quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dizem imperfeições... mal sabem.


 
Outra, dos "Amores Pardieiros".


___________________


Notei que gosto.

Gosto da dobra, do riso, do vexame. Do pé, inchado do calor. Ou sujo, do chão descalço.

Do buço, sim, do bigode molhado com suores quando tá calor, ou depois do sexo, ou de espanto.

Dos olhos levemente estrábicos. Assim como os bicos dos peitos, sempre perseguindo algo, como a querer descobrir novos caminhos.

Gosto dos pelos nas pernas, nas axilas, no sexo. Nada me desgosta, do rebolado quando cansada, do deitar de cansado, da roupa amassada depois de um dia daqueles. Mas gosto mais sem roupas, sempre. Ainda mais nesse calor desumano.

Das falhas nas unhas, também quando me arranham. Do cabelo despenteado, da coxa suada. Da sede, ou melhor... da volúpia da sede.

Vestido, vestidinho. Mesmo sabendo que é um maldito shortinho – para proteger coxa e tudo - e não aquela calcinha puída, cor de pele. Gostos dos peitos saltando no fim do dia querendo burlar a regra do sutiã. Mas gosto, estranhamente, das alças.

Ah... gosto de beijo com doce. De mordida na nuca. De ver arrepio. De ver, note, de ver. Ouriçada: pelos, vulva, poros, olhos, nariz.

Bom... melhor parar por aqui. Do contrário a conversa descamba. Adoro quando descamba.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O sorriso de uma moça

 
Em 2006, nos Bolonistas, fizemos uma copa do mundo inteira antes da copa de fato, copa que foi na Alemanha. Na nossa copa, muito mais bonita, cousas fantásticas aconteceram. Mas descobrimos autores, narradores, jogadores entre amigos de boteco. Foi fantástico.
 
Estamos a tentar repetir o trem neste ano, de copa cá no Brasil. E criamos um blogue, o Copa no Fio do Bigode, para narrar nossos jogos. Os resultados tem sido deliciosos.
 
Escrevi este texto aqui, supostamente para narrar um França e Honduras, no Beira Rio em Porto Alegre. E gostei do resultado....
 
Trago para cá, para a mercearia.
 
Pão quente. 
 
 ________________________________________
 
 
 
 
 
Eram quinze minutos do primeiro tempo e já tínhamos farta matéria para os botecos. Para conversas daqui até Paris. Muito embora sabíamos todos que o destino da partida seria a maçã de Newton cair logo logo ao invés de ficar levitando como a conjurar demônios e a divertir por meio de metáforas: o gol de Davi contra Golias, logo aos cinco minutos. Mas depois do gol, o encanto e a maravilha: três ataques e três defesas espetaculares, milagrosas, meticulosas, espalhafatosas, sensacionais, redundantes até.


Lembro da única copa que houve de fato, a de 1982. Levara um radinho de pilha para a escola e auscutava, silenciosamente, pelejas durante as aulas. Uma delas, um soberbo Espanha 1 x 1 Honduras. Arzú, o goleiro hondurenho, um deus maia, fechou a cidadela centro americana e vingou a colonização nefasta, defendendo tudo e pensamentos. E só houve empate naquele dia porque alguém marcou uma penalidade ao fim do jogo, um desses imperialistas nojentos vestidos de preto.


Seria novamente Arzú? O fato é que aos vinte minutos ainda da primeira etapa a sucessão de milagres fazia a plebe acreditar piamente que um único gladiador poderia derrotar um império todo. As defesas de Zetti contra a Católica, todas, uma a uma. Rodolfo Rodrigues contra o América, uma obra de arte. Marcos e aquela partida inenarrável contra o Corínthians. E aos vinte e sete, duas penalidades. Duas. Dida, contra Raí. Era fato: o goleiro.


Mas a pressão era tanta e tamanha, armadas, fragatas, navios, submarinos, caças rasantes e seus mísseis. Acreditar que não haveria empate, virada, lógica, crua e nua, era acreditar em besouros que falam ou em vingança divina. Acreditar no impossível.
Mas era assombroso. E até de Rogério, sim, do mitológico arqueiro, contra o Liverpool – Gerard, no canto alto, espaaaaaaaalma o goleiro.


