Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Conjugar o Verbo Crispar

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Gosto de tecer tua métrica. Não só os versos, mas o bailado todo. Que começa com teus olhares furtivos e termina, invariavelmente, com teus olhos cerrados. Gosto da métrica como se fosse fita, centímetro em centímetro, deslizes, matrizes de devaneios que sempre acabam com a imagem de tua pele arrepiada, ouriçada em sentimento e vontade.


A métrica pode ser o desejo, o lampejo, o pulsar, o querer, o versar, o invadir, penetrar, consumir. Podem ser simples mãos dadas ou complexas engenharias em beiras de estrado. Quem nunca ouviu um sussurro, um gemido, um pedido? E nisso os versos se confundem com cheiros, perfumes de corpo, de botica e de sexo. Cheiros insubstituíveis, como métricas. Como versos.


Escrever assim remete à métrica. Ao verso composto em duas vozes, em formas, curvas, desvios, fluxos e dentes. Unhas. Enfim, nessa métrica livre, a única regra é a regra mais simples e objetiva, a de rimar gostar gotejar solfejar. Escrever assim poderia ser canto, encanto, afago, doce, amargo ou qualquer dessas coisas que transpiram nesses sentimentos sortidos.


E as regras da boa métrica poderiam ser classificadas como ousadias necessárias para um bom poema. E nesse ritmo, toada, melodia, arrebata a sensação de que nunca mais seremos serenos, tranqüilos, exatos. Portanto, de hoje em diante, estabelecemos um único regulamento necessário e talvez indizível: As roupas ficam no cabide ou no chão, porque a respiração aquiesce e aquece, e rimam.



09. maio.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Outro texto publicado nos Bolonistas...


http://osbolonistas.zip.net/arch2008-04-01_2008-04-30.html#2008_04-04_18_05_02-2402205-25


Mais um daquela série de pequenas histórias de futebol.


Gosto destes textos.

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Mistérios da Mente Humana


Bolonistas gratos e os outros...


Ela torce para o Pelotas, a ingrata. A desculpa esfarrapada, e a ingrata não sabe o que é uma bola de futebol, é que o pai, os irmãos, os tios e os primos todos são torcedores daquele time de lá. Aquela coisa. A ingrata não sabe o que é um impedimento, desconhece a regra três, não sabe o que é linha de fundo, mas é Pelotas. Bem feito, a ingrata está na segunda divisão.


Fui eu que a levei, pela primeira vez, para ver Fellini. Ela chorou tanto ao fim de Amarcord que eu nem pude disfarçar o desconforto. “É uma obra de arte”, lacrimejava. A ingrata depois disso foi estudar roteiro, fotografia, história da arte e acabou se formando em cinema, Nova Iorque. E está com a corda toda nessas revistas especializadas.


E nossa viagem para Montevidéu? A ingrata esqueceu que fui eu que a levei ao tango, ao vinho chileno, ao alfajor argentino. E ainda fomos curtir as férias na Praia Mole. Ingrata, esqueceu Cuzco, as Cordilheiras, Arequipa e Lisboa. Se ao menos fosse Farroupilha, vá lá. Pelotas. Pelotas, minha mãe!


A cidade tem três times. Três. O xavante, o querido e heróico Brasil, o nome de nossa paixão. O Farroupilha, e aquele caneco de 35. E aquela outra coisa, amarela. Ela tinha que escolher justo a opção do juízo final? Ingrata. E eu que sempre me perguntava quais as razões dela nunca vestir aquele tubinho preto com laçarotes vermelhos... Era por causa do Brasil. Ingrata. Mil vezes.


A ingratidão crassa. Campeia. Dilacera. Ingrata é o que ela é.


“Cubillas!!! Cubillas!!!!”


Tenho que ir. Ela me chama. Temos que pegar os dois na escola. Mas acho que vou convidá-la, pela última vez, para ver o Xavante e Internacional, lá no Bento de Freitas. É a última vez, juro. De pé junto. Ela fica linda com esse vestido azul...


08. abril, 04.

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Gautier

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Em desalinho.

Desencanto.

Em um canto.

