sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Etmologias Lisérgicas II

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Um Conto Vulgar de Palavras Molhadas


Começaram a trocar palavras. Sussurros. E as palavras sabemos tem sabores, cores, cheiros, texturas. Como a pele, o beijo, o sexo, o calor e a noite. As palavras iam revelando intenções óbvias, mas o vagar e as letras iam conspirando, transpirando, elevando.


Das palavras usuais, do mel, do belo e do doce, e das carícias aos ouvidos. Do copo de água para matar a sede. A outra sede. Fluíam vontades entremeadas com fluídos ainda presentes, molhados, úmidos nas roupas de cama amassadas e desnorteadas.


Escapavam gemidos, grunhidos, arranhões e pequenos toques. E palavras nada sutis de elogio ao falo, à vulva, aos lábios todos. Todas as palavras se encaixando como o leito, o feito, o nexo, a fala, o tato. E nessas horas as palavras têm cheiros diversos, todos, entretanto, com o mesmo significado, a mesma linguagem e a tara crescente, de um pelo outro. Ou de outra, pelo um.


E as palavras seguiam o seu jogo de arrepiar peles, inebriar sabores, incendiar ambientes. E as semânticas mais simples se transformavam em objetos eróticos, daquela sanha evidente, latente, pulsante. E madeiras firmes e pequenas caixinhas de rapé molhadas vão se intercalando, abraçando, tomando gosto e ganhando uma saborosa vulgaridade, de sentidos léxicos e saliva na boca, ressecadas.


E assim deixam de ser meras palavras para serem atos, descrições, sentidos. Como um figo aberto, escancarado, sorvido, deleite. Ou uma banana rija que cresce em sabor, vigor, bojuda. E assim vão as palavras a participar do rito, borrifando pingos de suor e outros líquidos, todos juntos. Respiração.


Já não há mais palavras ditas, roupas e regras. Mas como num dicionário ou num livro de gramática, degustamos perfeitamente as frases, as orações coordenadas, os substantivos, os adjetivos e advérbios, esses matreiros conectores criando elos entre vocábulos imperfeitos. Silêncio, só os arfares. E deu para escutar um último verbo, conjugado no pretérito, antes do fim do conto...

4 comentários:

Eliana Klas disse...

Quase guardo meu comentário para mim, mas... lá vai:

Palavras e frutas!Combinação perfeita para descrever o desejo!

Abraço!

Vanessa disse...

TeXtos-terona?

o amnésico disse...

Lisergias eróticas a parte: arf! arf!

Lucia disse...

sensualidade sem cair no comum... belo texto!

"...Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais."
Drummond