No domingo, noite, meus dois filhos me mandaram mensagens -
desanimados, tristes, indignados. E, por mais que eu tivesse esperando um
cenário até pior do que o que aconteceu de fato, isso me entristeceu muito. A
falta de esperança - ou de perspectivas - vai minando a gente, sugando tal qual
dementador de filme de bruxo. Nós, psicanalistas, estudamos e nos inquietam as
pulsões, de vida e de morte. É sobre elas este texto, ao final. Mas, sobretudo,
é para eles, para os três, os meninos e a menina, que tento escrever aqui para
dizer de amor e de desejos, e de lutas.
O resultado eleitoral trouxe frustração e incredulidade. É difícil compreender a força de um discurso simplista, violento, racista e machista, tudofóbico (inclusive da alegria). É broca perceber a tolerância com escândalos e a relativização de fundadas suspeitas de vínculos com milícias e com o crime organizado, a perseguição de crenças religiosas e a naturalização do autoritarismo por uma imprensa que tantas vezes o apresenta como expressão corriqueira da democracia - esquecem do cercadinho, com facilidade espantosa.
Há também um fracasso - e poucos falam disso, deveriam
falar, pensar, descrever, elaborar mais - político das legendas de centro, de
centro-direita e da direita tradicional: sua incapacidade de oferecer
alternativas à indigência política e moral da extrema direita, especialmente do
bolsonarismo.
A falsa simetria entre Lula e Bolsonaro empobrece a
compreensão do que está em jogo. A democracia, com seus defeitos e suas dúvidas
e defeitos, sustenta os caminhos pelos quais podemos disputar projetos,
conquistar direitos e viver juntos, conviver. A barbárie corrói esses caminhos
e entrega a sociedade à violência, à intolerância e ao poder dos mais fortes —
sobretudo dos mais ricos e privilegiados.
Precisamos defender nossos diques de contenção: o SUS, a
educação pública, os direitos sociais, as instituições democráticas. Na
pandemia, o SUS impediu uma tragédia ainda maior, enfrentando potentemente a
incúria de um governo hostil à ciência, às vacinas e às políticas públicas, à
solidariedade. Esses diques tornam a convivência possível. Sua destruição abre
caminho para o salve-se quem puder, um “Mad Max” de abandono e brutalidade.
Nos dias que restam, precisamos transformar a incredulidade
em disposição para agir. A caça aos culpados e o ressentimento consomem a
energia necessária para construir o futuro. O ressentimento é o mais moribundo
dos afetos.
Temos algo muito melhor a oferecer: cuidado, direitos,
liberdade, arte e uma vida em comum, em sociedade. É por esse futuro que vale
lutar.
É por vocês, meus meninos, minha menina, pelos meus pais,
pelas minhas amigas, amigos, pelo bom dia na padaria da esquina, pelo abraço na
arquibancada, pelas artes todas, pelos afetos.
Sim, é isso que está em jogo. E vale, sim. A vida presta.
Lula, 13.
PS: A fotinho abaixo é uma montagem da IA de uma
participação em reunião entre trabalhadoras e trabalhadores do sistema de
vigilância sanitária na cidade de São Paulo, organizada pelo Ministério Público
do Trabalho e pelo Sindsep, sindicato que presto assessoria há anos.
Viva o SUS!

2 comentários:
Parabéns pelo texto!! Tomara que tuas ideias..incredulidade ..sentimentos..esclarecedores e verdadeiros contribuam a mudar o rumo da realidade e do triste panorama atual deste querido país.
Muito bom seu texto, como sempre, meu filho!
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