Segundo o Houaiss, Quodore é uma pequena porção de vinho, uma pequena porção de alimento. Também é uma bebida ordinária, um café ralo, algo para o desjejum. Aqui, são fragmentos, ideias, pensamentos tolos, outros tipos de pensamento. Enfim, um cadinho de alimento...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Um copo dágua, por favor...
E continuam as pequenas crônicas da falta de água...
Mas ainda me causa espécie, que tragédia mais que anunciada, fiquemos esperando uma providência divina, uma chuva, um milagre.
Enquanto que as autoridades - e em SP é preciso nominar o governo do Estado, porque parece que a culpa é só de São Pedro - continuam fingindo pão de ló. Era necessário racionamento, transparência nas informações sobre contratos de fornecimento e sobre as providências. Mas não... o silêncio e o cinismo das autoridades e de parte da banda que defende o ocupador de cadeira oficial.
Espero, sinceramente, que o leitor destas crônicas publicadas nesta quitanda possa rir, mas possa dialogar com o tema. Porque o que a gente tem assistido é uma intensa campanha para apontar dedos para as pessoas, imputando responsabilidade individual para um drama que é da coletividade e, acima de tudo, tem um responsável político - e, não, o divino ou o espírito santo.
E nestas horas não é espanto algum que venham moralistas de plantão, prontos para cagar regrinhas de conduta.
Aos textos! E obrigado pela visita. Sente-se, seja benvindo, benvinda, bem vindo e bem vinda.
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Descobriu o porque daquele sorriso no rosto, mesmo num dia como aquele.
"O biltre tem um poço em casa, sabia?"
"Que biltre, querida? De quem você está falando?"
"Ora... daquele janota. Aquele que mora ali naquela casa..."
"Amarela?"
"Esse. O pascácio tem um poço em casa. Por isso aquele sorriso de propaganda de dentifrício! Tem um poço, deve tomar banho todo dia e a gente aqui, nesta de lencinho umedecido e repetir cueca."
"Querida.... desculpe... eu já sabia. Fui eu quem fiz o poço.... ele é meu amante. E o sorriso dele é por outra razão....".
"Você está brincando, né. Nunca me leva a sério. Vocês se merecem!"
"Eu sei...".
Nunca se soube a verdade. Mas o apelido dele, no time de futebol das segundas feiras, era "Capitu".
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O cara era dono do motel. Gostava, muito, de fazer festa pros outros, dizendo que era proprietário de um parque de diversões para adulto e tralha e tal.
E era... Um parque aquático, temático, cadeira, piscina, hidromassagem, ofurô.
Só que a crise da água foi se aboletando... Ele vivia um pré desespero. O negócio ia falir, ir para cucuia e ele já tinha levado a primeira tunda da Sabesp na conta... era um grande consumidor.
Colocou uns cartazetes nos quartos, nos banheiros. Distribuiu um folder na entrada. "Economizem água."
O fato é que depois dos cartazetes e tals, o movimento caía, dia a dia...
Até que um belo dia, o gerente - a santa alma que cuidava do estabelecimento para que desse o menos dores de cabeça possíveis ao dono - chega visivelmente tristonho...
"Acabou. A água acabou. A caixa dágua.... secou."
Foi quando ele se lembrou do parque de diversões e teve a grande ideia do mundo:
"Encha as piscinas com bolinhas. E no ofurô põe uns brinquedos, algemas, pintos, xoxotas de borracha, fantasias de polícia e ladrão, máscara do Brad Pitt e da Angelina Jolie."
Virou um "case" de marquetinque. Primeira página, palestra, aula magna e o escambau.
Mas hoje a vigilância sanitária lacrou tudo: denunciaram que as bolinhas estavam muito sujas....
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O clima estava esquisito...
"Amor.... não queria te dizer isso assim.... mas não tô aguentando.... eu estou tendo um caso."
Demorou um pouco, mas ela sorriu timidamente...
"Amor, então.... por enquanto, então, faz como eu... toma banho no motel, na casa dela ou dele... Deixa a caixa dágua pra lavar a roupa, a louça e pras crianças...".
"Melhor assim, né?"
"Ô amor.... não fica assim. Quando esta crise de água passar a gente faz terapia."
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Na cama, naquela malemolência....
"Amor...."
"Oi..."
