terça-feira, 15 de maio de 2012

As fitinhas...



Este texto é para os meus meninos, Marco Antônio e Leonel. 

Outro dia mesmo, numa festa de aniversário, coloquei uma fita no pulso deles, fita dessas que fecham as "lembrancinhas". Dei três nós e disse: "Façam três pedidos, um para cada nó."

O Grande sorriu farto, naquele jeito zen dele. E o Pequeno emendou: "Pai, mas como é que eu vou fazer para saber se os pedidos vão se realizar?" 

Respondi que não tem como saber, mas que agora que o desejo foi feito a gente tem que tentar ajudar a tal fita e torcer. Os dois riram, desconfiando da tramela do pai.

As fitinhas ainda estão nos pulsos dos dois. Que tenhamos sorte.

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Senhor do Bonfim


“Sabia, filho, que toda noite, para a primeira estrela que a gente vê a gente faz um pedido?” O menino arregalou os olhos e ficou imaginando aquelas possibilidades. O pai apertou bem forte a mão do menino, fechou os olhos e deve ter feito um bom pedido. Sorriu. O menino emendou: “Pai, mas porque a primeira estrela?” E o pai explicou que tinha sido o pai, o avô no caso dele, que tinha ensinado este truque. E que tinha que ser a primeira estrela porque ela era a primeira a brilhar depois do Sol, que todos sabiam era a grande estrela da constelação. E que as estrelas são sempre atentas a responder com as realizações dos desejos esta pequena canja que o Solzão lhes dá. O menino sorriu também. Intuiu que o pai contava uma dessas lorotas de encantamento, mas ficou feliz da vida. E compartilhou com o pai um desejo: “Pai, quero que o São Paulo seja campeão.”


Foi uma doce gargalhada. Acompanhada de abraço, cumplicidade. Mas o pai advertiu: “Eita, que tem que ser segredo, senão a estrela não atende! E filho, não se pode fazer pedidos assim. Porque as outras pessoas também pedem para as estrelas e se todas elas pedirem para que o time seja campeão vai acabar tudo empatado e no fundo não vai vencer ninguém. Faz um pedido só para você. Do tipo um beijo, um brigadeiro ou uma figurinha difícil.” E deu um beijão no menino.


De fato, todos sabemos que esses desejos nem sempre são atendidos... O problema é determinar a “primeira estrela”. É um problema técnico dos mais graves. Na primeira desilusão amorosa do guri, afinal a menina resolvera voltar para a escola com o menino da quinta série, pois a culpa na tal estrela. E foi ter com o pai. Percebendo a severidade do momento a explicação foi técnica e bastante convincente: “Ah.... sempre temos que cuidar das estrelas. Sabe que Vênus, que é um planeta, como a Terra, e não uma estrela, como o Sol, brilha tanto que a gente confunde tudo? Sabe aquela música de carnaval, a da “Estrela Dalva que no céu desponta”? Então, esta estrela aí não é nada de estrela. É Vênus. Que brilha tal qual a Lua.” E quase rapaz não gosta muito de beijo de pai, então foi um bom abraço, daqueles demorados de rachar costela. Mas sorriu, tal qual o primeiro desejo.


Numa noite de céu todo manchado de luzes, cometas, cadências e que tais, o rapaz foi direto ao pai e numa troça replicou: “Pai, eu sempre peço para ganhar na loteria.” Mas teve que ouvir outra: “É por isso que nunca dá certo. Este pedido é tão besta que todo mundo deve fazer o mesmo. É o tipo de coisa bem boba de pedir. Um desperdício.” Mas ainda teve debate: “Xi, pai, a lista de coisas que não pode é muito grande. Acho que não vou pedir é mais nada.”. “Deixa que eu peço por você.”


No fundo o menino, o guri, o rapaz, todos eles sempre souberam que o pai sabia que as estrelas não tem como atender pedido nenhum. Ainda que uns vários beijos, umas questões de provas, um gol no fim do jogo do campeonato da classe ou um ingresso para aquele filme proibido teimassem em dar razão ao improvável. 

