Segundo o Houaiss, Quodore é uma pequena porção de vinho, uma pequena porção de alimento. Também é uma bebida ordinária, um café ralo, algo para o desjejum. Aqui, são fragmentos, ideias, pensamentos tolos, outros tipos de pensamento. Enfim, um cadinho de alimento...
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Copos para licores
No último dia 04 de agosto teve fim a primeira Mostra de Tuiteratura no Sesc Santo Amaro, em São Paulo.
Participei da mostra, e foi das cousas mais legais que já vivi.
Tento recuperar alguns tuítes perdidos, porque não fazia cópia...Enfim...
Mais alguns que coletei. Espero que curtam estes acepipes cá do boteco!
E para quem tem feicebuqui, uma filial por lá deste quinquilhiaródromo: https://www.facebook.com/blogquodores
A gerência sempre agradece!
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Desde que descobrira nela os atributos ideiais passou a cobiçá-la, platonicamente. E ela, evidentemente, não percebeu. "Quem é você mesmo?".
2010. setembro, 09.
Tinham poucos sonhos de consumo. Uma casa, dois banheiros, dois carros, dois computadores. Enroscou quando ambos quiseram dois amores.
2010. setembro, 09.
Ela sabia que ele sabia que ela mentia. Um dia, cansada de saber, disse a verdade. Ele foi embora, antes emendou: ""Mas eu nunca quis saber."
2010. setembro, 09.
"Meu amor era Ana Rosa/ Ia do Paraíso à Consolação/ E descia nas Clínicas." poemeto de resposta para o @xicosa, numa brincadeira sobre as estações do metropolitano paulista, linha verde.
2010. setembro, 13.
A moça tinha um avatar de arrasar quarteirão. "Seu avatar, muito bonito". "Gostou? É do filme, "Bela da Tarde"". Morreu um pouco.
2010. setembro, 21.
Descobriu que o telefone móvel o conectava às redes sociais, aos amigos. Estranhou, o velho garçom ligou: "Não aparece mais?"
2010. setembro, 21.
Depois se descobriu que o tal qual era comparsa nas farras virtuais. Mas já tarde: a senha compartilhada tinha feito o estrago.
2010. setembro, 21
Chegou mais cedo em casa, decidido. Descobriu ser verdade o que tanto temia: Ela não tinha um caso. Só não gostava mais dele.
2010. setembro, 28.
A xingou: "Matreira, sorrateira, fingida". Mas o principal, que lhe fazia bem e feliz, esqueceu. Virou mera anotação de agenda...
2010. setembro, 28.
A avó, na guerra, se enamorou por correspondência. Naquilo via graça, amor romântico. Até conhecer Pedro. Por tuíte, de Portugal.
2010. setembro, 30.
Confidenciou ao amigo, solene: "Tenho uma mania terrível". E antes de contar o amigo foi ríspido: "Se é terrível, não me conte".
2010. setembro, 30.
Orgulhava-se, tinha vaidade, daquela relação: verdadeira, fidelidade, cúmplices. Não sobreviveu aos desencantos do primeiro hd...
2010. setembro, 30.
lista para a despensa
"quinquilharias,
miudezas e armarinho",
tuíter
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Passes e Passos, para fora do mesmo compasso
Há
uma profunda incompreensão quando movimentos sociais, populares,
espontâneos, brotam contra governos que se rotulam como de esquerda...
E é engraçado que as reações são similares, para não dizer idênticas,
aos daqueles que são rotulados como de direita: deslegitimam, criam
maniqueísmos, baderna, vândalos, protestar pode mas isso aí é bagunça.
Não é fácil, não.
Porque compreender estes movimentos, mais do que uma tentativa
necessária, é pensar um pouco sobre nós mesmos, sobre nossos equívocos,
sobre nossas traições.