"Você é meu chuchuzinho..."
"Ah... amor... você é meu pitelzinho...."
"Você é mais, é meu coração de amor..."
"Você que é... meu tesouro.... encantado..."
"Amor... sabe mesmo...."
"O que...?"
"Você... você.... você é meu caminhão pipa!!!!"
Transaram loucamente. E foram dormir, sem tomar banho.
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15, fevereiro.
sábado, 31 de janeiro de 2015
"A Dona Aranha subiu pela parede e ficou por lá."
Putz....
E faz tempo que esta quitanda aqui está sem víveres novos...
Crise de abastecimento? Talvez...
O tal do feicebuco tem esse efeito colateral. Por vezes escrevemos por lá e deixamos de lado cousas mais importantes.
Tentarei não deixar a casa vazia por tanto tempo. Promessa d´ano novo.
Fiz uns pequenos microcontos com o tema da escassez de água... Publico aqui.
Fiquem a vontade. Até para tomar um refresco.
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"Amor....lembra?".
"Do que, paixão?".
"De antes....".
...
"Antes do que, tesão?".
"A gente...contestava... Fumava um baseado....imprimia panfleto clandestino na gráfica do centro acadêmico....trepava no cinema.... O que aconteceu com a gente, mô?".
Ouve-se um chorinho de criança, distante. Mas um espasmo.
Silêncio.
"É.... A gente encaretou, moça.".
Uns segundos...
"Amorão.....vamos fazer uma cousa bem louca agora? Transgressão! Cuspir verdades por aí?."
Ele, excitado... A cena para no começo do volume vivo, dentre as vestes.
"O que, bruxa?".
Os dois pelados, lavando o quintal. De esguicho cheio.
"Do que, paixão?".
"De antes....".
...
"Antes do que, tesão?".
"A gente...contestava... Fumava um baseado....imprimia panfleto clandestino na gráfica do centro acadêmico....trepava no cinema.... O que aconteceu com a gente, mô?".
Ouve-se um chorinho de criança, distante. Mas um espasmo.
Silêncio.
"É.... A gente encaretou, moça.".
Uns segundos...
"Amorão.....vamos fazer uma cousa bem louca agora? Transgressão! Cuspir verdades por aí?."
Ele, excitado... A cena para no começo do volume vivo, dentre as vestes.
"O que, bruxa?".
Os dois pelados, lavando o quintal. De esguicho cheio.
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"Beeenhê...."
"Oi, amor... que foi?".
"A gente nunca mais vai poder tomar banho junto?"
"Oi, amor... que foi?".
"A gente nunca mais vai poder tomar banho junto?"
"Ah... amor.... nunca é uma palavra forte. A gente pode viajar por aí e encontrar terras aquáticas ou algo semelhante..."
"Mas.... gosto tanto de ensaboar tuas costas... e de....sabe....".
"Upa!!!! Vou te contar um segredo, então...."
"Conta, conta...."
"Os vizinhos de cima tem acordado de madrugada e tomado banho escondido... a gente podia conversar com eles e propor alguma cousinha ... que você acha?"
"Tipo... todo mundo junto? Mas não vai gastar mais água?"
"É.... mas a gente reforça os laços de solidariedade....".
"Verdade, solidariedade é tudo nesses tempos de crise."
"Mas.... gosto tanto de ensaboar tuas costas... e de....sabe....".
"Upa!!!! Vou te contar um segredo, então...."
"Conta, conta...."
"Os vizinhos de cima tem acordado de madrugada e tomado banho escondido... a gente podia conversar com eles e propor alguma cousinha ... que você acha?"
"Tipo... todo mundo junto? Mas não vai gastar mais água?"
"É.... mas a gente reforça os laços de solidariedade....".
"Verdade, solidariedade é tudo nesses tempos de crise."
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O adolescente se tranca no banheiro.
O desespero se instala na casa... Pais modernos não querem criar fantasmas onde não existem. Sabem que o menino está lá, tocando uma para alguém. Mas não deixam de lado as preocupações mundanas... A carestia da água é a doença da vez. E desta vez séria, mui séria...
Esperam algum tempo. E nada. Até que se liga o chuveiro.
