segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quarentenas de casa


Caçulê tem sido o nosso termômetro. Sim, a guia e o farol da casa em quarentena. É ela que mais impactada pela mudança de rotina e pelas restrições: de sair na rua, de brincar na escola, de abraçar a prima. E é ela que demanda nossas atenções, para brincar, para comer, para ajudar nas coisas do dia a dia.


A paixão dela pelos irmãos, mais velhos, que passam semana sim semana não em casa, revela um tipo de relação fraternal nova para todos nós. Que vai da admiração, que vai do querer brincar, que disputa espaço, que brinca e joga entre cartas de Uno e diferenças de idade e percepções. Mas que quer o abraço, a companhia, a piada - sim, ela e eles se cutucam, "piadam-se" entre si, se irritam e, evidentemente, nos irritam. Ela ainda grita e chora, ocupa seus espaços e demonstra sua lamúria deste jeito, estridente.


Ela talvez tenha sido a primeira a entender o extraordinário - não no sentido de algo fantástico, maravilhoso, estupendo, mas no sentido de raro, de mudança, de quebra de rotina e de paradigma. É ela que demonstra impossível ter atividades escolares à distância dentro de uma rotina normal. Ela não quer e não fica na frente da tela. Identificou ali uma condição que depende de sua vontade, do seu desejo - assiste os vídeos que a escola manda quando lhe dá na veneta. Interage com os amigos e amigas de escola do jeito que dá e não finge que tá tudo bem quando não escuta pelo áudio completo e entrecortado as vozes de professora e dos colegas. Tem a sinceridade cortante das crianças. E inventa histórias.


Ela brinca o tempo todo? Não. Já fui filho, vô, o João e o Mateus, o Marshall da Patrulha Canina. A mãe... a mãe já foi filha, vó, irmã, princesa Léia. Ela? Ela já foi mãe, filha, a tia Lu ou a tia Carol,a mulher maravilha e a Corujita. Sua amiga imaginária - sim, ela tem uma amiga imaginária muito presente, a Saíga, apronta bastante e zoneia a casa e nunca arruma a bagunça.


Embora cozinhemos muitas coisas entre panelinhas e fogão de plástico, embora faça da mesa de canto um imenso supermercado e mie como gata, Caçulê as vezes está de mau humor. Sim, brava, irritadiça, não mexa comigo. E as vezes só quer ver tv, só isso. Só isso.


Puxa, entender esse "só"... as vezes - sempre - é tão difícil para nós, né?


E ontem, abraçada com a mãe numa dessas rotinas, olhou para ela e disse, com os olhos marejados: "Eu quero abraçar alguém."


"Quem filha?", perguntamos.


"Qualquer um, na rua, mãe. Que não a gente aqui de casa.".


Tem uma tristeza aqui. Misturada com uma beleza infinita. A menina, na quarentena, descobriu o mundo antes que nós.




quarta-feira, 6 de maio de 2020

Receita de Lasanha de Abobrinha com Abraço




Não teria a mais pálida dúvida, caso me questionassem o que mais me faz falta nesta quarentena. Enquanto pego as abobrinhas na geladeira. Quatro, bonitas, formosas, naquele verde e branco da casca. Penso nos abraços. Em dar e receber. Lembro de minha mãe. Ela, ali, na casa dela. Sozinha, com meu pai. Ela que sempre gostou, estimulou, quer e dá abraços. E faz uma lasanha de abobrinha que maravilhas.

Não sei porque tive medo de cozinhar, por muito tempo. A gente pode chamar de preguiça, a gente pode dar nome de inexperiência ou falta de conhecimento. Mas, no fundo, é medo. Medo de se queimar, medo de não acabar bem a receita, de chamuscar, de ficar cru, de ficar com gosto ruim. Medo, talvez, das comparações. Perguntei para ela, a receita. Me espantei que a abobrinha não era refogada nesta receita. "Não precisa refogar?". Desde que comecei a cozinhar com alguma regularidade, sem muito medo, e muito muito muitíssimo por causa dos meninos, adoro a arte do refogar: não há no mundo aroma comparável ao alho, à cebola, ao azeite, ao tomate "burburando" numa panela. E tem aquele segredo da minha mãe, de comprar a abobrinha já fatiada... Bem que tentei, mas não tinham as fatiadas. Cortei, de grosso modo, o único que conheço. "Deixe com as cascas", ela me avisou. Sim, com as cascas.