Em 2011, sim, em 2011, durante o governo
Kassab, eram vereadores do PT que se diziam solidários ao Movimento do
Passe Livre. A crítica era contra a abusiva majoração da tarifa, a
rudeza e a truculência da polícia e cousa e lousa. Os embates entre os
vereadores e a polícia foram capas de periódicos e as falas eram de que o
movimento estava corretíssimo em suas reivindicações e ações. O próprio
site do PT tecia comentários de apoio, solidariedade e compreensão: http://transportesptsp.blogspot.com.br/2011/02/repressao-do-kassab-lembra-os-tempos-da.html
Não se pode exigir o "monopólio" das reivindicações justas. Este é o
problema central. O governo municipal está perdido, sim. Está perdido
porque levou a questão da tarifa do transporte público para um debate
meramente "técnico", aquele papo de contrato, reajuste abaixo da
inflação e um protocolo de boas intenções, do bilhete mensal à
construção de novos corredores. E aí, atônitos: "Poxa, mas tudo que é
correto nós estamos fazendo e prometendo que vamos fazer. O que esses
meninos e meninas querem é absurdo."
Não é. Porque o debate é
político. O reajuste de vinte centavos tem impacto brutal no bolso de
quem usa o transporte público diariamente. É a diferença entre o cinema e
o ficar em casa assistindo ao "Zorra Total". Entre a cerveja e o
cachimbo. Entre o passo e laço.
Dizem que há um problema neste
Movimento do Passe Livre, que eles não tem uma liderança reconhecida
que possa "negociar". Que eles são jovens de classe média, que não usam
diariamente o transporte público. Que eles vestem toucas, cobrindo
rostos... Cuidado, porque mais que incompreensão podemos correr o risco
de reproduzir conceitos que até ontem condenávamos.
A questão
da liderança e da "negociação" nos remete a um dilema sério e cruel. Em
que medida as negociações com lideranças dos movimentos de esquerda não
desaguaram numa retumbante diminuição de direitos ou em pequenas
traições (uso "pequenas" porque eu também cultivo dúvidas...): dos
movimentos de moradia que nunca tem suas desapropriações por interesse
social atendidas, da reforma agrária que nunca sai, dos créditos para os
pequenos agricultores sempre em segundo plano em relação aos
financiamentos para os agronegócios, nos Afifs, da reforma da
previdência. Nesses últimos dez anos aprendemos que a governabilidade
custa sonhos, que o carpete amortece, que é melhor negociar para perder.
Sobre as toucas e os rostos, será que os trabalhadores de
Belo Monte, que foram presos pelo exército inclusive, não ensinam que
mesmo na "democracia" podem ocorrer perseguições, prisões e sei lá mais?
Ou será que vamos fingir que trabalhadores não foram presos por lá,
porque é muito distante e que Belo Monte é uma questão estratégica para o
desenvolvimento do brasil potência.
São jovens. Podem ser de
classe média. Ora, pelotas, quem foi para a rua contra a ditadura não
tem o direito de dizer quem pode ou não se manifestar quando se
reivindica direitos.
São estas pequenas contradições de
discurso e prática que vão minando os espaços institucionais, incluindo
os partidos políticos. Podemos até ficar perplexos, só não podemos
deixar de olhar para o próprio rabo.
E, por fim, sincera e
honestamente, não é de Paris que se manda recados. Se está por lá é
porque o que se está fazendo por lá foi considerado prioritário - sem
juízo de valor algum nesta constatação. Os arruaceiros já tinham dito
que a terça feira ia parar SP. Pelo jeito, a quinta também. Eu voltaria
no próximo avião, se fosse para tratar desta questão como prioridade.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Películas Protetoras, Amém.
Outro
dia comprou um revólver. Disse que se sentia muito inseguro, rua escura, gente
má e tudo mais que é isso mesmo que dá, que medo é assim, quando toma, contorna
a alma com filme preto. Outro dia, usou a arma.
Era
manhã e saindo cedo, e atrasado, suava desenganos diários: a hipoteca, a escola
das crianças, o carro, o carnê da televisão mega polegadas, o carnê da carne, o
desodorante, a fama que não veio, o chefe, o logro, a covardia, o atraso na
hora de acordar, o atraso e não tomou café, o atraso e a dívida com a esposa,
de carinho.
O
trânsito caótico. Já fechara uns dois outros apressados, já passara buzinando
por cima da faixa de pedestre, estava atrasado sempre pensava que nessas horas
também deve levar em conta relógio, condomínio e livro de ponto, xingou a moça
braço, xingou de velho, xingou de bicha, gritou. E evidente, dentro do carro
era assim. É como minha casa, porra, faço o que bem entender, caralho.