O desespero se instala na casa... Pais modernos não querem criar fantasmas onde não existem. Sabem que o menino está lá, tocando uma para alguém. Mas não deixam de lado as preocupações mundanas... A carestia da água é a doença da vez. E desta vez séria, mui séria...
Esperam algum tempo. E nada. Até que se liga o chuveiro.
A mãe em desespero. O pai em prantos. A vizinhança andava abelhuda e era comum que um "ex bom dia" se transformasse em um rancoroso dedo duro. A conta. De água.
Mais um tempo e nada...
"Filho.... tá tudo bem?"
"Porra, mãe.... não enche....".
"Não seja malcriado com sua mãe, moleque!".
"Pai... caralhos.... quero tomar banho em paz....".
"Tá... tá.... mas filho, não esquece.... tem rodízio de água, tá faltando por aí, tá uma crise braba....".
"Tá!".
O menino sai do banheiro, toalha amarrada na cintura. E solta, quase que um lamento, enraivecido:
"Caramba, gente.... eu sei que tem que economizar água. Mas vocês sabiam que o papel higiênico para ficar branco gasta uns sei lá quantos mil litros de água!!! É... é sim... que para fabricar papel, uma tonelada que seja, se usa cem mil litros de água!"
E emenda:
"Essa punheta de ficar reclamando de punheta é ísso... uma grande distração do principal. Uma PUNHETA."
Todos ficaram um tanto ruborizados. Mas, por via das dúvidas, deixaram uma dessas revistas no bidê aposentado.
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Mais um tempo e nada...
"Filho.... tá tudo bem?"
"Porra, mãe.... não enche....".
"Não seja malcriado com sua mãe, moleque!".
"Pai... caralhos.... quero tomar banho em paz....".
"Tá... tá.... mas filho, não esquece.... tem rodízio de água, tá faltando por aí, tá uma crise braba....".
"Tá!".
O menino sai do banheiro, toalha amarrada na cintura. E solta, quase que um lamento, enraivecido:
"Caramba, gente.... eu sei que tem que economizar água. Mas vocês sabiam que o papel higiênico para ficar branco gasta uns sei lá quantos mil litros de água!!! É... é sim... que para fabricar papel, uma tonelada que seja, se usa cem mil litros de água!"
E emenda:
"Essa punheta de ficar reclamando de punheta é ísso... uma grande distração do principal. Uma PUNHETA."
Todos ficaram um tanto ruborizados. Mas, por via das dúvidas, deixaram uma dessas revistas no bidê aposentado.
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"Tutuca.... ".
"Oi, tutuquim...".
"Esse cheirinho de bumbum lavado as pressas...é seu?".
"Oi, tutuquim...".
"Esse cheirinho de bumbum lavado as pressas...é seu?".
"Ô....jujubim! Passei água de cheiro, alfazema.... Poxa.... Mas esse cheirinho aí é esse de cachorro molhado?".
"Putz, mumuquinha.... É....esse cheiro de camiseta que seca no varal antes da gente usar de novo tem disso....".
Longo silêncio.
"Tuquinho.... Te amo.".
"Tutuquina....mais que banho. Vem cá....vem........".
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"Putz, mumuquinha.... É....esse cheiro de camiseta que seca no varal antes da gente usar de novo tem disso....".
Longo silêncio.
"Tuquinho.... Te amo.".
"Tutuquina....mais que banho. Vem cá....vem........".
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"Querido...."
"Oi... o que é?"
"Querido.... você acha mesmo que a culpa desse negócio aí da falta de água é cousa de São Pedro?"
"Oi... o que é?"
"Querido.... você acha mesmo que a culpa desse negócio aí da falta de água é cousa de São Pedro?"
"Ai... querida... por favor... o país tá seco, tem um monte de estado com restrição de acesso, com seca. É evidente que isso é contingencial, acontece. Sim, São Pedro. E a gente tem que acreditar que vai chover. Ou que deus sabe o que faz, né?"
"Querido.... mas eu li que outro dia propuseram restringir fornecimento de água, no ano passado, e que se isso tivesse acontecido, sabe, hoje a gente podia ter mais agua na represa... uma reserva, sabe..."
"Querida... isso é política, politicagem. Você não gostou de tomar banho ano passado? Tinha água.".
"É....".
"Isso, fique tranquila."
"Querido.... o vizinho veio de novo oferecer pra gente poder tomar banho lá na casa dele... ele fez um treco de sei lá.... que aproveita a água da chuva...".