Qualquer. Me alinho.

Pisadas feias.

Esteticamente inúteis.

Enfim, quem foi que disse

Que a meia devia combinar com o sapato?




09.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Dois para lá...

A crise e a música cubana


É difícil imaginar situação mais estranha do que aquela. Escrevia loucamente mais um parágrafo de textos insanos sobre a crise mundial. A cada minuto e a cada segundo queria escrever mais. Queria que alguém soubesse que o que ele acha da crise, o que ele acha desta rotina sufocante dos que buscam o sucesso, da usura, dos bancos, da governabilidade, do caos.


Escrevia com uma compulsão que fazia os botões do teclado do computador pularem de raiva. E diversos impropérios lhe tomaram de assalto e teve ganas de colocar no texto xingamentos a todos aqueles que fizeram do seu sonho mero desencanto. Escrevia com toques rápidos e as letras se misturavam numa algazarra que mais demonstrava o seu estado de ânimo do que as idéias que tinha naquele momento. Não eram idéias, definitivamente. Eram desafogo, descarrego e aflição.


Emputecia-se, e com palavrão definia com exatidão o sentimento atroz que lhe consumia o fígado, com as justificativas fáceis para matar as velhas canções das praças e os antigos quereres de vermelho. E jorravam letras e mais letras que teciam as mais virulentas críticas para a excomunhão de alguns lúcidos. Era uma febre e as palavras saltavam para a tela do computador com uma velocidade de alívio. Transpirava ofegante e sentia uma espécie de entorpecer. Que ninguém fosse ler, mas desopilava tudo. Como um vômito feroz. Como uma vertigem alucinante.


Já não tinha mais certeza de quantas horas passara ali na frente daquele computador, destilando toda aquela toxina que corroia as vísceras.


Respirou, enfim, aliviado, se levantou e foi ao baile dançar com ela. Tocava um bolero, os passos são mais fáceis para os iniciantes.

09.março.

Terça-feira, 17 de Março de 2009

Sabotagens da Madrugada

A insônia é uma coisa cruel...

E quando martela, martela.

Este texto é culpa dela. Achei ruim, fraco, teimoso. Mas não me livro dele. Martela...



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Amendoim também tem a letra N...


Repita e escreva sessenta vezes que o pé de moleque é feito de amendoim e que amendoim é escrito com eme de maria e não com ene de navio. Repita e escreva sessenta vezes que o pé de moleque é feito de amendoim e que amendoim é escrito com eme de maria e não com ene de navio. Repita, e escreva sessenta vezes, que o pé de moleque é feito de amendoim e que amendoim se escreve com eme de Maria e não com ene, de navio. Repita, e escreva, sessenta vezes, que o pé de moleque é feito de amendoim e que, amendoim, é escrito com a letra ema de Maria e não com a letra ene, de navio.

Tal qual lição de casa e ditado por ter feito coisa feia, ficou lá se martirizando com a idéia infeliz que lhe veio à cabeça. Percebeu que ainda não dominava - apesar dos tantos anos, dos tantos livros, das tantas broncas e dos tantos tantos - a regra da vírgula. A vírgula ainda era tão misteriosa quanto à donzela, tão desconhecida como o oceano profundo e tão distraídos eram seus pensamentos que se confundiu com os pronomes.

E naquela toada horas se passaram. Talvez dia. Com certeza, noite. O caderno todo rabiscado das coisas do amendoim. Sem casca, salgado, torrado. Eram outras coisas que apareciam pela mente fértil, mas cansada. Obsessão. Não conseguia mais sair daquelas linhas e daquela brincadeira com a frase da lousa dita pela professora em alguma janela distante da memória indecifrável. O tempo estava consumido.

Repita e escreva sessenta vezes que o pé do moleque está com amendoim e que amendoim, mesmo com casca, se escreve com a letra M da Maria, que é nome de bolacha, e não com a letra N, de navio. Repetiu e escreveu, bem mais que sessenta vezes.


Ainda assim, depois de tanto esforço inútil, em amendoim, constatou com uma certeza quase mortal: tem N.

09. fevereiro e março.