quarta-feira, 7 de julho de 2010

Molecagens...

Este texto foi um presente para um grande amigo, o Deco.

Originalmente publicado aqui: http://bit.ly/cCTMDQ

O tema? Futebol. Será?

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O Escarlate Genial



E tem gente que acha que futebol é só um jogo. Futebol, antes de tudo, é afeto. É brincadeira de bola.


De tempos em tempos alguém se lembra do lendário time da quarta série. Um time que castigava adversários, com um futebol de roda, alegre, divertido e saboroso. O uniforme vermelho vivo, com golas e punhos pretos, calções brancos e meiões rubros serviu de inspiração para uma centena de outros times da escola. Nas galerias de fotografias do grupo escolar e dos campeonatos de bola, aquele pavilhão é sempre reconhecido. Alguns sabem, ainda, a escalação completa daquele time de guris. Os sete jogadores que encantaram o mundo naquele distante ano de 1979.


Todos se recordam que o time era imbatível. Impiedoso. Um time que nunca jogava para ganhar, mas que ganhava todas. Quase sempre com goleadas. E nos jogos imprevisíveis, difíceis e renhidos, era alguma mágica que resolvia o assunto. Um time inesquecível. Memorável.


Os comentários são sempre exagerados. Mas quase todos concordam que aquele time era um assombro. Um time de quarta série que colocou na roda o time da sétima A, segundo a lenda. É verdade que o professor de educação física que apitou este jogo notável proibiu os alunos do ginásio e que eram repetentes de jogar aquela peleja e que na partida tenha dado duas penalidades inexistentes para o expresso vermelho. Mas estes fatos de bastidores quase ninguém se recorda. O milagre é que é a memória.


Um timaço completo. No ano seguinte o tal Diretor inscreveu o super time no campeonato estadual e foi um verdadeiro fiasco. Um fiasco de proporções “bushinianas”. O Expresso ficou em último em um grupo de seis escolas, desclassificado com cinco derrotas e dois míseros goles anotados.


De birra, o tal Diretor, com soberba e casaca, deu bolsa de estudos para uns meninos do colégio campeão estadual para o outro ano e fazia pompa: “Esse negócio de Expresso é pura fantasia. Agora nossa escola vai ganhar a taça!”.


Ganhou, evidentemente. Com sobras. Houve festa, fanfarra e os meninos tiveram as bolsas de estudo renovadas e os que estavam para repetir de ano puderam fazer uma prova final no ano seguinte, onde bastaria a nota um. Mas na escola quase todos, exceto o Diretor e o Adjunto, diziam que aquele time ultra campeão não era páreo para o velho time da quarta série, o Escarlate Genial.


Um belo dia o capitão do master time campeão, o time da sexta série A, de saco cheio da fama do outro time, resolveu lançar um desafio: “Vamos jogar com este timinho aí de álbum de figurinha.”


Dia de festa. Era um sábado de dezembro, quase férias. Os campeões, de azul, com um dístico da Secretaria Estadual de Educação, informando a posse do caneco, entraram na quadra e receberam as faixas do título entregues pelo Diretor e pelo Adjunto. Os meninos da quarta série, quase todos também na sexta série, exceto o goleiro que tinha repetido e estava na quinta, mandaram fazer outro jogo de camisetas, novinho e vermelho, entraram com os aplausos entusiastas dos alunos, dos professores e dos funcionários.


O placar? Quem viu o jogo se recorda até hoje da memorável aula de futebol: 6x2 para o time da Quarta Série. Com direito a olé e um gol de chilena, depois de uma carretilha. O Diretor, comentam alguns, ficou furioso. O Adjunto escorregou e quebrou o pé.


Enfim, o time da quarta série nunca mais ganhou um campeonato. Ninguém virou jogador, treinador, professor de Educação Física. Mas a legenda era tamanha que até a sala de troféus foi pintada de vermelho, pelos sucessores do Diretor e do Adjunto. Anos depois, perguntei para um dos sete porque aquele time só conseguiu jogar o fino na quadra central da escola. Ele respondeu, na lata e sorrindo: “A gente jogava daquele jeito só para chamar a atenção das meninas.”




09. fevereiro, 10.

2 comentários:

Deco disse...

Jogo? Que nada: outra bossa. Que delícia reler este texto. Saudades, meu velho. Beijão. Deco

Andréa Motta disse...

Eu adorei esse texto, belíssima crônica.