sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Confissões da Paternidade II

Outra das crônicas sobre a paternidade.
Publicada nos Bolonistas...
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Meu primeiro time de botão


Eu estava todo pirilampo. Meu filhote passou a noite mais tranqüila do mundo, o mais doce dos desejos de mãe e pai frescos. Acordou às quatro da manhã e às oito, sem choramingar, sem resmungar. A mãe trocou a fralda sem um piar. Já o pai, dormiu, pela primeira vez em alguns dias, com relativo sucesso. A mãe também, dormiu e se espantou com o relógio biológico do filho, um britânico.

Quanta coisa eu iria dizer para os avós. Para os amigos pais. Para todos. Que o menino era um dorminhoco e que aqueles pesadelos de noites pessimamente dormidas estavam totalmente afastados. A glória, enfim.

Mas a glória é efêmera e a vaidade é incurável. Peguei o menino no colo e sai a cantarolar pela casa. Ele adora saber das notícias do dia. Então, ato contínuo, o jornal na mesa, passo a ler as manchetes. Uma euforia relâmpago na bolsa, a instabilidade dos mercados, o Oriente Médio. Nada capaz de tirar a concentração e o olhar do herdeiro. Li algo quase que sem pensar e pronto, o semblante mudou, uma cara tensa, retesaram-se os músculos da face e um esboço de choro: São Paulo estréia na Libertadores, no Peru, contra o Alianza, depois de dez anos afastado do torneio.

Devia ter reconhecido meu erro ali naquele momento. Entretanto, a vaidade incurável me levou a fazer umas graças, sacolejando-o e ele voltou a paz. Não conectei a leitura do diário com a alteração de humor pueril. O jornal estirado na mesa e o menino caiu nos braços da mãe. Normal, normalíssimo.
Voltei à sala e ao periódico, ávido por notícias do tricolor mais querido do mundo. Lá do quarto ouvi um choro diferente, a mãe fez uns mimos e tudo bem.

O dia caminhou tranqüilo, é verdade. Só que o menino não dormia. Simplesmente resmungava no colo da mãe, no bebê conforto, no berço, no colo do pai. E, com olhares atentos, parecia querer vingar a noite de belezuras. Banho e nada. Todos sabemos que o ser humano que não faz a sesta fica irritável, esquisito e macambúzio. Os escritórios sabem que no período após o almoço se encontram as maiores incidências de discussões, desempregos repentinos e confusões. E bebê que não dorme, não faz a sesta, se transforma num verdadeiro caos chorão. A vaidade matinal, incurável, levou uma sincera lição.
Eu estava ficando desconfortável com tal situação. “E logo mais, tem jogo do São Paulo”, pensei. E o que faria? Ah.... o meu time é capaz de me trazer lembranças as mais lindas. Quando criança, queria ser Zé Sérgio. E não pude ser, minha habilidade para os esportes sempre foi temível. Os menudos de Cilinho, Careca e o Muller. Quantas recordações. E o Telê? E o Raí? Meu time foi duas vezes campeão do mundo.... Mas, se por um lado o time do coração nos enternece, ultimamente revela um ser mesquinho, doente, irascível, intratável, intolerante. Basta começar a assistir aos jogos pela televisão que me transfiguro, chuto a porta, esperneio e xingo. O rol de palavras chulas é interminável. Lembro de azia, São Paulo perdendo para o Cruzeiro a final da Copa do Brasil. Ânsia, tricolor aumentando a freguesia corintiana nas últimas finais. Raiva, um 7 a 2 da Portuguesa de Desportos....

Cacilda, não poderia ocorrer esta transfiguração no jogo da noite. Imagine o rechonchudo, choroso e manhoso, agüentando meu berreiro, minha inquietação, minha indignação... Minha mulher me matava e a mãe me dava as contas.... Tenso, o que faço?
O jeito era usar o mesmo remédio que venho utilizando há alguns anos. Para aplacar a fúria clubística tenho evitado acompanhar aos jogos, quando posso. Desligo a TV, assisto a MTV. Desligo o rádio e ouço música. Saio para beber um chope. “Hoje, vou assistir Casablanca”, pensei.
Quase me esqueço, com estes devaneios, do choro do menino. Agora um choro frenético. A mãe com uma cara de cansada e eu pensando no São Paulo. Culpa. O colo da avó, toda cuidadosa e ele se esgoelando. A gritaria toma proporções épicas quando sento no sofá e ligo a televisão. Chamo a minha mulher de lado: “Amor, vamos assistir um pouco de TV”. Pronto, o choro ganha um impulso sonoro de amplificador.
Um ato repentino. Me levanto, vou ao quarto e pego o bebê. Aquele rosnar, pois o choro era um rosnar, dá uma sensível diminuída quando inicio um embalar. Aquele rostinho de sorrisos involuntários (involuntários para os cientistas, para os pais é sempre um sorriso) lindo. “Mãe, vou com ele para o quarto, tá bom?” . Minha mulher, linda, solta um sorriso e agradece.
9 horas da noite no relógio. Ao segundo embalo, ritmado com “tapinhas” nas costas e ele dorme. Profundamente.
“ Serginho sozinho... Carlos sai do gol .... Serginho toca e é goooooool do São Paulo... agora não tem mais jeito, Serginho sacramenta o título. São Paulo, campeão paulista de 1981!!!!!” Eu tinha o quê? Nove anos? Eu chorava quando perdia. Chorava, mas não me lembro de ter quebrado nada de sério, um radinho de pilha talvez. Putz... quantos campeonatos eu não inventava no meu Estrelão, para ver o mais querido campeão. Preciso instalar minha mesa de botão.

9 e 35... o relógio. E o jogo. O que custa? Vou assistir, ponho a TV bem baixinho. No menor sinal de que deixaria ele no berço, um rosnar, tímido. Achei melhor levá-lo para a sala. Controle remoto na mão e, decidido, ligo a televisão. Com ele no colo, deitado.

Bola rolando.... E foi tranqüilo. Meia noite. As crianças adoram futebol.
2004, fevereiro, 12.

Um comentário:

Danilo Damasceno disse...

Cara belo texto alias belos textos, muito bom o espaço para ler tanta coisa boa, de qualidade que você escreve, essa historia me parecia familiar , mas o jogo era outro, é meu pai me contou essa historia, mas os personagens era eu e ele, e o time, era o amior do munod. Cara parabens ah e o livro Prenuncios do Amaral não deve demorar chegar porm ai não.hehe Abração e ja esta linkado no pitacos.