12. maio, 15.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

“Como se fora brincadeira de roda”



Eram cinco ou seis anos de idade. Antes de ir parar no Colégio Objetivo. Antes de querer ser o Zé Sérgio, o estupendo e genial e espetacular ponta esquerda do São Paulo Futebol Clube. Antes de gostar de cinema. Era a escola “Baratinha Azul”. E são lembranças esparsas, algumas com cores, outras sem. Um ou outro perfume, um ou outro rosto. De minha vó Tereza contando histórias, diversas delas – minhas preferidas, as estórias de lobisomem lá de Joanópolis, terra onde ela nasceu. De minha mãe Maria Helena contando histórias também, lia livros de criança, aos montes. Da mãe fazendo altas estripulias para que a gente se aprontasse a tempo de ir para escola. De uma festinha do dia dos pais em que eu fui fantasiado de Seu Nilton, de terno e gravata. De meu irmão fazendo planos nas brincadeiras de faroeste. De assistir cinema com meu pai e o Du na Galeria Metrópole – Superman. De minha mãe, também no cinema, lá no Bristol ou no Liberty, “Bugsy Malone” - em português, a irresistível tradução “Quando as metralhadoras cospem”. Enfim, memórias. Reminiscências. Belezas, distantes demais, infelizmente, já que quase, bem quase, quase mesmo, aos quarenta anos.


E há uma lembrança da ditadura. Duas, na verdade. Sim, a ditadura era o governo dos militares. Um governo feio, já que este é o único adjetivo perverso para um menino de seis anos de idade. A primeira lembrança de um cantarolar no recreio da tal “Baratinha Azul”... “Vai trabalhar vagabundo”. E a moça me chamando num canto dizendo que “vagabundo” era uma palavrinha feia – o adjetivo mais perverso de todos... Soube, depois - e talvez por isso esta memória me seja viva, correndo sério risco de ser uma daquelas que a gente constrói na cabeça da gente, tipo a primeira vez que vimos “Papai Noel” correndo pela escada do prédio-, que meus pais foram chamados na escola para uma reprimenda oficial: “Seu filho anda falando palavrão na escola”. E Seu Nilton, perguntou: “Que palavrão???”. “Vagabundo”. E ainda fizeram troça com a música do Chico Buarque, emendou a explicar Dona Maria Helena. Era um país onde Chico Buarque e “Vai trabalhar vagabundo” não eram cousas para um menino de classe média sair por aí cantarolando sem pudores e vergonhas... Evidentemente que a conversa sobre o significado daquela reprimenda escolar só foi debatido, explicado e se tornado piada muito tempo depois. Mas guardo a cara do meu pai: “Um absurdo aquilo.”. Era um absurdo, mesmo. Era proibido. Era daquele jeito.


A segunda lembrança é a de uma peleja de futebol, por óbvio. Minhas memórias são mantidas e alimentadas por partidas de futebol. Mas este é um tópico para outros textos. Quero falar da ditadura e das minhas memórias sem sapatos e de shorts. O jogo era a final da Copa de 78 na Argentina, entre os hermanos e os holandeses, o “Carossel”. “Fernando, pra quem você está torcendo?” Sabe-se lá quem perguntou. Mas foi na casa de minha vó, todos reunidos na cozinha, junto ao radinho de pilha, a TV com bombril na antena. “Argentina”. E ouvi a resposta: “Não torce pra Argentina não. Se eles ganham a Copa os militares vão matar mais gente, o governo vai matar mais gente, vai piorar...”. A gravidade das assertivas: “matar gente” e “vai piorar”. Provavelmente a resposta não foi exatamente esta. Provavelmente meu pai, minha mãe e meu vô João devam ter dito algo a favor dos holandeses, mas nunca nestes termos que minhas memórias insistem em martelar. Mas a memória, ainda mais esta que lembra das infantilidades, tempos em que sorrisos eram mais sinceros e tristezas eram mais lamentadas, embora mais simples e finitas, nos fica ali a demonstrar quem somos, quais os tijolos estão nas fundações.


Tenho quase quarenta anos. E ainda assim tenho minhas memórias de criança e faço questão de conversar com elas, aprender, ouvir, construir, pesquisar, reconhecer, saber. E fico cá a me perguntar por quais raios o Brasil insiste em negar sua memória e a macular, por outro lado, a memória de tantos brasileiros que ousaram cantarolar vagabundices pelos cantos deste país. Fico cá a me perguntar se o que temos é covardia de enfrentar militares de pijamas e polainas ou é medo de descobrir que o aparelho repressor do Estado continua o mesmo, com os mesmos tijolos. Será que temos receio de descobrir os cúmplices civis que não só silenciaram como se locupletaram e perceber que estes andam por aí, que jantam sem culpa e que brincam de democracia nos quintais do poder? Será que receamos conhecer os mecanismos de financiamento da repressão e de sustentação ao poder político e como num “plim-plim” perceber que as coisas continuam com a mesmíssima fundação? Será que nossa vergonha é tamanha que não teremos a dignidade de pedir desculpas? Será que temos o pavor de descobrir corpos de desaparecidos políticos em covas clandestinas e encontrar nestas covas outros clandestinos pobres, negros, índios, crianças de rua, mulheres? E perceber, aturdidos, que estas covas continuam a serem alimentadas, cotidianamente?