Minha mãe tem a mania do abraço. Acho que herdei dela. Acho? Herdei, né. A terapia faz a gente reconhecer certos traços e laços. Essa coisa de cortar legumes, cebola, alho, sempre me assusta. Tem uma expertise fantástica, em que as fatias são finas, por igual, quase desenhadas. Os meus cortes são caóticos, são gumes tortos, talos, taludes, desmanches. Mas já adotei a expressão "corte grosseiro" quando explico as receitas. A única regra, desconfio, para a lasanha, é cortar no sentido horizontal, para que as fatias sejam longas, como filetes. Minha mãe não disse, mas eu passei um pouco de azeite na travessa que ia ao forno, antes de fazer a primeira camada de abobrinhas fatiadas.

Os meninos gostam de me pedir "abraços quebra costela". Assim como meu afilhado, saudade de abraçar meu afilhado. Minha mãe gosta daqueles abraços mais demorados. Eu também, eu também. E de dormir nos braços, do meu pai, como fazia quando menino. A primeira camada ficou bonita. Embora irregular. As fatias, disformes. Passei um fiozinho de azeite sobre elas e um pouco de sal. A Renata, minha companheira, mãe da menina, tinha feito um molho estupendo a bolonhesa para um macarrão no domingo. E tinha feito em grande quantidade, para que pudéssemos usar noutros dias nesta quarentena. Abri a geladeira, o pote de sorvete com o molho estava lá. Experimentei. Que bonito. Abracei, mas daqueles abraços mais sacanas. Aliás, os abraços tem estas qualidades, né? Conforto, saudade, amizade, bem querer, mas também, outras vezes, sacana, provocação, porto, despedida, parto.

Desfilei uma primeira camada do molho sobre as abobrinhas. Com um colher, espalhei. Este espalhar... Depois, uma camada de muzzarela, outra de presunto, outra camada de abobrinhas por cima. Mais um fiozinho de azeite, mais um cadinho de sal. Mais muzzarela - o que sobrou, mais presunto - o que sobrou. E aí não vestiu por completo as fatias. Sobras, aqui e ali, de abobrinhas nuas. Mais molho, o restante do bolonhesa. Distribuído para cobrir tudo. Queijo ralado. E papel alumínio, do lado que brilha para a comida. Afinal, ela é a estrela.

Forno, já meio aquecido, travessa nele. Mais de 180, menos de 200. Um abraço aquece. Abraços aquecem. Depois de meia hora, o cheiro pela cozinha, esses aromas de vida, e aquele borbulhar da travessa. Tira o papel alumínio, deixa mais um pouco. Espera aquele queijo ralado que vai por cima dar uma espécie de gratinada no lance. Um lance. A comida é um lance com a gente mesmo, penso. Lance, romance, transa, papo, acolhe. Escolho um disco, ponho para tocar no celular.

E um abraço. Ficou divina, confesso.




sábado, 18 de abril de 2020

Outros outonos virão


O pior de tudo, de tudo mesmo, é que esta vivência de morte e de obscurantismo que temos na canalhocracia de Bolsonaro nos desalimenta, nos desalinha, nos desespera.

Imagino o quão imbecis, esfericamente imbecis, são estes que saem em "carreata" para fazer coro ao idiota que ocupa o cargo de presidente da república. Ou, ainda, aquele cretinismo basculante de quem até picolé faz de cloriquina, como uma dádiva ou cousa assim.

Mas cretinos e os imbecis estão vencendo. Porque é muito perturbador enfrentar o obscurantismo. Onde queremos um pingo de razão ou lucidez temos um coquetel de raiva, rancores, ressentimentos e de um exercício de narcisismo entre o patético e o doentio. É broca, muito.

