelos negros e uma cara de Sophia Loren que fazia a molecada morrer, em pecado muitas vezes.





E tudo lá parecia ser mais apaixonado. A mãe amava o pai, apesar de gritar com ele algumas vezes e todo mundo gargalhar escondido. Amava os meninos e a menina, abraçava de deixar a gurizada toda envergonhada. Fofocavam, sim. Mas depois riam e esqueciam de tudo. Normalmente por causa de um molho vermelho, que deixava a rua da vila daqueles jeitos que eu já contei.





Noutro dia passei pela vila e aquela Sophia Loren já é vó. E continua alegrona, sabe? Feliz da vida que os meninos dela, e a menina, viraram tudo uns moços. E ri feliz da vida. E me chamou num canto outro dia, me convidando para almoçar no domingo: “Ragatzo, vem almoçar aqui no domingo. Mas antes do jogo, né? Não quero saber de confusão! Já te contei que vou ter um neto? Um bambino!!! O nome dele vai ser Marcos.” E me deu uma piscadela, que quase soou uma bela duma tarantela.


2011. agosto, 26.