E ainda assim tenho memórias, perguntas, dúvidas e dívidas. E é bom reconhecer que, felizmente, não estamos sozinhos. 

12. abril, 02.
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Este texto escrevi para a Quinta Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, uma campanha nas redes sociais para que o Brasil abra, disponibilize e debata os arquivos da ditadura militar, de 1964 até 1989, ano da primeira eleição direta para presidente do país depois do golpe.

Sobre a campanha, deixo alguns links importantes: 


O Blogue #DesarquivandoBR:  http://desarquivandobr.wordpress.com/

Minha participação na Segunda Blogagem #DesarquivandoBR: http://quodores.blogspot.com.br/2011/02/onde-ele-esta.html

O Tuíter da Niara de Oliveira, das pessoas mais fundamentais da "tuitosfera": https://twitter.com/#!/nideoliveira71

O Tuíter do Du, meu irmão, citado no texto:  https://twitter.com/#!/edu50740

Por fim, o link no VocêTubo do "Redescobrir" do Gonzaguinha, na voz da Elis, que inspira o título deste texto: http://www.youtube.com/watch?v=bMfhOAWksvg&feature=related

quinta-feira, 15 de março de 2012

E se um dia perder a cabeça?




Pois bem... alguém já viu uma girafa dormindo? Roncando?


Quando descobri, por mero acaso, que as girafas podem desatarrachar suas cabeças e pendurá-las, com procedimento e segurança e para descanso e reflexão, tive um espasmo muscular de riso febril e de espanto genuíno: “Como nunca percebemos esta característica tão sobrenatural e formidável desses seres pescoçais?”


A verdade é que nunca vira “Discovery Channel”, “National Geographic”, “Superinteressante”, ou qualquer publicação do gênero explorar esta potencialidade incrível das girafas. Um espetáculo! Haja superlativos para explicar este dom. As girafas simplesmente desatarracham as cabeças e as colocam para repousar. Fica lá o pescoção, sem nada, nadinha da silva, para lhe ornamentar. É verdade que pelo tamanho das girafas - e ninguém fica olhando para o teto procurando a cabeça de uma girafa, pois sempre paramos e nos embriagamos com o pescoço - é difícil ter a noção exata do que acontece nas cabeças girafais. Mas, convenhamos, um feito desta magnitude tinha que ser louvado, em prosa, verso e oração.


O que mais me espantou foi a naturalidade com que as girafas retiram suas cabeças. Para quem não tem membros superiores, o improvável acontece de forma quase lógica: O pescoção começa a girar, contorcionismo puro, ela faz uma mira e prum... a cabeça voa e se estaciona numa árvore, num andar de edifício, num andaime qualquer. E para colocar de volta? A danada se recolhe um pouco, quase um agachar, e a atarracha, num golpe de pura mágica. Se fosse dado a misticismos ou crendices outras, diria que trata-se de um ser mágico, divino, colossal, um unicórnio ou um dragão. Em cotejo com este estupendo fenômeno da natureza, o fantástico, a mente humana e suas assombrosas teorias divinais ou a própria roda, quiça o ar condicionado, se transformam em miudezas.


Fico imaginando se os autores dos contos de fadas para crianças, como “Papai Noel”, “Coelhinho da Páscoa”, “O Homem do Saco” e o “Bicho Papão”, tinham a exata noção do que acontecia nas savanas africanas, e escondiam com perfídia dos incautos normais tal sabedoria – o que explicaria a longevidade no imaginário popular e infantil de tais estórias, ou se o engenho humano ainda pode criar histórias ainda mais incríveis, sabedores que somos, só agora, da minha descoberta. Torço vivamente pela segunda hipótese.


Reconhecer que um mamífero de cinco metros, repito – cinco metros! - pode desatarrachar a cabeça amplia, e muito, nossas possibilidades de imaginação: “Darth Vader”, o “Curupira”, “Harry Potter”, “Jeanie é um gênio”, “Governo de Coalizão”! Que nada, se as girafas podem o que podem, nós podemos ainda mais!


2012. março, 14.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Articulação Sinovial e Complexa...