No intervalo, frisson. Até os pedregulhos, se filosofassem, teriam assunto de monte. O burburinho era incessante. Tive, por momentos, a certeza de que algo de sublime estava a acontecer. O homem pisando na Lua. A invenção da cerveja. O ar condicionado. E eu estava lá. Logo no começo do segundo tempo, cruzamento na área, o bola de ouro da Fifa e que tais, cheio de dólares, francos, suiças, flashes, cantigas, matérias de relógios, namoradas e de confusões nos periódicos da metrópole, sobe alto e testa firme. Pelé e.... Banks: queixo caído. E poderia descrever, logo depois, Oscar e Zoff, na mais terrível defesa de todos os mundos. Era incontroverso: assistíamos a maior exibição de um ser humano a defender balisas em todos os tempos, memoriais ou não, de Zamora à Barbosa, de Gilmar à Buffon, de Taffarel, de Valdir Peres, de Cassilas à Nkono. Arzú.


As faces de desolação, de derrota, de submissão dos jogadores adversários. Os rostos maravilhados. O treinador arrancando os cabelos. A elétrica certeza do estádio todo: Estávamos presenciando a história, Pearl Habor, a batalha da Normandia, o Riachuelo, Waterloo, Stalingrado, Bill Gates, Santos Dumont.


Mas um senhor ao meu lado assistia a tudo estranhamente desolado... e me diz, com a tristeza dos tesouros roubados por Cortez e Pizarro, em tom fúnebre: “Não posso mais suportar...”.


A história era assim: O arqueiro só fechava o gol quando estava triste. Muito triste, então, era um Yashin. Desde pequeno, descalço, o guri só conseguia fechar o gol depois de tragédias. Perdeu o pai, assassinado numa briga de gangues, catou até raio num joguinho de quarta série. A mãe, enferma, campeão do ginásio numa partida colossal contra um time repleto de repetentes, gigantes e malvados. O rol de infortúnios, as defesas miraculosas. Mas... era estar feliz e pronto: pinimbas em série. Frangos e uma coleção inteira de pássaros e vexames em finais de campeonato, em jogos no exterior, em eliminatórias. Só estava ali porque o goleiro titular estava suspenso e muitos não o queriam. E o senhor, firme, lágrimas: “tenho medo de saber o que será que está passando por aquela alma neste instante... deve ser amor.”


Suspenso no ar. Faltava me fôlego. Não sabia se podia acreditar naquela história, por demais fantástica, um conto de Cortazar, uma imagem da Amazônia de Pantaleão, Bolivar e Martí tomando um rum numa praia pirata. Mas o fato é que aos quarenta e oito minutos, o estádio em êxtase e o imperialista de amarelo, sempre eles, a lei, a marcar penalidade indiscutível. Cal. Silêncio.


No telão, um rosto de mulher. Sinto a tragédia, quando vejo o senhor ao meu lado, um Gabo, com seus bigodes trêmulos, chorar: “é ela...”.

A multidão e eu, todos os olhos do mundo, no arqueiro imenso. Que sorri ao rosto da mulher, riso farto, contente, contundente, de senhor do mundo, Quincas Berro D'Água.

“Correu...... bateu.........”.


Para fora. Para a imensidão.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Poemetos para Amores Pardieiros


Mais uma série de poemas e poemetos... encontrados por aí, em anotações, colhifos aqui e ali, entre uma escutadela e outra numa conversa alheia, de metropolitanos, bares, ônibus, filas...


São os "Amores Pardieiros".


Este é o primeiro que sai do forno.


_____________________________________ 




Deixou um bilhete...


"Beijo roubado.

Com gosto de saudade.

E se desse, ainda, uma chave de quarto de motel barato.

Porque desejo fica assim batucando.

Como o samba dum lábio rosado,

De língua, molhada.

E língua e molhada e libido, escancarada."


E se perguntou: Será que ainda alguém lê bilhetes?



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E a lição de casa?


A oitava edição da Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR.

E desta vez recuperamos a memória de um dos momentos mais funestos da história brasileira: O Ato Institucional número 5. O AI5, de 13 de dezembro de 1968.

A convocação da blogagem, aqui: http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/12/05/convocacao-para-a-viii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/

O Brasil precisa recontar sua história. Pedagogicamente. Insistir em recuperar dados memórias, histórias, fatos. E gentes.

A ditadura civil militar brasileira é das piores máculas. Mas ela ainda marca, cada um de nós. Nossa apatia, nosso conformismo, nossa crença de que não vale a pena. Nossa baixa estima. Nossa mania de acreditar que somos assim por alguma força divina, genética,  molecular. A impunidade dos agentes da ditadura, que torturaram e mataram, é a impunidade dos agentes de estado que torturam e matam. As covas de opositores do regime são as covas dos fora-da-lei, dos negros, dos pobres, dos indigentes. E  AI 5, funesto, são as prisões abarrotadas, os presos sem o devido processo legal - os presos pobres, os que são presos por portarem vinagre, por roubarem doce.

Não nos esqueçamos. Fingir que não existiu, menosprezar, relativizar, não é deixar de ter pesadelos. É só, e somente só, fugir: de nós mesmos.

