Segundo o Houaiss, Quodore é uma pequena porção de vinho, uma pequena porção de alimento. Também é uma bebida ordinária, um café ralo, algo para o desjejum. Aqui, são fragmentos, ideias, pensamentos tolos, outros tipos de pensamento. Enfim, um cadinho de alimento...
domingo, 26 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Dizem imperfeições... mal sabem.
Outra, dos "Amores Pardieiros".
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Notei
que gosto.
Gosto
da dobra, do riso, do vexame. Do pé, inchado do calor. Ou sujo, do
chão descalço.
Do
buço, sim, do bigode molhado com suores quando tá calor, ou depois
do sexo, ou de espanto.
Dos
olhos levemente estrábicos. Assim como os bicos dos peitos, sempre
perseguindo algo, como a querer descobrir novos caminhos.
Gosto
dos pelos nas pernas, nas axilas, no sexo. Nada me desgosta, do
rebolado quando cansada, do deitar de cansado, da roupa amassada
depois de um dia daqueles. Mas gosto mais sem roupas, sempre. Ainda
mais nesse calor desumano.
Das
falhas nas unhas, também quando me arranham. Do cabelo despenteado,
da coxa suada. Da sede, ou melhor... da volúpia da sede.
Vestido,
vestidinho. Mesmo sabendo que é um maldito shortinho – para
proteger coxa e tudo - e não aquela calcinha puída, cor de pele.
Gostos dos peitos saltando no fim do dia querendo burlar a regra do
sutiã. Mas gosto, estranhamente, das alças.
Ah...
gosto de beijo com doce. De mordida na nuca. De ver arrepio. De ver,
note, de ver. Ouriçada: pelos, vulva, poros, olhos, nariz.
Bom...
melhor parar por aqui. Do contrário a conversa descamba. Adoro
quando descamba.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
O sorriso de uma moça
Em 2006, nos Bolonistas, fizemos uma copa do mundo inteira antes da copa de fato, copa que foi na Alemanha. Na nossa copa, muito mais bonita, cousas fantásticas aconteceram. Mas descobrimos autores, narradores, jogadores entre amigos de boteco. Foi fantástico.
Estamos a tentar repetir o trem neste ano, de copa cá no Brasil. E criamos um blogue, o Copa no Fio do Bigode, para narrar nossos jogos. Os resultados tem sido deliciosos.
Escrevi este texto aqui, supostamente para narrar um França e Honduras, no Beira Rio em Porto Alegre. E gostei do resultado....
Trago para cá, para a mercearia.
Pão quente.
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Eram quinze minutos do primeiro tempo e já tínhamos farta matéria
para os botecos. Para conversas daqui até Paris. Muito embora
sabíamos todos que o destino da partida seria a maçã de Newton cair
logo logo ao invés de ficar levitando como a conjurar demônios e a
divertir por meio de metáforas: o gol de Davi contra Golias, logo
aos cinco minutos. Mas depois do gol, o encanto e a maravilha: três
ataques e três defesas espetaculares, milagrosas, meticulosas,
espalhafatosas, sensacionais, redundantes até.
Lembro
da única copa que houve de fato, a de 1982. Levara um radinho de
pilha para a escola e auscutava, silenciosamente, pelejas durante as
aulas. Uma delas, um soberbo Espanha 1 x 1 Honduras. Arzú, o goleiro
hondurenho, um deus maia, fechou a cidadela centro americana e vingou
a colonização nefasta, defendendo tudo e pensamentos. E só houve
empate naquele dia porque alguém marcou uma penalidade ao fim do
jogo, um desses imperialistas nojentos vestidos de preto.
Seria
novamente Arzú? O fato é que aos vinte minutos ainda da primeira
etapa a sucessão de milagres fazia a plebe acreditar piamente que um
único gladiador poderia derrotar um império todo. As defesas de
Zetti contra a Católica, todas, uma a uma. Rodolfo Rodrigues contra
o América, uma obra de arte. Marcos e aquela partida inenarrável
contra o Corínthians. E aos vinte e sete, duas penalidades. Duas.
Dida, contra Raí. Era fato: o goleiro.
