quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Evoé, Dona Justiça: a divina e a outra

Pão quente na mercearia.... Aquele café de coador impregnando a mercearia. Texto novo.

Uma singela homenagem ao dia da justiça e aos Advogados Resignados, esses parvos que insistem nos sapatos e meias, quando os pés querem trafegar descalços.

E neste 2010, o Dia da Justiça caiu numa quarta feira, o que para os acreditem piamente na sorte, esses românticos tolos, é dia de jogar na loteria...

Mercearia que se preze tem na esquina de baixo uma boa banca de jogo, sempre.

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Já tinha recebido alguns avisos dos deuses. Todos foram dados e ainda assim insistia. Num calor infernal, sem ar condicionado, pé inchado, papas de suor na camisa e nó da gravata apertando o gogó, teve outra daquelas visões inexplicáveis para o seu sorriso de ateu convicto e praticante.


Desde o fim da faculdade tinha um sonho esquisito: Sonhava reiteradamente que não tinha cumprido os créditos e que não receberia o diploma. Sim, um sonho repetido como “Ao mestre com carinho” no Dia do Professor. E ele saía procurando notas pelos corredores da faculdade, na certeza que não tinha direito ao diploma, por faltar algo, um pedaço.


Noutra vez foi fazer uma anotação na carteira da Ordem dos Advogados. Para quem não sabe a Ordem fica na Praça da Sé em São Paulo, perto da igreja. Lá pelas tantas a atendente, toda sorrisos, diz: “Então, tá. Sua inscrição está cancelada.”. Tocaram os sinos da igreja, numas badaladas ruidosas, de vitória. E ele foi assinando o termo, sem ler. “Tá certo. E quando venho pegar a carteira nova?”. A mocinha sorriu: “Que carteira?”. Só neste exato momento percebeu que ao continuar a assinar o formulário estaria era cancelando sua inscrição. Rasgou o papel, conversou com a atendente, explicou o desentendido. Mas os sinos pararam de badalar.


E, num belo dezembro, vejam vocês, o terno novinho, aquele que só era usado em casamento, passou a ser o único terno viável para se ir trabalhar. O único da Silva. Os outros estavam na lavanderia ou no alfaiate, para reparos gerais de sobrevivência. O terno do casamento, todo garbo, utilizado umas três vezes na vida. E durante a reunião percebe algo insuportável: O terno novíssimo estava com os fundilhos rasgados. Sim, um furo do tamanho da carteira da Ordem. Viu um anjo, e de vestido curto, de soslaio, rindo na cabeceira da reunião, acompanhado de algum espírito da vó.


Era mais um aviso, sabia. Em pleno dia da justiça, fundilhos rasgados. Resolveu correr para a lotérica, antes de ir ao alfaiate: “Deuses, eu já entendi. Mas os números da megasena iam deixar a vontade de vocês tão mais fácil”.

2010. dezembro, 08.

2 comentários:

giselle disse...

kkkk, este texto tem mesmo a nossa cara e a Justiça? as calças rasgadas e os fundilhos de fora!


Adorei!!!

Beijos, meu lindo

Giselle Zamboni

Renata disse...

Suspeito que os anjos estejam enganados. Sempre acharei isso.
A Igreja historicamente mostrou-nos que estava errada, inúmeras vezes...
Mas que a Justiça está capenga, que nem seus termos, ahhhh, isso está.
Vou comprar um terno novo pra você!
Beijo.