______________________________________________




Levantou o braço, esperou. A classe naquela algazarra de fim de semestre, fim de ano, fim de provas, festa. Uma solene bagunça. A professora tentara, um pouco, ainda, cumprir o programa. Mas nada mais seria possível, desconfiava. Mas ali, no canto, um braço erguido. Também solene.


Como que aquelas cousas sempre ficam e marcam e restam, o braço erguido ali queria dizer algo. O barulho foi aquietando. Um e outro cutuco. Um  “olha lá”, “que será?”, “o que é?”. Alguma curiosidade. Alguma incredulidade.


Pois bem. Silêncio. A bola voltara misteriosamente para a professora. Que tinha a senha. Mas tinha lá seus receios... afinal... o ano já estava ao fim, acabando, findando, cansaço, adeus, até o ano próximo, boas festas.


“- Posso ajudar?”

“- Professora, o que foi o Ato Institucional nº 5?”.


A classe fez um muxoxo. Será que ainda teriam que mais um pouco de aula? Será que todos já não estavam com seus devidos sacos repletos de impaciência e incontinência? Ato institucional... E ainda por cima o cinco? E o um, o dois, o três e o quatro?


Mas antes de voltar o zunzunzum... 


“- Minha vó morreu por causa disso. Meu avô também, de desgosto. E meu pai até hoje dorme com a luz acesa no quarto. Explica, professora, por favor...”


Morte, desgosto, luz acesa  para dormir e a confissão explícita de alguma vergonha, medo. Eram tópicos que qualquer aluno saberia relevante, importante, preocupante.


“- E eu li que este AI-5 faz aniversário hoje, professora, 45 anos.”


A professora respirou fundo. Sabia que não escaparia: o silêncio na classe.


“Não foi só sua avó que morreu. Fomos todos nós, um pouco. Nem seu avô, fomos todos nós, mais um pouco. E a luz acesa, a única capaz de acalentar o pesadelo do seu pai, também é este silêncio aqui... porque tem muita gente que só consegue dormir porque desconhece a verdade. Porque muita gente não dorme mais, há tempos. E porque nós, nós todos, o país inteiro, ainda não tivemos coragem de responder a esta sua pergunta.”


E desatou a explicar. Não só o ato e aquele distante 13 de dezembro de 1968, mas também.

O silêncio da classe, as lágrimas de alguns. Sim, os risos e a indiferença de outros. Mas que agora não eram fruto de alguma ignorância ou desconhecimento.  


“-Obrigado, professora.”




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Pequena Declaração de Contravenções Luxuriosas de Um Leitor Assíduo





A primeira vez que te li, confesso, quis te despir. Palavra por palavra, desvelando, jogando aos cantos os pedaços de frase, as ideias, as rimas, o colóquio, o devaneio, a firmeza, brinca, doçura, bronca. Esmiuçando. Nuas, todo e toda.


E arrumar uma desculpa furtiva para no meio da tarde, e as tardes são sempre as melhores praias para sonhos de paixão, crime de adultério, voyerismo e observações de corpos, corpo e textos, correr para te ler, em forma de poema, conto, tolice, crônica, paisagem, fofoca, opinião, carinho, delírio, olfato, tato e paladar.


Sim, tudo isso é pura platonice. Tem uma distância de fios, conexões, ondas, curtas, médias, longas. Sim, também é conspiração para sair da rotina, escapulir das linhas habituais, correr fogo das faturas, libelos, construções de cimento e só. Mas é assim mesmo, platonice. Há quem diga que a alma se alimenta assim. Não duvido.


Das coisas que ando a aprender, na minha intensa resistência ao pós, a pós, ao caos, é que tudo nestas modernidades tem lá seus lados de profunda destruição mas de intensa construção. Não é só a disputa, não é fim, nem meio, mas creio caminho. São noites de insônia, dias de calor, cobertores de orelha, são calabocas, calabouços, porões. E são doce de leite, jornal da manhã, bolacha com café, pé com pé, remédio para fígado, soco no estômago, máquina de escrever e fotografar. Mas não parem de escrever, aparecer, tocar. A primeira vez que te li, confesso, sem pudores, despudoradamente, quis te despir. Letra a letra, peça a peça, misturar frase com crase, arroz com feijão, nexo com rima.


Vão dizer que tais observações e declarações assim podem causar ciúmes, posses, dores, dissabores. Aos que dizem, é caso de pensar na tecla “delete”. Deleite, assim, tem que ser. Despir, assim, nunca pode ser pecado. 

Posso continuar tirando tuas roupas? 


2013. novembro, 14.