"Querida... olha... eu acho que nosso vizinho é um pederasta. Não quero me misturar com esse tipo de gente, mesmo banheiro. As coisas são muito difíceis, você não entende."
"Querido... qual a raiz quadrada de nove?"
"Ãh.... que pergunta... é três. Por que?".
"Nada.... é que você é tão inteligente...".
"Querida... você é ingênua. Deixe isso pra lá.... Você vai sair? Vai onde?"
"Ah.... querido.... vou ali comprar cigarro. E aproveito e levo esta toalha velha para doar lá na igreja.........".
15. janeiro.
"Querido.... mas eu li que outro dia propuseram restringir fornecimento de água, no ano passado, e que se isso tivesse acontecido, sabe, hoje a gente podia ter mais agua na represa... uma reserva, sabe..."
"Querida... isso é política, politicagem. Você não gostou de tomar banho ano passado? Tinha água.".
"É....".
"Isso, fique tranquila."
"Querido.... o vizinho veio de novo oferecer pra gente poder tomar banho lá na casa dele... ele fez um treco de sei lá.... que aproveita a água da chuva...".
"Querida... olha... eu acho que nosso vizinho é um pederasta. Não quero me misturar com esse tipo de gente, mesmo banheiro. As coisas são muito difíceis, você não entende."
"Querido... qual a raiz quadrada de nove?"
"Ãh.... que pergunta... é três. Por que?".
"Nada.... é que você é tão inteligente...".
"Querida... você é ingênua. Deixe isso pra lá.... Você vai sair? Vai onde?"
"Ah.... querido.... vou ali comprar cigarro. E aproveito e levo esta toalha velha para doar lá na igreja.........".
15. janeiro.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Onde erramos?
Ok... mais um texto de política. Na banca de jornal. Os tempos estão difíceis... mui.
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Foi um soco no estômago. Num
desses papos de uátizapi ou feiçobuco recebi a primeira “opinião”, logo após a
morte de Eduardo Campos, que ligava o governo federal e o partido do governo ao
causo. Em linha simples, a intervenção fazia crer que não foi acidente, foi
crime. Confesso que azedei. Porque, sinceramente, por mais que divergências
políticas aqui e ali existam – e devam existir – um pensamento destes não sai
do nada, não cria asas repentinamente. Transpira um ódio, um desejo mórbido de
que a “luta” política seja mesmo uma refrega sem lei e ordem, uma terra inóspita,
onde o adversário é uma espécime de anticristo, conjurado. Demorou para cair a ficha... sim, uso a
expressão demodê para me recordar de um outro tempo, muito mais ameno, mas onde
as discussões e divergências tendiam a ser muito mais profundas, mas sem essa
leviandade. O comentário, logo após o acidente, era isso mesmo: leviano.
Me assustei, porque noutro dia a
tralha continuou. Sob o manto de que nenhuma das hipóteses pode ser afastada,
voltou a maledicência de que podia ter ocorrido uma ação criminosa, pensada,
planejada e que, obviamente, o único interessado nesta perversão seriam os
petistas. Onde foi que erramos, para levar o debate político para este lodaçal
sem fim, esse esgoto, esta lama de argumentação? Por que tanta raiva embutida
numa disputa política? Mas antes que pudesse me solidarizar com os petistas,
pronto: o lodo é pântano, mesmo. Porque muitos simplesmente começam a cantilena
de defesa por simplesmente atacar o Aécio, sabe se lá por qual razão. E o
importante tema das pistas de pouso passa a ser tratado como argumento de
descarga, de latrina, como se uma cousa – o acidente aéreo – se vinculasse a
outra.
O que mais me deixa perplexo, e
este gosto acre de tudo, é que ninguém em nenhum dos dois lados acenda um
cachimbo da paz, faça um gesto real de solidariedade, coloque as cousas nos
eixos, freie a turba e os argumentos absolutamente ensandecidos. E que todos os
graúdos simplesmente finjam ignorar que nós, os peixes pequeninos do lodo,
estamos a barbarizar a lógica, o senso, a convivência possível, a inteligência,
em nome da “disputa” política.
