terça-feira, 3 de março de 2009

Conclusões

Outro dia esta pequena loja de víveres completou um ano...

Espero que venham outros.




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Notas de rodapé



Nunca pensara na vida após a morte. Agora, morria. E teria que pensar vivamente no momento seguinte, no que faria, onde iria, quais palácios visitaria. Nunca pensara porque a morte sempre esteve distante e não exercia fascínio algum. Mas, repentinamente, era a morte. E o depois.


Pensou nas diversas possibilidades que se ofereciam. Nas possibilidades cósmicas, nas possibilidades imateriais. Pensou no ocaso. No fim e nos começos. Sentiu vertigem e foi preciso muito esforço para retomar a linha de pensamento, frágil, que o mantinha vivo. Mas a morte estava anunciada. E seu corpo já não respondia a nada.


Sentiu um gosto acre. E finalmente entendeu tudo. Que deveria ter respondido aos gracejos e aos cantos de amor de Beatriz, naquelas cartas perfumadas com perfume de boneca. Que deveria ter largado o escritório muito tempo antes, antes da gastrite, antes das dores nas costas, antes da crise de abstinência. Entendeu que deveria ter cuidado mais das rosas colombianas que recebia de Clarice. E que o sorvete de tangerina sempre fora o seu preferido. Odiou ter esquecido o protetor solar e se orgulhou de cantarolar a “Internacional” nas noites frias de outro inverno.


Não sentia mais cheiros e enfim percebeu que não restava muita coisa. As lembranças do refogado de tomate e cebola, os cheiros dos vinhos e do cálice de vermute que tanto gostava. O cheiro da manga e do perfume de Gabriela. Fechou os olhos e imaginou se depois da morte ainda poderia sentir cheiros e constatou que esta seria a coisa mais terrível que iria acontecer: Não sentiria mais o cheiro do café.


Fechou os olhos e estava tudo escuro. Últimos suspiros. Pode sentir a areia fina nos pés molhados, o toque de Ana em seu braço e desnudou toda a imagem de Raquel, tudo nela agora lhe era seu. Tudo ficou escuro, mudo e fim. Quis ainda pedir mais uma canção. Não deu.


09. março.

5 comentários:

Ludmila Roumillac disse...

"Não deu." ... E quem disse que a vida é justa...? E quem disse que não é?

humnnnn, adorei!!! Oh, tenho um selo de presente pra vc, tá lá no meu blog na página inicial escrito: selo da casa, é só copiar e colar por aqui se quiser... Bjoooooo

Kika disse...

Eu abri o blog para reclamar que fazia tempo que não lia nada novo aqui... E perdi, com gosto, a chance de encaminhar a minha reclamação. Com gosto!

Eliana Klas disse...

Eu, que acho a morte encantadora, no seu misto de mistério e certeza, (certeza de encontrá-la, mistéiro de onde nos levará)amei o texto.

Cada linha.

Forte abraço.

Renata disse...

Parabéns pelo primeiro ano de vida!
Belo texto de comemoração!
Porém, parece que o blog existe há mais tempo do que um ano...que ele dure muitos outros.

Renata Marques disse...

Muita vida em cada linha, como de costume!