quarta-feira, 4 de agosto de 2010

E na mercearia, papo de eleição

Aos transeuntes que passeiam nesta quitanda, peço um pouco de paciência.



Sim, os textos estão um pouco parados.



Trabalho, correria, cansaço...



E deixo aqui um texto de política, pois não há lugar melhor para falar disso do que numa mesa de bar, linguiça na porção, um parmesão bem cortado e uma(s) geladas.



E dedico o texto, sim: Para minha mãe, Maria Helena. A baixinha feroz que colocou na alma dos "Amaral" o vírus da política.



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Lá vem o Amaral...



É ano de eleição, e muitos já esperam o óbvio: “o chato do Amaral vai mandar texto sobre política e eleição.”. É... tradição é assim, como queijo ralado e macarrão.



Mas este é um texto diferente. Porque não vai ser um texto descrevendo conjuntura, maquinando sonhos, criticando juros, falando de abutres. Bom, o texto toca nestes assuntos. Mas desta vez, este primeiro texto, vai ser diferente. É um texto bem mais pessoal. E peço licença, então, para escrever coisas de forma ainda mais apaixonada.



Nestas eleições o meu irmão, o Eduardo Amaral, que muitos de vocês conhecem, topou a brincadeira e a levou a sério: O Edu é candidato a deputado estadual pelo PSOL.



E o Edu não é candidato porque acordou pela manhã, olhou no espelho e concluiu magicamente: “Quero ser candidato!”. Não, o Edu é candidato porque faz política, se envolve, se mistura, briga. Porque um coletivo que reúne pessoas que militaram com ele, seja no movimento estudantil, no sindicato dos professores da rede pública, na sua militância na área da educação e na militância pelos direitos humanos, resolveu que é necessária a disputa de idéias, planos e sonhos no processo eleitoral. E resolveu entender que o Edu era um bom representante para ser o porta voz desta necessidade.



Tive sorte de militar com o Edu. E não estou dizendo da militância na casa da Dona Maria Helena e do Seu Nilton, que nos levou para praças de camiseta amarela nas Diretas ou outras campanhas políticas. Éramos crianças, nossa participação era aprender e aproveitar a oportunidade que nossos pais nos davam ao não fugirem do tema “política”.

Militei com meu irmão no movimento estudantil, quando eu já estava saindo da Faculdade de Direito e ele participava do Centro Acadêmico da Filosofia. Fizemos parte de uma campanha para o DCE da USP, numa chapa com o simbólico nome de “Socialistas, Sim!” e que tinha um dinossauro como marca. Desta época, aprendemos que numa campanha política importa menos a vitória eleitoral. O que realmente é fundamental é promover o debate, discutir, agregar para ganhar força política e interferir. Perdemos aquela eleição, mas na eleição seguinte boa parte daquele grupo participava de uma chapa vitoriosa nas eleições no DCE.



O Edu seguiu no Movimento Estudantil da USP. Formou-se em Filosofia, se transformou em professor da rede pública. Começou a militar no Sindicato da categoria de professores e começou a pensar, refletir, opinar, ouvir e ser ouvido quando a assunto é educação. Educação como política pública, dentro e fora da sala de aula.



É verdade que o Edu e eu seguimos trilhas diferentes na política. O Edu foi para o PSOL e eu continuei no PT. Mas nos debates de almoço na casa da mãe que aprendemos a lidar com nossas diferenças, ainda que sempre demonstradas com exacerbada paixão. Concordamos: política só pode ser feita com paixão.



E é esta paixão, que andava, no meu caso, recolhida, escondida, tímida, acabrunhada, que me faz querer participar da campanha do Edu. A política não é lugar para desencanto.



É preciso, sim, ir ao debate e à polêmica, sem medo!



Sim, questionar aqueles que acham que o mundo do trabalho se resume numa equação simples de patrões e empregados, todos com o devido encaixe no sistema. Dizer que a redução da jornada de trabalho não é um “mimo” para os trabalhadores. Dizer que previdência social não é “onerar” a folha de pagamento. Dizer que margem de lucro não é a certeza de ganhar “mais”, sempre.



