Sei lá.
_______________________________________
Conjugo, Conjugas, Conjuga...
Resolveu que era tempo de conjugar o verbo saudade. Pegou os velhos livros de gramática e redescobriu as regras mais simples para flexionar tempos verbais. Na primeira pessoa foi possível constatar aromas, sílabas, pequenas caixas de papelão. O sempre difícil pronome tu, com suas regras peculiares, redescoberto entre semblantes, nuca e um bocado de bolo de fubá. E assim foi: pretérito imperfeito e a razão perfeita do verbo.
A lousa verde e o giz branco teciam palavras outras, todas e todas relacionadas ao verbo. Com um avental branco ela declamava poemas ensinando a gramática, a estatística e os substantivos. Tinha a tez arrepiada e a cada novo vocábulo era o verbo, transitivo e direto. Mais que direto.
O verbo saudade não é verbo de cartilha. É mais para cantiga, para saudar, para comer com bolo e uma xícara de café. A fotografia, o verso e o reverso e o barulho incessante da agulha no fim do disco num tremelique da vitrola. Ouviu os pés descalços correndo pela grama molhada e o cheiro de madeira invadiu a sala de aula. Brincou de soldado, derramou tinta no papel e desceu ao rio sem ajuda.
Era mais do que hora do diploma. Do feito. Conjugações outras eram necessárias, desvencilhou-se das lágrimas e correu firme com o olhar a estante. Era mais do que hora doutro verbo. Aprendeu a conjugar o verbo saudade. Mas para respirar era outro. Num suspiro que mais parecia grito, saiu para a rua e dizem que nunca mais voltou.
08. novembro.
2 comentários:
Tem um lugar neste andaime para mim?
Preciso de inspiração,
e este andaime parece dos bons para inspirar...
bj.
Substantivamente superlativo!
Minhas saudações!
Postar um comentário