quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O Blogue Sempre Volta Quando Preciso Falar Com Mais Alguém



No domingo, noite, meus dois filhos me mandaram mensagens - desanimados, tristes, indignados. E, por mais que eu tivesse esperando um cenário até pior do que o que aconteceu de fato, isso me entristeceu muito. A falta de esperança - ou de perspectivas - vai minando a gente, sugando tal qual dementador de filme de bruxo. Nós, psicanalistas, estudamos e nos inquietam as pulsões, de vida e de morte. É sobre elas este texto, ao final. Mas, sobretudo, é para eles, para os três, os meninos e a menina, que tento escrever aqui para dizer de amor e de desejos, e de lutas.


O resultado eleitoral trouxe frustração e incredulidade. É difícil compreender a força de um discurso simplista, violento, racista e machista, tudofóbico (inclusive da alegria). É broca perceber a tolerância com escândalos e a relativização de fundadas suspeitas de vínculos com milícias e com o crime organizado, a perseguição de crenças religiosas e a naturalização do autoritarismo por uma imprensa que tantas vezes o apresenta como expressão corriqueira da democracia - esquecem do cercadinho, com facilidade espantosa.

 

Há também um fracasso - e poucos falam disso, deveriam falar, pensar, descrever, elaborar mais - político das legendas de centro, de centro-direita e da direita tradicional: sua incapacidade de oferecer alternativas à indigência política e moral da extrema direita, especialmente do bolsonarismo.

 

A falsa simetria entre Lula e Bolsonaro empobrece a compreensão do que está em jogo. A democracia, com seus defeitos e suas dúvidas e defeitos, sustenta os caminhos pelos quais podemos disputar projetos, conquistar direitos e viver juntos, conviver. A barbárie corrói esses caminhos e entrega a sociedade à violência, à intolerância e ao poder dos mais fortes — sobretudo dos mais ricos e privilegiados.

 

Precisamos defender nossos diques de contenção: o SUS, a educação pública, os direitos sociais, as instituições democráticas. Na pandemia, o SUS impediu uma tragédia ainda maior, enfrentando potentemente a incúria de um governo hostil à ciência, às vacinas e às políticas públicas, à solidariedade. Esses diques tornam a convivência possível. Sua destruição abre caminho para o salve-se quem puder, um “Mad Max” de abandono e brutalidade.

 

Nos dias que restam, precisamos transformar a incredulidade em disposição para agir. A caça aos culpados e o ressentimento consomem a energia necessária para construir o futuro. O ressentimento é o mais moribundo dos afetos.

 

Temos algo muito melhor a oferecer: cuidado, direitos, liberdade, arte e uma vida em comum, em sociedade. É por esse futuro que vale lutar.

 

É por vocês, meus meninos, minha menina, pelos meus pais, pelas minhas amigas, amigos, pelo bom dia na padaria da esquina, pelo abraço na arquibancada, pelas artes todas, pelos afetos.

 

Sim, é isso que está em jogo. E vale, sim. A vida presta.

 

 

Lula, 13.

 

 

PS: A fotinho abaixo é uma montagem da IA de uma participação em reunião entre trabalhadoras e trabalhadores do sistema de vigilância sanitária na cidade de São Paulo, organizada pelo Ministério Público do Trabalho e pelo Sindsep, sindicato que presto assessoria há anos.

Viva o SUS!





2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto!! Tomara que tuas ideias..incredulidade ..sentimentos..esclarecedores e verdadeiros contribuam a mudar o rumo da realidade e do triste panorama atual deste querido país.

Anônimo disse...

Muito bom seu texto, como sempre, meu filho!