Não há ética, dirão alguns. Sei
lá... não há é a leitura desta perigosa combustão que estamos a fomentar. Um
caldo de intolerância, de preconceito, de irritabilidade, de pólvora inútil. E ontem,
quando a emoção e o luto começavam a dar tratos a bola, trazendo um pouco esta bruxa,
a razão, pronto: Vaiam a presidente, a chamam de culpada pela morte, clamam
justiça. E o silêncio oportunista de quem observa o fato com olhos de pesquisa.
E o contra-ataque, logo na sequência, naquelas rasteiras inimagináveis até para
o mais troglodita dos beques de fazenda, começa a fazer uma crítica de “sommelier”
de velório, passando uma descompostura na candidata Marina porque ela “sorriu”...
E segue o argumento. Enquanto uma
sorria, o ex presidente... chorava. E fazem a mistura abominável do transe com
o desejo, e cobram a suposta alegria de uma em contraste com a tristeza de bem
do outro. Num fora de propósito, num desconexo, num golpe baixo. O sorriso, evidentemente
tinha um contexto - deixemos de lado esse purismo do sofrer, onde quem vela tem
a obrigação moral do choro. E a tristeza
do ex presidente foi real, sim, legítima:
Perdeu alguém com quem convivia, com quem trocava ideias, com quem frequentava
casas.
Ora, ora, ora... basta deste jogo
hipócrita de querer transformar gentes em santidades ou demônios. Nem ela,
Marina. Nem ele, Lula. Nem Dilma. Nem ninguém.
Aliás, a foto em que o presidente
Lula tem nos braços o filho mais novo de Campos, ao lado de Renata Campos, a
viúva, tem ao fundo José Serra. Sim, Serra, o adversário predileto dos
petistas. E a foto transpira a consternação real dos dois políticos. Mostra que
existem situações em que a disputa política fica num segundo plano. Evidencia que
existem ali seres humanos, que erram, que choram, que acertam, que planejam,
que fazem conspirações, que dão sorrisos, que andam, que bebem e, notem só, que
espanto, respiram. A foto revela, sim, que pode existir uma ética, respeito e
menos chutes no pescoço.
No fundo, eu é que estou anacrônico
mesmo. Devo acreditar numa leveza que não cabe mais nestes tempos instantâneos,
nessas redes sociais. Afinal, não há interlocutores, que podem ter suas
opiniões, sua história, suas ideias, seus afetos. O que há é a necessidade da
minha opinião ser gritada mais alto e alto, amplificada em likes múltiplos. Convenço
pelo grito, este maldito, quando fora da canção.
É... num tem mais canção.
lista para a despensa
banca de jornal,
política na quitanda
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Sem mais silêncios...
A
escalada do absurdo no Rio de Janeiro, e em SP - Hideki e Rafael
continuam presos -, precisa de uma intervenção direta do governo federal
e das instituições do judiciário, dos órgãos de classe e de
representação.
Há um entendimento disseminado entre muita gente de que os protestos de junho e os protestos contra a copa perderam a mão. Se perderam e na violência encontraram o inevitável desacordo que esvazia multidões, pelo medo e pelo distanciamento.
Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, bem diferente. Ao dar de ombros para a violência de estado, em primeiro das forças policiais e agora das estruturas do poder judiciário, boa parte dessa gente que ficou ressentida, magoada, perplexa ou apenas discordou do rumo que uma parte das manifestações e dos ativistas tomou, estamos criando um cenário muito ruim, de autoritarismo como única resposta possível a qualquer tipo de dissenso.
Cobro do governo federal uma postura mais firme e incisiva porque a questão é, antes de tudo, política. Foi não condenar a violência do estado um dos motivos para que este descalabro acontecesse. Porque a mentalidade policialesca é binária - ora, se precisam da gente para segurar a turba não podem condenar nossos métodos. Não é assim, não pode ser assim.
Cobro do governo federal porque foi este governo, na verdade começou com o antecessor, do mesmo partido e com as mesmas orientações políticas gerais, que mandou o exército "garantir" a paz em Belo Monte e Jirau. Foi este governo que optou por demonstrações de força ao invés do diálogo. Sim, é verdade, o diálogo cansa, faz as obras patinarem, rompe cronogramas. Mas a história colocava os petistas num outro front, que não o da criminalização de lutas e reivindicações. Os presos em Belo Monte são o primeiro sinal de que algo desandaria. Desandou, desandou bem.