Porque todos estamos preocupados, todos. Com o vírus, com a doença, com os hospitais cheios, com a morte. E com a crise, com o desemprego, com a pauperização, com o aumento da violência. Só um canalha de alta patente para colocar estes sentimentos e sensações como antagônicas. Só um canalha. Este antagonismo, construído, forjado, malcriado é prova da total incapacidade do atual presidente - e, infeliz e morbidamente, de seu séquito e de boa parte de seus eleitores - de ter sentimentos como empatia, solidariedade, reconhecimento do outro. Só o que vale é a própria opinião e que se fodam-se os outros, os "inimigos", os "opositores".

Estamos num breu. Total. Porque nesta lógica de morte, qualquer movimento vira instrumento para mais mentiras, mais manipulações grosseiras, mais violência verbal, corporal e de perdigotos. E vem um sentimento de solidão, de travo, de azia. Mas temos que nos movimentar. Antes que seja tarde - e me parece tarde, muito tarde. A fratura que se construiu na sociedade brasileira pode ser que não tenha mais tala que cole.

De novo, divergências de opinião, leituras diferentes e proposição de saídas diferentes e múltiplas, são naturais, são essenciais. O que não é tolerável é esta perversão no trato, no discurso, na prática - esta perversão é canalha.

Eu escreveria, por fim, que tá osso. Mas seria de um pessimismo atroz. Também precisamos de algum afeto e de algum movimento de esperança ou de amor - palavrinhas que ficam meio tontas neste quadro todo de horror. Deixo então o meu mais forte abraço a quem chegou até aqui. Um abraço demorado, com gosto de sol em fim de tarde num outono qualquer.

Vai passar, camaradas.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Acalento


O que causa enorme desalento - e, poucas vezes uma palavra pôde definir tanto - é acordar para frear desejos: o do abraço, o do café na esquina, o do beijo, o da caminhada, o do flerte, o oi cuspido. Mas é muito mais pensar naquilo que poderíamos e não seremos. A derrota é a da empatia, da solidariedade, da razão e da fé, no ser humano - essencialmente.

As ruas estão se enchendo. Os “isolamentos” estão se afrouxando. Mas notem, o que se afrouxa é para dar resposta a alguma questão individual, egoísta ou de sobrevivência, manipulada por um discurso doente que separa a sociedade, que lhe tira o viço e lhe coloca a focinheira do medo.

Todos estamos com medo. Um dos conceitos mais importantes na psicanálise é o do desamparo. Das caraminholas que inventamos e criamos para dar tratos ao desamparo, uma sensação de desconforto, de temor, de solidão e das questões todas que brotam quando em desalinho. Talvez não tenhamos tantos subsídios, entretanto, para enfrentar o desalento.

Ninguém que está indo para a rua, rompendo a política de isolamento social, está fugindo de suas solidões, assim, no plural mesmo. Se vai para a rua sozinho, solitário, em solidão e com medo, uma falsa coragem. É interessante este paradoxo: hoje, para combater a solidão, é preciso estar só. O isolamento é, no frigir do ovo, uma política que tenta adiar a solidão, evitar o contágio de um vírus que promete não só a letalidade, mas, sobretudo, a velocidade dos dias atuais, da modernidade, do capital, do tudo para ontem.

Daí, o desalento. Sim, tem desamparo. Mas quando se elabora o desamparo, quando se acessa os instrumentos para encarar este desafio que nasce quando a gente nasce, temos a sensação fria e cortante da rua repleta de gente, sozinha, solitária, egoísta - no sentido mais do perverso do que do narcísico.

É o desalento.

Enquanto deveríamos estar gestando, pensando, sonhando formas possíveis de novos tecidos sociais, de vida, de trabalho, de solidariedade, de enfrentar as fomes diversas, estamos sendo jogados e tragados pela patologização do normal, tentando manter uma normalidade tóxica, que exige de nós a solidão da sobrevivência.

Todo mundo tem que seguir adiante. Pode ser, mas não deixa de ser desalentador este acelerar inexorável do tempo, que transforma o tempo em objeto para consumo imediato. Logo o tempo, esse estado que podia ser dos desejos, das delicadezas, daquilo que nos faz gente.