quarta-feira, 23 de julho de 2008

E o palhaço o que é???

Mais um texto da série já publicada nos Bolonistas. Já escrevi antes: xodó. Gosto muito de escrever e reler essas pequenas historietas...

Publicado originalmente aqui:

http://osbolonistas.zip.net/arch2007-10-01_2007-10-31.html#2007_10-18_15_45_30-2402205-25

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Bolonistas Saudosos das Outras Histórias...



O fusquinha azul subia e descia as ladeiras da cidade. Rodava, passeava, cantarolava. Munido de um estridente aparelho de som, com chiados, quase inaudíveis as frases ditas, de forma rápida. Mas elegantes. “Hoje tem marmelada? Tem sim senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim senhor.” Era o anúncio, do circo. O circo e a cidade. As crianças todas vivendo euforia. A tenda colorida. O fusquinha.


Os olhos curiosos e pretos do pequeno Leônidas cintilavam. Camisa do Alecrim, sempre. Inseparáveis. E a bola de meia. O pai, seu Arthur, ainda inconformado com a opção do menino, vestia a camisa do ABC. Coisas de família. Simples, mas teimosos na vida.


O pai, nome Arthur por causa do genial boleiro Friedreinch, já tinha escolhido o nome do menino. Leônidas. O craque que inventara bicicleta. Que jogava para dentro da baliza a pelota com as pernas no ar. O Diamante Negro. E tinha outros planos para o filho: Ser doutor e torcedor do ABC. Assim como o avô, o pai e os tios. Nasceu num Alecrim e América, entretanto.


Desde pequeno Leônidas escolheu o Alecrim. Amor desses que não tem muita razão nem explicação. Talvez o verde da camisa. Talvez o hino. Mas foi assim. E o menino ganhou de um vizinho a camiseta cinco, inseparável. E quando o pai lhe provocava, “sarreando” a opção, respondia, de pronto: “É o único time do Brasil que teve um Presidente da República!!!”. E era. Café Filho jogou nos potiguares da vida.


O fato é que o menino não dormiu mais depois das notícias dadas pelo fusquinha. Imaginava o circo. E na volta da escola fazia questão de errar o caminho e olhar para a tenda colorida. Os animais. Os gritos. As cantorias. As bicicletas num canto. Sonhou com aquilo tudo. Uma, duas, três noites. E sábado nunca chegava.


Chegou. E foi como o Alecrim. Inimaginável alguma razão para tirar o menino do campo de terra da matriz, antes do escurecer. Mas naquele sábado o menino já estava de banho feito, antes da novena. O pai encantado levou o menino e os irmãos.


Espetáculo. Os olhos, as mãos, os pés. O corpo. O menino não imaginava aquilo. E teve o fogo, dos cuspidores. Os trapézios. Os domadores. As canções. E os palhaços. Na primeira risada estava dado o destino. O pai percebeu, por instinto. “Nem ABC, nem Doutor.”. O menino chorou ao fim do ato. E decidiu ser palhaço. O “Galante Alecrim”. Faceiro, inteligente, alegre, Chaplin. O melhor dos Carlitos. Já com quinze anos conhecia o Rio de Janeiro e a Cidade do México. Aos vinte, Lisboa. O palhaço mais feliz do mundo.


Nos festivais internacionais, convites não faltavam, foi conhecer o mundo e outros circos. Outros times. Sempre levava a inseparável camiseta cinco. E trocava com franceses, ingleses, camaroneses, poloneses, por camisetas de outros times. O “Galante Alecrim” fez fama. E seu Arthur repetia, com um imenso sorriso no rosto: “Nem Doutor, nem ABC. Mas também nunca foi América!!!”


“Uma pirueta, duas piruetas.” E num desses foi parar em Moçambique, Maputo. Circos que alegravam aquele país pobre e triste, mas de imensa alma. O sorriso das crianças todas. E um sorriso especial, que nunca mais pode esquecer. Ela vestia branco, um lindo colar e escondia a longa cabeleira no uniforme colado ao corpo. A trapezista e o palhaço. A história foi assim. Como o Alecrim.


2007.outubro

Um comentário:

o amnésico disse...

Ainda bem que gostas de remexer nesses pedaços de delícias, uma
segunda chance de um relapso de apreciá-las.