Cobro do governo federal porque o Ministro de Estado da Justiça tem um histórico importante de militante político pelos direitos humanos e na defesa de procedimentos com base nos princípios da ampla defesa e do devido processo legal, que não podem ser encarados por nenhum jurista, advogado, estudante, estagiário, juiz ou promotor como mera filigrana, como entrave ao desenvolvimento, como obstáculo. O silêncio de José Eduardo, até porque eu militei com ele em SP, é assustadoramente conveniente e covarde e me decepciona, muito, mais uma vez.
Cobro do governo federal porque não enxergo nem em Alckmin em SP, nem em Cabral e seu sucessor no Rio nenhuma capacidade de interlocução e ação diferentes. Esses governos fomentam o estado policialesco e são cúmplices desta perversão. Ademais, a fraqueza, a tibieza e a postura nariz empinada do PSDB de SP deixou que estruturas paralelas de poder se redrudescerem: a polícia e o crime organizado, simbolizado paradigmaticamente no PCC, essencialmente, são dois estados paralelos.
As instituições como a OAB - que já se manifestou, mas muito timidamente - o Conselho do Ministério Público, o CNJ também devem se posicionar. Sim, algum tipo de movimentação do governo federal fortaleceria este tipo de iniciativa. É necessário.
Não se pode silenciar porque o pleito eleitoral está logo ali, batendo na porta. Esta mesquinharia eleitoral com efeito deletério pode até lograr êxito na urna, no votinho. Mas nos inviabiliza como sociedade. Como no poema de Brecht, pode ser tarde o dia em que tivermos que gritar:
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”
É isso. Não é a copa. Nunca foi.
Há um entendimento disseminado entre muita gente de que os protestos de junho e os protestos contra a copa perderam a mão. Se perderam e na violência encontraram o inevitável desacordo que esvazia multidões, pelo medo e pelo distanciamento.
Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, bem diferente. Ao dar de ombros para a violência de estado, em primeiro das forças policiais e agora das estruturas do poder judiciário, boa parte dessa gente que ficou ressentida, magoada, perplexa ou apenas discordou do rumo que uma parte das manifestações e dos ativistas tomou, estamos criando um cenário muito ruim, de autoritarismo como única resposta possível a qualquer tipo de dissenso.
Cobro do governo federal uma postura mais firme e incisiva porque a questão é, antes de tudo, política. Foi não condenar a violência do estado um dos motivos para que este descalabro acontecesse. Porque a mentalidade policialesca é binária - ora, se precisam da gente para segurar a turba não podem condenar nossos métodos. Não é assim, não pode ser assim.
Cobro do governo federal porque foi este governo, na verdade começou com o antecessor, do mesmo partido e com as mesmas orientações políticas gerais, que mandou o exército "garantir" a paz em Belo Monte e Jirau. Foi este governo que optou por demonstrações de força ao invés do diálogo. Sim, é verdade, o diálogo cansa, faz as obras patinarem, rompe cronogramas. Mas a história colocava os petistas num outro front, que não o da criminalização de lutas e reivindicações. Os presos em Belo Monte são o primeiro sinal de que algo desandaria. Desandou, desandou bem.
Cobro do governo federal porque o Ministro de Estado da Justiça tem um histórico importante de militante político pelos direitos humanos e na defesa de procedimentos com base nos princípios da ampla defesa e do devido processo legal, que não podem ser encarados por nenhum jurista, advogado, estudante, estagiário, juiz ou promotor como mera filigrana, como entrave ao desenvolvimento, como obstáculo. O silêncio de José Eduardo, até porque eu militei com ele em SP, é assustadoramente conveniente e covarde e me decepciona, muito, mais uma vez.
Cobro do governo federal porque não enxergo nem em Alckmin em SP, nem em Cabral e seu sucessor no Rio nenhuma capacidade de interlocução e ação diferentes. Esses governos fomentam o estado policialesco e são cúmplices desta perversão. Ademais, a fraqueza, a tibieza e a postura nariz empinada do PSDB de SP deixou que estruturas paralelas de poder se redrudescerem: a polícia e o crime organizado, simbolizado paradigmaticamente no PCC, essencialmente, são dois estados paralelos.