Mas a
pressão era tanta e tamanha, armadas, fragatas, navios, submarinos,
caças rasantes e seus mísseis. Acreditar que não haveria empate,
virada, lógica, crua e nua, era acreditar em besouros que falam ou
em vingança divina. Acreditar no impossível.
Mas era
assombroso. E até de Rogério, sim, do mitológico arqueiro, contra
o Liverpool – Gerard, no canto alto, espaaaaaaaalma o goleiro.
No
intervalo, frisson. Até os pedregulhos, se filosofassem, teriam
assunto de monte. O burburinho era incessante. Tive, por momentos, a
certeza de que algo de sublime estava a acontecer. O homem pisando na
Lua. A invenção da cerveja. O ar condicionado. E eu estava lá.
Logo no começo do segundo tempo, cruzamento na área, o bola de ouro
da Fifa e que tais, cheio de dólares, francos, suiças, flashes,
cantigas, matérias de relógios, namoradas e de confusões nos
periódicos da metrópole, sobe alto e testa firme. Pelé e....
Banks: queixo caído. E poderia descrever, logo depois, Oscar e Zoff,
na mais terrível defesa de todos os mundos. Era incontroverso:
assistíamos a maior exibição de um ser humano a defender balisas
em todos os tempos, memoriais ou não, de Zamora à Barbosa, de
Gilmar à Buffon, de Taffarel, de Valdir Peres, de Cassilas à Nkono.
Arzú.
As
faces de desolação, de derrota, de submissão dos jogadores
adversários. Os rostos maravilhados. O treinador arrancando os
cabelos. A elétrica certeza do estádio todo: Estávamos
presenciando a história, Pearl Habor, a batalha da Normandia, o
Riachuelo, Waterloo, Stalingrado, Bill Gates, Santos Dumont.
Mas um
senhor ao meu lado assistia a tudo estranhamente desolado... e me diz, com a
tristeza dos tesouros roubados por Cortez e Pizarro, em
tom fúnebre: “Não posso mais suportar...”.
A
história era assim: O arqueiro só fechava o gol quando estava
triste. Muito triste, então, era um Yashin. Desde pequeno, descalço,
o guri só conseguia fechar o gol depois de tragédias. Perdeu o pai,
assassinado numa briga de gangues, catou até raio num joguinho de
quarta série. A mãe, enferma, campeão do ginásio numa partida
colossal contra um time repleto de repetentes, gigantes e malvados. O rol de infortúnios,
as defesas miraculosas. Mas... era estar feliz e pronto: pinimbas em
série. Frangos e uma coleção inteira de pássaros e vexames em
finais de campeonato, em jogos no exterior, em eliminatórias. Só
estava ali porque o goleiro titular estava suspenso e muitos não o
queriam. E o senhor, firme, lágrimas: “tenho medo de saber o que
será que está passando por aquela alma neste instante... deve ser
amor.”
Suspenso
no ar. Faltava me fôlego. Não sabia se podia acreditar naquela
história, por demais fantástica, um conto de Cortazar, uma imagem
da Amazônia de Pantaleão, Bolivar e Martí tomando um rum numa
praia pirata. Mas o fato é que aos quarenta e oito minutos, o
estádio em êxtase e o imperialista de amarelo, sempre eles, a lei,
a marcar penalidade indiscutível. Cal. Silêncio.
No
telão, um rosto de mulher. Sinto a tragédia, quando vejo o senhor
ao meu lado, um Gabo, com seus bigodes trêmulos, chorar: “é
ela...”.
A
multidão e eu, todos os olhos do mundo, no arqueiro imenso. Que
sorri ao rosto da mulher, riso farto, contente, contundente, de
senhor do mundo, Quincas Berro D'Água.
“Correu......
bateu.........”.
Para
fora. Para a imensidão.
lista para a despensa
Bolonistas,
Copa no Fio do Bigode
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Poemetos para Amores Pardieiros
Mais uma série de poemas e poemetos... encontrados por aí, em anotações, colhifos aqui e ali, entre uma escutadela e outra numa conversa alheia, de metropolitanos, bares, ônibus, filas...
São os "Amores Pardieiros".
Este é o primeiro que sai do forno.
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Deixou um bilhete...