Engraçado
que o mesmo filme preto que encobre a alma, nos casos do medo, é aquele que
cobre os vidros do carro. Tenho medo de ser assaltado e o filme dificulta que
os ladrões me vejam, me notem, me invejem, cobiça, atiça, lixa. Mas é o mesmo
filme que protege a mãozaça na buzina porque aquele filhadaputa me fechou. E
também impede que se olhe no rosto daquela outra, que, pacientemente, deixou
vez no cruzamento, na rotatória, mesmo tendo a preferencial. Não se olha nem
para agradecer, é o filme que me protege. Bege, opaca, cinza, nula, óbvia,
ridícula.
Mas
foi o maldito que desceu do carro. Como imaginar que ele só queria conversar,
veio tão bravo, tão puto, tão armado de gritos. Bom, vou dar um susto nele,
abaixa, pega a arma, sai gritando: “e agora, palhaço, vai ficar manso?”. Tomou
um tapa na cara. Um tabefe, que ressoou avenidas, ruas, alamedas, a moça do
carro ao lado, o que vão pensar, o que vão pensar, o que vão pensar. Atirou.
Pelas costas.
O
mesmo filme preto, a arma, o corpo na hora morto, mote, anote: fim.
13. junho, 07.
lista para a despensa
breves cotidianas,
crônicas da cidade
terça-feira, 28 de maio de 2013
Loja de Miudezas
Desde o último domingo, 26 de maio, ocorre na unidade Santo Amaro, do Sesc, a exposição "Tuiteratura": Textos feitos em até cento e quarenta caracteres - a regra de concisão do tuíter.
Desde que entrei no tuíter, para brincar e para divulgar o que escrevia por aqui nesta mercearia numa outra ferramenta, comecei a brincar de "tentar" contar estórias e histórias no formato proposto. No começo, as cousas saem ingênuas e a tentação é tentar rimar. Rimas não são fáceis... porém.
Percebi que o grande e estupendo barato desses escritos, os tais #microcontos é a brincadeira com o texto... o de revelar, desvelar, só um pedaço das histórias, deixando para o leitor, no ar, na intuição, as possibilidades de enredo.
Diria, então, numa filosofada de botequim, que os tais #curtacontos são pequenos retratos... quem acaba, ao começo e ao fim, desenhando a história é o leitor.
E comecei a escrever bastante #microcontos. Alguns eu gosto muito.
Tive a honra de ter oito tuítos selecionados para a Mostra!!! Foi muito bom ver essas especiarias expostas por lá.
E como bom leonino, então, resolvi recuperar os outros tuítos... esparsos e espalhados por aí. Não é tarefa fácil, porque eu nunca tinha me preocupado em salvar esses trens em alguma gôndola especial...
Então fui lá e baixei tudo o que escrevi no passarinho e preencherei as prateleiras daqui com os tais #microcontos...
Os quitutes estarão expostos por aqui, portanto.
Antes, porém, um mega abraço e agradecimento para a Giselle Zamboni, uma sonhadora repleta, que se apaixonou pelos pequenos textos no tuíter, uma paixão tão arrebatadora que a fez criar esquinas literárias por lá, como a #Letras365. O resultado? Esta paixão moveu muitos tuitocontistas, poetas, narradores, brincantes. E uma parte deste movimento está sendo exposta na mostra de #Tuiteratura. Cousa boa, que aquece.
Elegante, sem dúvida.
Cá estão os primeiros! Espero que gostem.
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Teve ideia originalíssima de #microcontos: Tuitou versinho para a amada, esperou beijo de cinema. Sobrou um tuíte bem vagabundo.
10. agosto, 16.
Era aluno de segundo grau. Tiveram muito medo dos disparos quando descobriram que ele era um tuiter serial.... #microcontos
10. agosto, 16.
Demorou demais para entender que não se fazia bom omelete sem quebrar ovos e o que restou, enfim, foi só o enxofre do ovo podre.
10. agosto, 16
Não vendo sonhos, mas gostaria de partilhá-los. #versificados (uma outra hashtag, muito utilizada pelo @arautonho em seus deliciosos versos)
10. agosto, 21.
Tinha um gato no meio do caminho.Tinha um gato no telhado.Tinha um gato pendurado no telhado.Tinha um gato, caindo do telhado.E agora, José??
10. agosto, 24.
Boa noite, poeta, @AgneloRoneberg. Um tuitoconto: "O difícil em SP é respirar. Não só o ar, mas os ares. Por aqui, não é o fado: enfado." (@AgneloRoneberg é desses tuitocontistas geniais, parceiro de boemias, de cálices de porto em tuíto madrugadas, ele em Portugal.)