As instituições como a OAB - que já se manifestou, mas muito timidamente - o Conselho do Ministério Público, o CNJ também devem se posicionar. Sim, algum tipo de movimentação do governo federal fortaleceria este tipo de iniciativa. É necessário.
Não se pode silenciar porque o pleito eleitoral está logo ali, batendo na porta. Esta mesquinharia eleitoral com efeito deletério pode até lograr êxito na urna, no votinho. Mas nos inviabiliza como sociedade. Como no poema de Brecht, pode ser tarde o dia em que tivermos que gritar:
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”
É isso. Não é a copa. Nunca foi.
lista para a despensa
banca de jornal,
política na quitanda
domingo, 25 de maio de 2014
Vai ter copa, mas já não teve.
Minha
paixão por copa do mundo data de antes de Raí. Bem antes. Minha
primeira memória afetiva de copa é na Vila Matilde, rádio de pilha
da cozinha da vó, tios Sergio e Celso e
um gol do Dinamite. Hoje sei que o gol foi contra a Áustria e
classificou o time de Coutinho na bacia das almas para a segunda fase
do torneio argentino. Na época devia entender bulhufas.
Lembro
também do povo na casa da vó Teresa torcendo contra a Argentina na
final, porque por lá uma tal ditadura comia solta e a Holanda era um
time legal. Por mim, não. Gostava do nome "Kempes" e de
"Ardiles", que me lembrava ardido. Torci pela Argentina.
Soubesse do mundo, talvez não.
Mas
o encanto, mesmo, arrebatador, foi em 1982. Na verdade, o mundial da
Espanha é o único que existiu. Tudo depois foi mero simulacro,
invenção. Valdir, Leandro, Oscar, Luisinho e Junior, Falcão,
Sócrates, Cerezo e Zico, Éder e Chulapa. E Paulo Sérgio, Edivaldo,
Juninho, Edinho e Pedrinho, Batista, Renato Pé Murcho, Paulo
Isidoro, Dirceuzinho, Dinamite. E Carlos, terceiro goleiro. E Telê.
E Careca cortado, machucado. Daquela copa guardo memórias infindas,
cheiros, gostos, choro. Muito choro. Zoff até hoje é carrasco.
Aquela bola do Oscar tinha que entrar, tinha, tinha... Paolo Rossi...
nem me fale.
Mas
é a copa do goleiro Arzur de Honduras. Do jogo do Kuwait que o
sheique tirou o time de campo. Da partida que nunc acabou, França e
Alemanha. De Tresor. Dos Camarões de Roger Milla e Nkono. De Dasaev.
Enfim, tudo como se fosse ontem mesmo. Até aquele maldito apito
final no Sarriá.
Gosto
de Copa. Mais, muito mais, do que gosto dos times do Brasil. Destes,
confesso, meu último foi o de 90. E em 2002 tive alguma simpatia. E
em 2006 um único flash, quando Rogério foi para o gol no jogo
contra o Japão. Mas de copa... ah... de copa eu gosto. Gosto de
pensar os jogos, de narrá-los antes e depois. De fazer jornadas
esportivas em rádios imaginários onde eu sou comentarista e
narrador. Gosto do riscado todo. De saber dos times, dos países, dos
craques. Das torcidas, roupas, coloridos, holandesas, suecas,
dinamarquesas, camaronesas.
E
por isso vivo contradições com a copa aqui no Brasil. Desde o
começo achei que esse lamentável gesto político do governo Lula,
de se atracar na alcova dos negócios com a cartolagem de Teixeira e
Nuzman, e todo o couvert que vinha junto, um enorme, retumbante,
estrondoso equívoco. E mais: um gesto abjeto para agradar
financiadores de campanha e gente que suga o mundo. Porque aquele
sonho de moleque, a copa aqui no quintal, foi transformado numa
imensa festa de gosto duvidoso, de gente de smoking e summer, caras
fétidas e cifras astronômicas. No fundo, bem no fundo, o lulismo
foi isso: um triturador de sonhos e de boas ideias em nome das
conciliações "do possível". Para continuar a festa do
andar de cima, um pacto de classes onde pé e bunda permaneçam no
mesmo local de sempre.
