domingo, 4 de dezembro de 2011

Ao Doutor


"Faço uma promessa: Se a emenda das Diretas passar, não vou para a Itália e fico jogando no Brasil."



Puta dia triste. No meu Estrelão, sempre um espaço para gastar nostalgias, saudades, tristezas, alegrias, memórias, criancices, narrar jogos sozinho, gritar euforias de time, ser torcida e arquibancada, um refletor desligou. E um baita refletor. Daqueles que só de lembrar, da luz, da cor, da felicidade, dói tudo nas entranhas. O melhor do futebol é aquilo que guardamos de criança. E é sempre ruim, muito ruim, quando um pedaço deste infante se vai. Já não existe Papai Noel, já não existe mundo colorido, já não há andar descalço... e agora acabou-se 1982, acabou a única copa do mundo de futebol que, de fato, existiu.


Sócrates era corintiano. Era brasileiro. Era uma sumidade. Mas era palpável, próximo, do caderno de anotações. Era incongruente como nós, falava de política com os mesmos desatinos, acertos, erros miseráveis, sonhos e a doce utopia, a única que nos faz realmente gente, de querer um mundo diferente, menos macambúzio, menos marquetinque, menos comércio, mais papo de bar, mesa de ferro, futebol de botão. Sócrates não se acomodava na política do possível e por isso Sócrates nunca engoliu 94. Porque 94 é vitória, conquista, maravilha. Mas é a política do possível, é o governo sem reforma agrária, a inexpugnável vitória da real politik, da arena multiuso, da arquibancada com cadeirinha de espuma para a bunda.


1982 acabou. Zoff não vai mais me acordar durante o pesadelo. A cabeçada de Oscar no final do jogo nunca mais vai passar a linha. José Silvério nunca mais gritará “é campeão”. Zico nunca mais terá a chance de cobrar a penalidade que Gentile fez, a camisa do galinho nunca mais será remendada. Serginho não dará uns safanões naqueles italianos de ternos armani. Paolo Rossi não será alvejado por uma bazuca quântica de oito mil polegadas. Mestre Telê nunca mais fará a coletiva ao lado da taça FIFA, talvez a taça que mais bonita ficasse na sua coleção. 1982 ficará naquele gol espetacular, mágico, inenarrável, estupidamente soberbo do Doutor contra o maldito Dino Zoff, onde a pelota foi entrar cantinho da meta, no único lugar do mundo que deus pode ajudar.


Que os Deuses, na peleja de hoje a tarde, coloquem o Sócrates no time dos sonhos. É dele a braçadeira. É nossa a saudade. Que o Corínthians de hoje jogue por ele, menos pelo título, menos pelo campeonato, que o time do povo, sem demagogia alguma, possa, ao menos hoje, ser o time do povo. Sem o possível. De coisas possíveis estamos todos com o saco repleto, absolutamente farto.


Sócrates, peço benção Doutor. Te cuida.

11. dezembro, 04.

Texto também publicado n'OsBolonistas:

http://osbolonistas.zip.net/arch2011-12-01_2011-12-31.html#2011_12-04_13_18_42-2402205-25

2 comentários:

Francisco Bicudo disse...

Bravíssimo, meu camarada! Beijos.

marcelo fraga disse...

Esse é o meu Rei. Texto duca.