10. agosto, 24.
Tuitava causos, piadas, poemas. Não gostava era de política. Até que um dia proibiram o tuíte. Era tarde, desconfiou. E já estava sozinho.
10. agosto, 30.
Antes, gostava do trabalho. Depois, o trabalho virou ganha pão. Só depois, então, virou cefaleia, pressão alta e enfarte. Era segunda feira.
10. agosto, 30.
Sabia como poucos o tal ponto fraco. E foi lá esmiuçar, cutucar. Virou prazer, virou brincadeira. Conseguiu o óbvio: nunca mais se falaram.
10. agosto, 30.
Desconfiava da traição pelos tuítes desbravados. Começou a seguir, ""trollar"", ofender. Ela foi embora. E ele foi bloqueado. #microcontos"
10. setembro, 21.
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"quinquilharias,
miudezas e armarinho",
tuíter
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Fígado em Três Cores
Os fantasmas se divertem
Foi linda a vitória, aquela cantilena, toda a sorte de elogios e elegias e uma infinidade de eteceteras e tals.
Tomamos uma sonora e solapante tunda no jogo de ontem. Resultados assim deixam qualquer comentário sobre o time do outro com cara de pum na sala, com jeito de curió depenado, com esparadrapo no costume.
Sim, ganharam, levaram e não tem muita cousa para falar.
Mas o futebol mágico, o resplendor tático, a lousa, tudo isso passa. Até o acre da derrota, passa. A boa fase alheia, passa. A nossa sorte é esta efemeridade. O tabu de hoje passa, assim como o tabu de ontem, contra ou a favor.
Só há uma cousa que para o torcedor não tem fim, levaremos para o paletó de madeira ou junto com as cinzas...: o nosso time, aquele que escolhemos nalgum dia da vida e que ficam, marcam, tatuam.
Portanto, aos que torcem, estes querem o inferno. Por isso vomito quando os jornalistas esportivos, todos travestidos de neutros, teimam com suas baboseiras acerca de "planejamento", "calendário", "a coragem de manter treinador", "projeto". No inferno, o baile é com o capeta e a labareda redime.
O São Paulo tem jogado pedrinhas em todos os jogos decisivos. Todos. Não ganha clássico e quando ganha é jogo de quinta feira, que decide o troféu do nono lugar ou, quem sabe, a melhor campanha duma primeira fase ou dum segundo turno, quando já se morreu no anterior. Ontem, pela primeira vez em algumas dessas derrotas, perdemos de forma retumbante, sem contestações: não houve juíz, polêmica e contusões para além dos já contudidos. Não houve aquela sensação terna tão comum aos sãopaulinos recentemente de que o "time até que jogou bem" ou, a mais pérfida, "jogamos até um pouco melhor do que o outro".
Aproveitemos, portanto, o sabor desta derrota para ver se saímos deste rame-rame. "Mas vocês ganharam a Sulamericana", dirá algum desses desavisados de coração. Sim, ganhamos quase que por obrigação numa finalíssima pela metade contra um time meia boquíssima. Talvez reconhecer este dilema existencial nos leve a algum divã capaz de entender as razões destes fracassos decisivos, este medo do gozo, esta incapacidade ao infinito que nos assola desde o fim do tricampeonato - basta lembrar da campanha heróica da era Ricardo Gomes, onde saímos do fundo do poço, fomos chegando, passamos e na reta final perdemos de Goiás e Botafogo e deixamos escapar um impossível tetracampeonato nacional, fato que nenhuma outra agremiação do céu, da terra e do inferno poderia chegar neste plano espiritual.
Deixemos as fitas, os embaraços, as pilhérias. Elas vão. O time, este fica. Lá no fundo da alma todos nós escolheremos e nomearemos nossos vilões mais como forma de cachaça, quando sabemos que a enfermidade está na alma. Não acho crível alguém que torça defender, por exemplo, que Nei Franco fique. Mas entendo que isso está longe de ser a solução do problema.
Fiquemos então com nossos fantasmas. Até a estréia do próximo brasileiro.
Publicado originalmente n`OsBolonistas.
13. maio, 09.
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Bolonistas,
São Paulo Futebol Clube
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