"Beijo roubado.
Com gosto de
saudade.
E se desse, ainda,
uma chave de quarto de motel barato.
Porque desejo fica
assim batucando.
Como o samba dum
lábio rosado,
De língua, molhada.
E língua e molhada
e libido, escancarada."
E se perguntou: Será que ainda alguém lê bilhetes?
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
E a lição de casa?
A oitava edição da Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR.
E desta vez recuperamos a memória de um dos momentos mais funestos da história brasileira: O Ato Institucional número 5. O AI5, de 13 de dezembro de 1968.
A convocação da blogagem, aqui: http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/12/05/convocacao-para-a-viii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/
O Brasil precisa recontar sua história. Pedagogicamente. Insistir em recuperar dados memórias, histórias, fatos. E gentes.
A ditadura civil militar brasileira é das piores máculas. Mas ela ainda marca, cada um de nós. Nossa apatia, nosso conformismo, nossa crença de que não vale a pena. Nossa baixa estima. Nossa mania de acreditar que somos assim por alguma força divina, genética, molecular. A impunidade dos agentes da ditadura, que torturaram e mataram, é a impunidade dos agentes de estado que torturam e matam. As covas de opositores do regime são as covas dos fora-da-lei, dos negros, dos pobres, dos indigentes. E AI 5, funesto, são as prisões abarrotadas, os presos sem o devido processo legal - os presos pobres, os que são presos por portarem vinagre, por roubarem doce.
Não nos esqueçamos. Fingir que não existiu, menosprezar, relativizar, não é deixar de ter pesadelos. É só, e somente só, fugir: de nós mesmos.
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Levantou o braço, esperou. A classe
naquela algazarra de fim de semestre, fim de ano, fim de provas, festa. Uma
solene bagunça. A professora tentara, um pouco, ainda, cumprir o programa. Mas
nada mais seria possível, desconfiava. Mas ali, no canto, um braço erguido.
Também solene.
Como que aquelas cousas sempre
ficam e marcam e restam, o braço erguido ali queria dizer algo. O barulho foi
aquietando. Um e outro cutuco. Um “olha
lá”, “que será?”, “o que é?”. Alguma curiosidade. Alguma incredulidade.
Pois bem. Silêncio. A bola voltara
misteriosamente para a professora. Que tinha a senha. Mas tinha lá seus
receios... afinal... o ano já estava ao fim, acabando, findando, cansaço,
adeus, até o ano próximo, boas festas.
“- Posso ajudar?”
“- Professora, o que foi o Ato
Institucional nº 5?”.
A classe fez um muxoxo. Será que
ainda teriam que mais um pouco de aula? Será que todos já não estavam com seus
devidos sacos repletos de impaciência e incontinência? Ato institucional... E
ainda por cima o cinco? E o um, o dois, o três e o quatro?
Mas antes de voltar o zunzunzum...
“- Minha vó morreu por causa disso.
Meu avô também, de desgosto. E meu pai até hoje dorme com a luz acesa no
quarto. Explica, professora, por favor...”
Morte, desgosto, luz acesa para dormir e a confissão explícita de alguma
vergonha, medo. Eram tópicos que qualquer aluno saberia relevante, importante, preocupante.
“- E eu li que este AI-5 faz
aniversário hoje, professora, 45 anos.”
A professora respirou fundo. Sabia
que não escaparia: o silêncio na classe.
“Não foi só sua avó que
morreu. Fomos todos nós, um pouco. Nem
seu avô, fomos todos nós, mais um pouco. E a luz acesa, a única capaz de
acalentar o pesadelo do seu pai, também é este silêncio aqui... porque tem
muita gente que só consegue dormir porque desconhece a verdade. Porque muita
gente não dorme mais, há tempos. E porque nós, nós todos, o país inteiro, ainda
não tivemos coragem de responder a esta sua pergunta.”
E desatou a explicar. Não só o ato
e aquele distante 13 de dezembro de 1968, mas também.
O silêncio da classe, as lágrimas de
alguns. Sim, os risos e a indiferença de outros. Mas que agora não eram fruto de alguma
ignorância ou desconhecimento.
“-Obrigado, professora.”
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