domingo, 17 de fevereiro de 2008

Confissões da Paternidade III

O Manifesto,
do Banho

O estado gravídico, como as médicas chamam, começa bem antes do moço ou moça propriamente dito. Sim... a primeira lição que os pais tomam em um consultório médico é que a gravidez se inicia exatamente no último dia do período menstrual anterior à fecundação do óvulo. Complexo? Um pouco, mas, se eu entendi direito, o que podemos eventualmente discutir, este fato explica porque contamos a gravidez por semanas e não por meses.

Contar por semanas? Meus caros amigos e amigas, a gravidez se conta por semanas e não por meses. Daí o primeiro mito que desmorona, logo na primeira consulta. Não são nove meses, são quarenta semanas de período gestacional. Nove meses é uma conta de chegada, uma contabilidade popular que ganhou as ruas e as multidões. Quarenta semanas, a ciência indica quarenta semanas. Quarenta, mas pode ser um pouco menos ou pouco mais. E tudo é normal. Normal? Normal para quem?

Bom, com este intróito sobre a gravidez, recordo o quanto de atividades preparatórios envolveram o casal nas quarenta semanas. Literatura especializada e literatura de novela, ultra-som, dicas de todos e de todas sobre como ter, criar e se livrar de filhos, dicas úteis, dicas completamente inúteis. E o curso de gestante...

Foi neste curso que tive o primeiro contato com o banho do bebê. Numa turma repleta de grávidas, com graus complexos e diversos de ansiedade, e grávidos, sempre muito ansiosos, uma enfermeira ensina dicas sobre os instantes decisivos do parto e sobre os primeiros cuidados com o nenê. E há uma aula específica sobre banho.

Na aula do banho pude perceber como tudo parece ser absolutamente impossível. Com o auxílio de uma boneca, a enfermeira vai "ensinando", passo a passo, como dar o esperado banho. " Segurar o bebê pela cabeça? Segurar de forma que as orelhas do pequeno fiquem cobertas pelos seus dedos? E as têmporas, o que faço com as têmporas? Limpar as narinas com cotonetes? Minha nossa, nem as minhas narinas são limpas assim!!! E o cuidado com a limpeza das dobrinhas nos meninos e nas meninas???" . De saída, meninos e meninas já tem diferenças fundamentais... Isto eu já devia saber, não?

Mas a aula prosseguiu, em um ritmo maluco. As perguntas eram as mais diversas: " E se cair água no ouvidinho?". " E se ele cair com o rostinho na água?" " E se..." . A enfermeira, paciente: " Vai dar dor de ouvido. Por isso temos que segurar o bebê pela cabeça, desta forma..." E mostrava a cabeça da boneca na palma da mão, o dedão em uma orelha e o indicador na outra. A boneca, coitada, parecia sufocada. " E o meu filho? E o meu filho? E as têmporas????". Só pensava nas têmporas. Neste pânico interno eu queria chamar a minha mãe, minha avó e queria chorar. Entretanto, pai participativo, não queria transparecer para a minha esposa este pânico e tentava, com esforços que me davam cãibras mentais, parecer seguro e confiante.

Repentinamente, risos nervosos na sala. A cabeça da boneca caiu!!!!!!!! A costura soltou, a cabeça da boneca descolou do corpinho e saiu rolando.... Neste momento quase desmaiei. " E as têmporas?"

Com o fim da aula, confesso, fui buscar reforço. Peguei a literatura especializada e percebi que, com calma, tudo sairia bem. Na literatura de novela constatei que se fulano e beltrano estão inteiros é porquê dificilmente cabeças rolam pelas banheiras. Assisti até um documentário do "Discovery Channel", numa madrugada qualquer. Era esperar para ver.

Maternidade. O dia passa rápido, muito rápido. Mas, como o tema é banho, dá tempo para assistir embasbacado ao primeiro deles. A enfermeira pega o menino, segura pela cabeça e manda ver. Gravei tudo, em caso de emergência. Pai participativo tem que dar banho, sem traumas.

No dia seguinte ao parto, ainda na Maternidade, a mãe e o pai são chamados para, dentro do berçário, acompanhar "o banho do bebê". A mãe deu um show! Apesar do choro esgoelante, colocou o herdeiro na banheira, segurou firme e o resultado final foi bastante positivo. Tenho fotos que confirmam o episódio.
Estávamos preparados para o teste final: O primeiro banho, em casa. Pobres mortais. Nós e ele, claro.

A potência vocal, as pernas agitadas e incontroláveis chutando tudo, o local do banho (um verdadeiro drama)... As têmporas se salvaram, mas eu suava tanto que até uns respingos caíram no menino. Ele chorava copiosamente, mesmo na posição de bruços, indicada para "acalmar". No fim, tudo bem. Passamos no teste. Doce ilusão....

Pais e Mães de todo mundo, uni-vos!

Cada dia é um dia e neste começo de vida todo dia é mesmo um dia diferente. Se no primeiro banho houve comemorações, não se pode, nunca, afirmar com exatidão que os próximos as terão. As têmporas não são, de fato, um grave problema. Mas, e o cocô enquanto carregamos o pequeno, depois do banho tomado e ele todo limpinho e cheiroso, sujando tudo pelo caminho, toda a toalha, o trocador, o chão? Só de lembrar a minha cara de pavor! E desta feita nem a mãe escapou....

Duas semanas e estamos quase lá. Lá, no paraíso dos banhos bem dados. O menino chora, o que é óbvio, mas não é um choro insuportável. Se mexe, mas um mexe e remexe totalmente conciliável com o objetivo final, que é o banho. E mais uma vez, para provar que cada dia é um dia, quando relaxamos um pouco, confiantes nos êxitos dos últimos dias, esqueci de verificar a temperatura da água! Credo em cruz!!! A água pelando e o moço, numa reação naturalmente esperada, urrou. A mãe, pálida, me olha: "O que aconteceu?". Eu, percebendo o meu erro, pois segurava o infante, disse: " A água tá pelando!!!" O olhar da mãe quase me matou. Mas, modéstia a parte, eu retirei o peladinho da sopa em tempo recorde.

2004.

2 comentários:

Renata M. Domingos, mãe do João disse...

Sensacional!
Adoro seus textos sobre a paternidade.
Realmente o primeiro banho é a tarefa mais difícil pra um casal recém ingresso na função de mãe e pai.
Mas depois que se pega o jeito, até de olhos fechados conseguimos dar o banho, que se torna num gostoso evento do rápido dia da maternidade.
Beijo e parabéns!

Eliana, e faço como a Renata, mãe da Alice, princesa minha! disse...

Este foi o primeiro texto do blog que li...ainda não tinha visto o campo pra dar "pitacos", ou como preferiu: goles.

Então transcrevo aquí o e-mail que te mandei no dia seguinte, pra nossa memória:

Sempre tive um problema de aceitação com minha dificuldade no primeiro banho da Alice.
Mas, nem é muito consolo, pois dever ser coisa de pai.
Pelo menos todas as mães com quem conversei até hoje negam ter suado como loucas, a ponto de pingar na cria...
Mas eu nunca me esqueci daquele fatídico dia...suava como nunca.

O fato é que vc é ótimo.
Muito mais que bom.

Obrigada pela dica do blog, serei leitora fiel, e volto a lembrar: Ainda quero um livro autografado seu:

"De Fernando, pra Lilica"

Qdo chegar este dia, esteja eu onde estiver, não te esqueça de me avisar.
Ficarei na fila de autografos, pra te dar um forte abraço.