sexta-feira, 25 de abril de 2008

Escondidos no Sotão


Eram dois. Não são mais. Paulo e Eugênio. O telefone toca. Nada de respostas. Só perguntas. E uma profunda dor. Inexplicável. E nem tanto.


Nunca soube diferenciar posse de amor. Ou mesmo de paixão. Era um sentimento tão forte que não conseguia encontrar forças para discernir. Com toda a sinceridade possível nesses sentimentos, sempre achou que fosse amor. Ou paixão. Nunca posse. E não tinha convicção. Nem certeza.


Assim, todo ciúme sentido era explicado pelos sentimentos profundos, e nobres, de paixão ou amor. Sempre encontrava nobreza nos atos aparentemente desconectados de razão. E os bolsos vasculhados, os papéis remexidos, as certezas das dúvidas e as incertezas das explicações. Mas no fundo, havia certo regojizo. Era paixão, e a imagem de um terceiro justificava todos os atos.


E sentia profunda derrisão pelos próprios sentimentos. Sempre havia a coordenada consideração teórica sobre as virtudes e sobre as verdades. E as mentiras. E quase sempre era a mentira que fundava as preocupações extremadas. Quase nunca se interessou pelas verdades.


Enfim, houve o dia da revelação. E como todos os monstros de todos os pensamentos mais obscuros saíssem na mesmíssima hora das masmorras chorou e destilou o ódio e o veneno acumulados. Sentia estranho prazer naquele sofrimento em que responsabilizava o outro pelos infortúnios da alma e do corpo. Na trilha do correio violado, as provas. Na trilha das conversas travadas, a confissão.


Esqueceu-se, porém, do outro. E na busca sôfrega para exportar o sofrimento, afinal não era justo sofrer sozinho, fez o que considerou justo. Esqueceu-se, também, da conta telefônica, aberta sobre a mesa. Na noite anterior ao dia da revelação, os números discados e expressos na conta de papel denunciavam o trote. E ali acabou tudo, o outro entendeu que era posse. Não quis participar do jogo. Foi embora. Sem virtudes. Mas sem dúvidas.

4 comentários:

Vanessa disse...

Declarar paixão não há prejuízo. Mas declarar AMOR sem convicção ou certeza é uma atitude, no mínimo, inconseqüente, irresponsável. Não há zelo pelo outro. Por outro lado, aquele que prefere aguardar a certeza do que realmente sente para então declarar-se, corre o risco de chegar tarde. Paulo e Eugênio. Nunca foram apenas dois, o que inviabiliza qualquer possibilidade de sentimento de posse. Não caberia tamanha incoerência. No fundo, cada um cria a verdade que lhe convém. É como se a habilidade atroz de mudar o foco pudesse eliminar os tropeços, o desleixo, a apatia. Quem sabe até aliviar uma possível culpa (se é que existe). Uma coisa é certa. Se o AMOR fosse mútuo haveria a tentativa do entendimento, quiçá do perdão. Mas não. Como sempre, preferiu tratar como um jogo. Mais fácil desistir, ir embora. Seria covardia? Ora, mas se há tanta certeza de que não há mais dúvidas...

Vivi disse...

Sem os tais jogos amorosos, a vida ficaria um pouco sem graça. Como dizem, os sentimentos são o tempero da vida.

Andréa Motta disse...

Vim agradecer sua adesão à blogagem coisas do Brasil e avisar que já o coloquei na lista de participantes. Um abraço!

Eliana Klas disse...

Texto que nos leva a refletir.

Muito embora me sinta desabilitada a comentar o assunto, pois há quem diga que jamais amei e por isto não consigo entender a posse como sintoma de amor...ou paixão.

Pra mim posse é posse.
E não podemos possuir pessoas.
Acho eu.

Enfim, nunca entendi que bolsos revirados, correios invadidos, telefonemas sondados fossem reflexos de amor ao outro.
Acho mais que é pouco amor a sí.

E, se de fato não existe amor há que existir outra forma de se perceber, sem ser invadindo o outro como se de fato o possuisse...

Enfim...
Eu não devo mesmo entender do que se fala no texto.
Tvz um dia me veja revirando bolsos e jurando que é por amor...
Aí prometo que volto aqui pra contar.

Beijo.

Lilica.