A
organização da copa foi um triste espetáculo de farras e orgias
com grana e miserê. Em nome da tal copa gente foi removida, obras de
arte foram erguidas, orçamentos se multiplicaram. Na ambição
inicial era a Copa o momento de afirmação dos anos dourados do
Brasil de Lula, a confirmação do brasileiros que não desistem
nunca, a glória da nação forjada a conquistar seu lugar no panteão
do G8, G9, G10. Mas para tanto era necessário, imprescindível até,
que se enfrentasse determinadas questões chave de nosso desenho
social. As empreiteiras teriam que seguir um cronograma rígido, para
que obras e estádios fossem entregues em bom tempo e bom estado.
Para isso era imperioso exercer o poder de fiscalização e de
gestão, penalizando empresas, cobrando projetos, exigindo
compromissos. E aí a singela esperança de que isso ocorreria
independentemente de confronto gerou este estado catatônico, que
mescla atrasos, incompreensões, dados fora de foco e da realidade do
país. Gente removida por nada, por obras que nem prontas estarão.
Erros de planejamento. Benesses para os de sempre e, pior, sem
nenhuma exigência. As empreiteiras sorriem. Mas os empresários,
patrocinadores, a tal da FIFA sorriem bonito, fartos, comendo com
opulência pratos de caviar e fígado - de ganso e os nossos.
Era
a hora de ter exigido que a seleção brasileira jogasse aqui. O
futebol define o país, é um dos elementos mais bonitos que forjam
nosso país. A identificação com a seleção seria vital para que
este processo de construção de estima, de elevá-la, fosse
concretizado. Não é errado dizer que aqui, um país novo, com uma
história oficial que infelizmente ignora o período anterior à
dominação e exploração colonial, o futebol é um elemento chave
da cultura. Nossos heróis são Leônidas, Mané, Didi. Mas para essa
gente que pensa em cifras e babados isso pouco importa. E lá vai a
"canarinho" jogar no "Emirates Stadium", nos
Estados Unidos, na Suécia, na sei lá onde, um circo exaltação
para gringo ver. Aqui, só pela televisão. E ainda por cima só numa
televisão, porque não se pensou, ao menos durante a organização
do mundial, nos jogos e amistosos do Brasil serem transmitidos por
emissoras públicas, sem monopólios. Afinal, para quê comprar essa
briga?
A
copa foi um erro miserável. Um golpe de punhal nas costas. Uma
traição. O mal estar que a copa vai causar, e já causou, destroça
esperanças e expectativas daquele Brasil que o lulismo fazia crer
ter chegado a hora. Não sei se os slogans de "não vai ter
copa" estão errados ou certos, porque não dialogam com a
alternativas outras que não o da não realização, mas sei que o
mal estar, o incômodo, o gosto acre, estão aí. Nem bolões, nem
decorações bonitas e coloridas, nem pagodes estamos a fazer com
entusiasmo. É tudo um borocoxô de banzo, saudade de algo que não
tivemos.
Vai
ter copa, sim. E provavelmente vai ser legal. Não pelo Brasil
seleção nem pela organização. Mas porque os jogos de copa são
assim, pequenas histórias, epopeias, jornadas. Quem viu Uruguai e
Gana na última copa sabe disso, com aquelas belezas que emocionam. E
nunca, nunquinha, a questão central é torcer ou não pelo time
Brasil ou da CBF. Isso é bobagem. A seleção emociona a quem quiser
se emocionar. Se jogar bem, então, onde bem e bonito são sinônimos,
aumentam as chances de adesão.
A
questão, infelizmente, é outra. E me parece que Ronaldo, o
fenômeno, dá todas as cartas e pistas. Numa daquelas demonstrações
colossais de maucaratismo com oportunismo, ele, organizador da copa
no país, sai a atirar no governo federal pelos erros e atrasos em
obras, olhando com tesão para um dos candidatos da oposição. O
governo federal que escolheu Ronaldo como interlocutor do governo na
organização da copa fica a se defender, torcendo para que o lance
do craque não dê carta na manga alheia. E a empreiteira, feliz,
sorri, na transmissão exclusiva da rede de televisão da novela das
oito - que passa a dez da noite... - com a cerveja multinacionalesca
paga no cartão de crédito do bancão que mais cresceu no mundo. A
FIFA divulga balanço: nunca dantes na história das copas faturou
tanto.
Vai
ter copa. Mas já não teve.... não teve.
lista para a despensa
banca de jornal,
política na quitanda
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