terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A singeleza do voto

Um texto de 2010. Saindo do forno, com cheirinho de pão.


E já contaminado pelo clima eleitoral...



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Ela adorava aquela bunda. Sim, era algo para além do ortodoxo, muito além da simples admiração da beleza. Ele era o dono da bunda e isto costumava deixá-la plenamente satisfeita. De olhar, tocar, namorar. Enfim, era a bunda. E ele nem suspeitava disso. Gostava dela, mas daquele jeito “amiga para as horas difíceis”. Era carinhosa, tarada, falava pouco. Mas, cá entre nós, não tinham muito em comum.


Para ela aquilo era um exercício de fetiche. Não, não era uma sodomita ou cousa do gênero. Mas apreciar o corpo dele lhe agradava muito. E o espelho do teto, nunca o levara para a sua própria casa, era um parceiro silencioso e quente. Sempre tivera suas preferências por homens assim ou assado, mas com ele era absolutamente diferente. Ele não era agradável, necessariamente. Falava muito, para o gosto dela. Era apressado e dormia fácil. Mas ela aprendeu o jeito certo e com ele era feliz. Daquela felicidade efêmera, mas essencial.


O homem da bunda, vamos chamá-lo assim, gostava da companhia dela, mais até do que o hábito lhe recomendava. Era boa companhia para boteco, era ótima ao escolher bons restaurantes e vinhos. Não era pegajosa, escolhia motéis, não queria dormir de “conchinha”. E na cama era um desbunde: Pedia e falava coisas indizíveis noutras ocasiões. Reparou, numa tarde de futebol, que queria a companhia dela mais do que assistir ao restante do jogo monótono da televisão. Questionou, naquelas dúvidas de revista de relacionamento, se deveria ligar num dia como aquele, numa hora como aquela, numa tarde de futebol. “Dane-se”. E ligou.


“Hoje? Não é dia de futebol?”. Pensou, mas não disse. Ela estava no cinema com um amigo. Não ia rolar nada depois, o amigo não gostava daquilo. “Oi... tudo bem?”. “Sim, podemos”. “Mas estou no cinema. Vamos depois naquele boteco ali na Vila”. “O que? Na sua casa?”. Foi um choque. Ela nunca tinha tido a mínima curiosidade em conhecer a casa dele. Pensou no espelho no teto. “Pode ser. Mas mais tarde, estou querendo tomar um chope antes.”. Riu da própria sabedoria. “Ok.”.


Tarde da noite, depois do bar, naquele motel com piscina, sauna e todos esses artefatos de praxe, ele perguntou: “Porque você não quis ir para minha casa?”. Silêncio. A música no quarto era um Caetano, dizendo que ela era linda.


Ela sabia que aquela pergunta era o ponto final, o derradeiro, a saideira, o fim de tudo. Aprumou o rapaz para a última visão no espelho, o da parede, e sem piedade mandou: “Você vota no FHC.”.

10. fevereiro, 02.

4 comentários:

ex-amnésico disse...

A bunda que ela gostava vota no FHC... não pode ser coincidência!

Pois é, as coisas boas também acabam - um brinde ao voto útil!


Abraço mnemônico.

Daniella disse...

Ok. Reconheço.
Essa foi espetacular.

Anônimo disse...

Gosto da sua displicencia... é sempre muito divertido te ler...

Kika disse...

Espetacular, rapaz! :)