Um antigo, esquecido num canto.

Mas sobre um tema absolutamente relevante: Joelhos.


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Que coisa é essa.....

joelhos são joelhos e ponto final.

mas que joelhos.... armazenam sussurros contidos... comprimidos

sustentam coxas alegres, bela paisagem.

caminho suave do olhar, desvio obrigatório.

rota de passagem de muito querer.

que joelhos.... há caminhos que me levam a tocá-los?




Que joelhos são esses que me dizem tudo o que quero?

Somente um olhar basta para reconhecer cada prazer...

Cada prazer que poderia ter, que poderia ser... tocar.


Que joelhos são esses? Joelhos são joelhos e ponto final.


1994. nalgum canto.

PS.: Obrigado à Vanessa Dantas e ao Xico Sá, que me fizeram lembrar deste poema numa tuitada de hoje.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Opressões

Certamente, todos sabemos de pesadelos. Desde as inoportunas quedas, dos lugares ermos, dos fins de mundo, literais. A definição de pesadelo, num desses sítios que tentam ser dicionários: sonho ruim, pessoa inoportuna, opressão. Boas definições.

E para começar 2012 aqui nesta confeitaria, um desses sonhos.

Antes, e para acalmar Dona Maria Helena, minha mãe, leitora assídua e secreta deste espaço, um tranquilizante: "Mãe, o que vai para o blogue são os escritos, os rascunhos, as idéias. A vida real, só as vezes. E muito vez em quando... Beijo, mãe!"

Última observação: ... muito embora um pouco, ou muito - talvez, da angústia do texto já tenha saboreado. As insônias também são opressoras, indubitavelmente.


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Ando com tanto, mas tanto, mas tanto sono que sei que isso é irreal. Durmo em frente à tela do computador e não sei se escrevo tintas, lamúrias, consignações, desejos, virtudes, lampejos. Só sei que estou aqui, dormindo. O que equivale a dizer que nem sei onde estou. Não é simples não saber onde, nem como, nem por onde começar. Alguns dizem que pelas gavetas. Eu desconfio que seria pela cama, logo cedo, ou ontem à noite, na hora de se deitar. Dormir mais cedo. Dormir melhor. Ou vir direto, deixar isso para quando tiver vontade. Ou, ainda, soçobrado de vez, internado nalgum hospício de estrada ou na mesa de um botequim barato onde a cerveja caiba no bolso e uma dose de fernet, para arruinar o fígado que pede um pouco de paz.


Aos escombros é difícil encontrar paredes, âncoras, ânforas, cousas práticas para nos segurar ou nos manter em pé. Ouço vozes descompassadas, ordens imperiosas, gritos, alguém pedindo socorro. Desconfio que seja a minha própria voz, embora possa ser a do colega de trabalho, do motorista de ônibus, do atendente do café, dos ascensoristas, dos vigias de rua, dos bêbados, do homem de gravata. Só peço, ainda que sem vontade, que não seja a florista a me chamar, que ela é linda e seria um desperdício. Nem aquela moça de saia florida, que nem sei morena, ruiva, negra... só guardei foi o vestido.


Nem sei onde estou. Se estou no escritório, numa sala de aula embaçada pelo olhar míope, na escadaria da Sé, nos fundos da boate, num quarto escuro, num salão de baile. Baile? Não... não sinto cheiro de lança-perfume, nem de remédio broncodilatador. Bom, deve ser certo que ainda não estou num pronto socorro, num hospital, num velório. Nem o meu. Seria cínico afirmar que a vista está turva, que estou sonhando, que há elefantes na lama ou macacos no sótão. Seria cínico porque estou com tanto sono que nem me lembro mais. Só que o travesseiro cheira a amônia, de suor talvez.


Será que estou na rua, vivendo em caixas de papel ou cachimbos da paz e por isso não sei mais de nada? Talvez sejam os quarenta anos, os planos fracassados, os clamores não atendidos, os deuses dos outros ou algo que comi e me faz mal. Nem tanto o estômago, mas mais o fígado, o intestino, a lombriga, a lordose, a hérnia de hiato. Um bocejo seria um sinal, que não vem. Mas coça. Felizes, infelizes, modestos, imodestos, glória, vaidade, cabelo despenteado, nariz escorrendo. Quem será que está do outro lado? Eu? Não, eu não sei... tanto sono... Talvez devesse pegar um papel, uma caneta e anotar o desvario. Ou ao menos esquecer.


2012. janeiro.