quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Vasculhando o baú...

Uma crônica....

Escrevi isso em algum lugar dos anos 90.

Ainda se entrava nos ônibus em SP pela porta traseira...

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A Doce Vida

Chovia. A aula acabou tarde e ele saíra somente às seis e meia. Detalhe, a matéria, ainda por cima, era ministrada na Cidade Universitária. A fome e o cansaço se somavam à angústia de ter que pegar o ônibus no horário de pico.
O Jaçanã ficava impossível naquela hora, eram todos voltando para casa, de saco cheio e pendurados em algum lugar da porta traseira. O cobrador sempre de mau humor e sem troco. A Teodoro Sampaio tem um trânsito horroroso e com a chuva o cenário era ainda mais desestimulador.
O guarda chuva só existe quando não chove ou para nos molhar as roupas. Janela fechada e tudo embaçado. Ele lembra Fellini e ri.
Calor. O casaco de náilon perdera o sentido. Estava extremamente irritante o contraste entre os casacos e as janelas. Visibilidade zero.
O ônibus seguia firme e nas proximidades da Consolação começa uma correria, uns empurrões, uns palavrões. Era o povo querendo saltar no ponto do Belas Artes. Ele finalmente conseguiu chegar nas proximidades da porta e, literalmente, saltou do ônibus. Aliviado, esquecera da chuva e pisou numa bela poça de água e, diante do inevitável mau humor, arrumou um fundo de inspiração e começou a dançar no toró, e a música do Chico era cenário ideal para o seu sapato branco de residente no Hospital Universitário...
"sambando na lama de sapato branco, glorioso, o grande artista tem que dar o tom."


E nem era sexta-feira.

2 comentários:

Stevan disse...

Olá, saudoso amigo Fernando. Podia usar outro adjetivo, mas não iria combinar com você, nem com a crônica. Sempre soube que escrevias muito bem, afinal éramos quase rivais da caneta na época de colégio. Mas me surpreendo cada vez mais que leio um texto seu atualmente. Os jornais estão perdendo um grande cronista. Jabor que se cuide...

Denise Carceroni disse...

Concordo com Stevan!
Ótimo texto se não fosse a porta de entrada, diria que foi escrito ontem.

Beijinho