Sim, questionar aqueles que acham que educação é sinônimo de preparação para o mundo do trabalho. Afirmar que educação é política pública de formação de gente. Gente que pensa, que lê, que canta, que sai para passear, que come, que bebe, que interage.



Sim, dizer em alto e bom som que as distinções em razão de sexo, cor, orientação sexual, credo, não podem ser admitidas. Dizer que mulheres e homens devem ser respeitados em suas opções, suas crenças, seus valores. Dizer que somos todos mulatos, miscigenados e que devemos, sim, fomentar políticas públicas de inclusão. Afirmar que casamento é para todos aqueles que querem ser felizes, não importando o modelo de família que quiserem seguir.



Afirmar, com todas as letras, que a sociedade deve se responsabilizar pelos serviços públicos, com um estado que vá muito além da regulação. Que os servidores públicos não são uma casta privilegiados, mas que devem, sim, cumprir o exercício da função pública, com condições dignas de trabalho para que se possa definir direitos e deveres.



Sim, que queremos ter acesso a melhores informações, plurais nos conceitos e no conteúdo e que respeitem nossa cultura, nossos credos e opções, o que hoje é inviável devido ao monopólio secular dos meios de comunicação e a ausência de qualquer instrumento de acompanhamento crítico destes meios por parte da sociedade.



Óbvio, que o tema da dívida pública não é algo superado. Que o Estado precisa auditar a dívida pública, verificar se já não pagamos o que emprestamos, verificar se estamos pagando em razão de acordos e contratos legítimos e que devemos ter coragem de não pagar o que for ilegítimo.



Por fim, reconhecer que o Parlamento tem limites. Mas que é essencial ocupar a tribuna e não se acomodar.



Enfim, quem recebe este texto tem alguma relação com o Amaral, o Fernando, o Fê. Sabemos o quanto da política me move, me faz querer outras coisas deste mundão.



Neste ano, meu voto é uma rima: Para estadual, 50.740, Eduardo Amaral.





Abraço,



Fernando Amaral.



PS. 1: Conheça o “blogue” do Edu:



http://psolsp.org.br/eduardoamaral/



PS. 2: Ou o “tuíter” – www.twitter.com/edu50740 ou o @edu50740

3 comentários:

Eliana Klas disse...

Fernando...muito bom ver o desencanto substituido pela paixão! Pela certeza de que a polêmica e o debate valem a pena.

Penso que em uma nação como a nossa o povo não pode ter um único partido no qual possa acreditar. A demogracia merece mais.

Eu acredito profundamente na liberdade de sermos o que viemos pra ser. E liberdade sem respeito aos direitos não é liberdade, é hipocrisia.

...confesso que fui picada pela mosca da empolgação.

Desejo vitória ao seu irmão mas sobretudo desejo que seu coração encontre a paixão ardente que move os apaixonados...só os que tem paixão podem mudar o mundo. Ou ao menos plantar sementes.

Forte abraço,
Eliana Klas!

Vanessa disse...

Que texto bonito!

Apresenta uma delicadeza e uma percepção do mundo, da política, dos pais, do Edu - seu irmão -, que poucas pessoas conseguiriam expressar utilizando a escrita.
Faz com que sitamos vontade de continuar... Então, continuamos!

Andréa Motta disse...

Sabe o mais legal do seu texto? Apesar de ser escrito com o propósito de falar da candidatura de seu irmão( essa foi minha percepção), o texto tem a lucidez que extrapola o momento eleitoral. Fez-me lembrar daquele texto "Analfabeto político", do Bretch. Não é possível pensarmos em política em ano de eleição e fecharmos os olhos nos outros momentos.

Gostei especialmente do trecho "Educação é política pública de formação de gente." , não por eu ser professora, mas entendo que aqui está resumido todo o seu artigo. É pela educação - a de casa e a da escola - que aprendemos a respeitar todas as diferenças citadas por você.

Mais uma vez vim tomar um golinho e bebi a garrafa toda! Bom sábado.